Os últimos 30 dias foram intensos nos EUA. O assassinato de outro negro pelas mãos da polícia, em meio a uma crise econômica causada pela pandemia de COVID-19, estimulou protestos pacíficos e violentos pelo mundo. A tragédia também serviu para dar um novo fôlego ao debate sobre desigualdade racial nas sociedades, ainda que de forma bastante rasa e apelativa por alguns. O melhor exemplo disso foi a retirada de …E O Vento Levou do catálogo da HBO Max por trazer uma representação considerada ofensiva dos personagens negros.
O clássico de 1939 já voltou ao catálogo, agora com uma nota do “index prohibitorum”, uma introdução feita pela apresentadora e ativista Jessica Stewart que contextualiza a obra em sua época. Como se precisasse. “…E O Vento Levou ” é um filme famoso, ambientado em meio à guerra civil americana e filmado no final dos anos 1930. O contexto dele é óbvio e é evidente que, dado a esses fatores, não vai ter uma representação correta de uma pessoa negra.
…E O Vento Levou também foi o primeiro longa que rendeu um Oscar a um artista negro – no caso, uma atriz – Hattie McDaniel. Rejeitada por seus colegas brancos e criticada por ativistas negros, McDaniel costumava dizer que preferia interpretar uma empregada do que ser uma. Seu Oscar também não mudou em nada a sua carreira, como você pode conferir aqui. Desde então, mais 46 vitórias se seguiram ao longo de 92 anos de premiação, em diversas categorias. Algumas delas nunca tiveram vencedores negros, como é o caso de melhor diretor, melhor cinematografia, melhor edição, melhor curta-metragem e melhor filme estrangeiro.
Melhor Filme

Steve McQueen, em 2014.
Quem recebe o Oscar de melhor filme é, naturalmente, o produtor, até porque é ele quem faz o filme acontecer. É quem providencia tudo. Dito isto, o único negro a receber um Oscar porque produziu o melhor filme do ano (segundo a Academia) foi Steve McQueen no já longínquo 2014. O filme em questão foi 12 Anos de Escravidão (2013), baseado numa história real. Já houveram outros indicados bem conhecidos, como o maestro Quincy Jones (A Cor Púrpura, 1985), a apresnetadora Oprah Winfrey (Selma, 2014), Denzel Washington (Um Limite Entre Nós, 2016) e o cantor Pharell Wlliams (Estrelas Além do Tempo, 2016).
Melhor Ator

Denzel Washington em 2002.
Ao todo, quatro atores negros venceram categoria de melhor ator. O primeiro foi Sidney Poitier por Uma Voz nas Sombras (1963), que ganhou o prêmio depois de ter sido indicado anos antes por Acorrentados (1958). Décadas depois, Denzel Washington ganhou o prêmio por Dia de Treinamento (2001), mas o ator já havia sido indicado duas vezes antes por Malcolm X (1992) e Hurricane – O Furacão (1999); ele seria indicado em outras três ocasiões por O Vôo (2012), Um Limite Entre Nós (2016) e Roman J. Israel (2017).
Em 2004, Jamie Foxx tornaria a repetir o feito com Ray, biografia do músico Ray Charles. O último ator negro a ganhar o Oscar foi Forest Whitaker por O Último Rei da Escócia, de 2006.
Melhor Atriz

Halle Berry, em 2002
Halle Berry foi a única atriz negra a ganhar prêmio na categoria principal do Oscar, por A Última Ceia (2001). Outras doze atrizes já fora indicadas, como Viola Davis (Histórias Cruzadas), Whoopi Goldberg (A Cor Púrpura) e Angela Bassett (A Verdadeira História de Tina Turner). A primeira indicação para uma negra foi para Dolores Dandridge por Carmen Jones (1954) e a mais recente foi agora, em 2020, quando Cynthia Erivo foi indicada por Harriet (2019).
Melhor Ator Coadjuvante

Mahershala Ali, duas vezes vencedor.
O primeiro ator negro a ganhar um Oscar nessa categoria foi Louis Gossett Jr. por A Força de Um Destino (1982). Denzel Washington ganhou seu primeiro Oscar sete anos depois por Tempo de Glória (1989). O ator já havia sido indicado antes por Um Grito de Liberdade (1987), totalizando sete indicações ao todo, se considerarmos também as de melhor ator. Outros seis anos se passaram até Cuba Gooding Jr. vencer como melhor ator coadjuvante por Jerry Maguire: A Grande Virada (1996).
Em 2005, Morgan Freeman ganhou seu único Oscar por Menina de Ouro (2004), isso depois de ser indicado ao prêmio três vezes antes, a primeira por Armação Perigosa (1987), a segunda por Conduzindo Miss Daisy (1989) e a terceira por Um Sonho de Liberdade (1994). Freeman foi indicado mais uma vez por Invictus (2009). Mahershala Ali ganhou o prêmio duas vezes na década seguinte, o primeiro por Moonlight (2016) e o segundo por Green Book (2018).
Melhor Atriz Caodjuvante

Regina King em 2019: Ganhou Oscar e protagonizou Watchmen.
Hattie McDaniel ganhou por …E O Vento Levou (1939), o que abriu caminho para outras intérpretes negras na categoria, mas demoraria cinquenta anos para o feito se repetir novamente quando Whoopi Goldberg ganhou por Ghost – Do Outro Lado da Vida (1990). Nesse meio tempo, nomes como Alfre Woodard (Retratos de Uma Realidade – 1983) e até Oprah Winfrey (A Cor Púrpura – 1985) receberam indicações.
Jennifer Hudson, muito antes de passar vergonha em Cats, ganhou oscar de melhor coadjuvante por Dreamgirls (2006), ofuscando a colega de elenco Beyoncé. Mo’Nique ganhou em 2010 por Preciosa (2009) e compareceu à premiação usando um arranjo de orquídeas no cabelo para homenagear Hattie McDaniel, que recebeu seu Oscar usando um arranjo de orquídeas no vestido 70 anos antes.
Dois anos depois, Octavia Spencer ganharia por Histórias Cruzadas (2011). Em seguida foi a vez de Lupita N’yongo por 12 anos de Escravidão (2013). Viola Davis venceu em 2017 por Um Limite Entre Nós (2016), nesse mesmo ano ela concorreu com outras duas atrizes negras: Naomi Harris, por Moonlight e Octavia Spencer por Estrelas Além do Tempo. Regina King ganhou três anos depois por Se A Rua Beale Falasse (2018).
Melhor Animação

Peter Ramsey
Peter Ramsey foi o primeiro e único negro até agora a ganhar um Oscar por melhor animação, em 2019 por Homem-Aranha no Aranhaverso (2018). Ele dividiu o prêmio com os os outros quatro produtores.
Melhor Figurino
Ruth E. Carter
Ruth E. Carter finalmente ganhou o reconhecimento da indústria pelos figurinos elaborados por ela para Pantera Negra (2018). Ela já havia sido indicada outras duas vezes por Malcolm X (1992) e Amistad (1997). Apenas outra figurinista negra além dela recebeu indicações – Sharen Davis, por Ray e Dreamgirls.
Melhor Documentário

Ezra Edelman
O primeiro vencedor negro foi T.J Martin, em 2012, por Undefeated. O próximo seria Ezra Edelman por O.J.: Made In America (2016). Na mesma premiação, Edelman concorreria com Ava Duvernay (A 13ª Emenda), Roger Williams (Vida, Animada) e Raoul e Hébert Peck (I Am Not Your Negro).
Melhor Curta-Documentário

Roger Ross Williams
Citado no tópico anterior, Roger Ross Williams já havia ganhado o Oscar em 2010 pelo curta-documentário Music By Prudence (2009).
Melhor Trilha Sonora

Prince e seu Oscar por Purple Rain
Purple Rain é um marco na carreira de Prince. Foi nesse musical que o astro da música fez sua estreia na atuação e foi também o seu trabalho mais famoso, rendendo ao cantor um Oscar pela trilha sonora do longa. Somente Herbie Hancock e sua trilha para o longa por Por Volta da Meia-Noite (1986) foi premiado além de Prince.
Melhor Canção

Common e John Legend, em 2015
Isaac Hayes foi o primeiro negro a receber um prêmio na categoria pelo tema principal do filme Shaft (1971) – clássico da blaxploitation. Irene Cara foi a segunda artista negra a vencer nesta categoria pelo clássico dos anos 80 – Flashdance… What a Feeling – tema do filme Flashdance (1983). Seria a primeira vitória de um artista negro em três anos seguidos. O segundo foi Steve Wonder que ganhou no ano seguinte pela canção I Just Called to Say I Love You, do filme A Dama de Vermelho (1984). O terceiro artista foi Lionel Ritchie, autor de Say You, Say Me, do filme O Sol da Meia-Noite (1985).
A próxima vitória de um artista negro só aconteceria em 2006, quando o trio do Three 6 Mafia – Frayser Boy, Juicy J e DJ Paul receberam o Oscar pela música It’s Hard Out Here for a Pimp, do filme Ritmo de um Sonho (2005). O fato só tornou a se repetir em 2015, quando o rapper Common e o músico John Legend ganharam o Oscar por Glory, do filme Selma (2014).
Melhor Direção de Arte

Jay Hart e Hannah Beachler, de Pantera Negra
Hannah Beachler foi a única diretora de arte negra a ser indicada ao prêmio, e ganhou logo na primeira vez que foi indicada, por seu trabalho em Pantera Negra (2018). O prêmio foi dividido com o colega Jay Hart.
Melhor Curta-Metragem Animado

Kobe Bryant, com sua estatueta em 2018.
Kobe Bryant, lenda do basquete que morreu tragicamente num acidente de helicóptero no começo do ano, também fez história no Oscar ao ganhar o prêmio por ter escrito o roteiro de Dear Basketball. O projeto é uma adaptação de um texto escrito por Bryant e publicado no The Players’ Tribune para anunciar sua aposentadoria, em 2015. Ele dividiu o prêmio com Glenn Keanie, diretor do curta e responsável pela animação. A trilha sonora foi de ninguém menos que John Williams.
Em 2020 também foram premiados Matthew A. Cherry e Karen Rupert Toliver, diretores do curta Hair Love, sobre uma menina negra aprendendo a aceitar seus cabelos crespos.
Melhor Mixagem de Som

Willie D. Burton, em 1989
Apenas dois negros ganharam e receberam indicações nesta categoria. O primeiro foi Willie D. Burton, que conquistou a estatueta em 1989, por Bird (1988). A vitória veio após três indicações: A História de Buddy Holly (1978), Viagens Alucinantes (1980) e Jogos de Guerra (1983). Ele seria indicado em outras duas ocasiões antes de ganhar seu segundo Oscar em 2007, por Dreamgirls (2006): Primeiro por Um Sonho de Liberdade (1994) e depois por À Espera de um Milagre (1999).
O segundo mixador de som negro a ser premiado foi Russell Williams II, que foi indicado duas vezes e ganhou nas duas ocasiões: Primeiro por Tempo de Glória (1989) e no ano seguinte por Dança com Lobos (1990).
Melhor Roteiro Adaptado
Barry Jenkins, em 2017.
O primeiro vencedor negro nessa categoria foi Geoffrey Fletcher, por Preciosa (2009), filme que foi adaptado de um livro publicado em 1996 – Push, de Sapphire. O segundo Oscar foi dado a John Ridley por 12 Anos de Escravidão (2013), filme adaptado do livro de memórias de mesmo nome escrito por Solomon Northup e publicado em 1853.
Em 2017 foi a vez de Barry Jenkins e Tarell Alvin McCraney por Moonlight (2016). O filme é baseado na peça de teatro intitulada In Moonlight Black Boys Look Blue, escrita pelo próprio Tarell. A vitória mais recente foi ano passado, quando Kevin Willmott e Spike Lee receberam o Oscar por Infiltrado na Klan (2018), baseado no livro Infiltrado na Klan: Desmascarando o ódio, que é um relato biográfico de Ron Stallworth, primeiro policial negro de Colorado Springs, que foi encarregado de investigar uma célula local do grupo racista Klu Klux Klan.
Melhor Roteiro Original

Jordan Peele, em 2018.
Corra! (2017) chamou a atenção de todo mundo em 2017 e recebeu quatro indicações ao Oscar (uma raridade no gênero). Ganhou apenas o de melhor roteiro original, mas este foi o primeiro e o único até agora a ser conquistado por um artista negro, no caso Jordan Peele, que também dirigiu Nós (2019).
Momento Mãe Dinah: Spike Lee vai ganhar ano que vem por aquele filme da Netflix. Nem assisti ao longa ainda, mas apostaria minhas fichas nisso.
Confira outras matérias da série:
Contos de Hollywood #05: Nove histórias escondidas por trás de ‘Hollywood’, nova minissérie de Ryan Murphy.
Contos de Hollywood #02: Katharine Hepburn: Do fundo do poço a recordista do Oscar
Contos de Hollywood #01: Quem foi o produtor que tentou matar um agente por causa de uma atriz?
