O mercado audiovisual brasileiro passa por um grande momento. Entre o crescimento recente do cinema nacional, as mudanças na publicidade e o impacto de novas tecnologias como a inteligência artificial, profissionais do setor enfrentam um cenário ao mesmo tempo promissor e desafiador.
Em entrevista exclusiva conosco, o diretor de elenco, roteirista e produtor Danilo Rowlin, do Hub Criativo Meraki, analisou o momento atual da indústria. Com mais de 15 anos de experiência no audiovisual, ele comenta as diferenças entre cinema e publicidade, a pressão do capital nas produções, o papel das redes sociais e os desafios enfrentados por atores e profissionais da área.
Cinema em ascensão e publicidade em ritmo constante
Segundo Danilo, apesar do crescimento recente do cinema brasileiro, impulsionado por produções premiadas e indicadas a grandes premiações internacionais como o Oscar, o setor ainda caminha em paralelo ao mercado publicitário, que funciona de maneira muito diferente.
Enquanto o cinema trabalha com projetos mais espaçados e de construção artística mais longa, a publicidade opera em um fluxo constante de demanda.
“Publicidade é uma coisa que acontece todos os dias. As marcas precisam de conteúdo o tempo todo e isso gera uma busca muito ampla por perfis diferentes de atores e profissionais”, explica.
Já no cinema e em produções de ficção como séries, novelas e longas-metragens, o processo costuma ser mais específico e ligado à construção artística dos personagens e sua narrativa.
“Quando falamos de cinema, o perfil geralmente precisa ter alguma experiência com atuação. Não precisa necessariamente de uma grande formação acadêmica, mas é importante que a pessoa tenha vivência com teatro, cursos ou outras experiências que ajudem na construção do personagem”, afirma.
Ainda assim, ele ressalta que a escolha de um ator raramente segue uma lógica completamente objetiva e segue algo muito individual para cada situação.
“Tudo é muito subjetivo. Às vezes um ator faz um teste para um personagem específico, mas o diretor percebe que ele funciona melhor para outro papel. Isso acontece o tempo todo.”
Um cinema jovem em comparação ao mundo
Para Danilo, apesar da sensação de crescimento recente, o cinema brasileiro ainda está em sua jornada para se consolidar.
“O audiovisual brasileiro ainda é muito jovem se comparado com outras potências do cinema mundial. A gente está falando de um setor que começou a se estruturar de verdade há cerca de 30 ou 40 anos”, explica.
Esse contexto mostra que o mercado está em constante construção, tanto artisticamente quanto economicamente.
“Estamos engatinhando em muitos aspectos, mas ao mesmo tempo aprendendo rápido.”
A pressão das marcas e o peso do marketing
No mercado publicitário, o processo de escolha de elenco passa por fatores muito ligados à estratégia de marketing das marcas e o direcionamento que elas buscam.
Segundo Danilo, quando uma empresa busca um rosto para um comercial, a decisão vai muito além da atuação.
“As marcas pensam em como aquele rosto vai vender o produto, como ele se conecta com o público e qual imagem ele transmite”, explica.
Por isso, o trabalho da direção de elenco se torna uma espécie de investigação minuciosa.
“É quase como procurar uma agulha no palheiro. Às vezes o cliente pede um perfil extremamente específico e precisamos encontrar exatamente aquilo que ele imagina.”
A diversidade começa a mudar o audiovisual
Um dos temas centrais da entrevista foi a evolução da representatividade nas produções brasileiras.
Danilo lembra que, quando começou no mercado, muitos comerciais, especialmente de bebidas, seguiam um padrão bastante limitado.
“Era muito comum ver aquele modelo de publicidade com mulheres loiras, com corpo padrão, sendo usadas como objeto visual para vender o produto.”
Hoje, segundo ele, esse cenário vem mudando gradualmente.
“Se você olha os comerciais atuais, já existe uma preocupação maior em mostrar diferentes corpos, etnias e regiões do Brasil.”
Ainda assim, ele ressalta que a mudança é lenta.
Segundo dados analisados por ele em uma pesquisa acadêmica mostram que, até poucos anos atrás, cerca de 87% das produções audiovisuais brasileiras eram dirigidas por homens brancos e heterossexuais.
“Isso significa que o Brasil ainda é muitas vezes retratado a partir de uma visão muito específica.”
Mesmo assim, profissionais de dentro da indústria tentam ampliar esse cenário e mudar a situação.
“Quando recebo um pedido de perfil de elenco, eu tento apresentar opções mais diversas, mesmo quando o briefing não exige isso. Às vezes funciona, às vezes não.”
Influenciadores e o impacto das redes sociais
Outro fenômeno recente no audiovisual é a presença crescente de influenciadores digitais em produções de TV e publicidade.
Para Danilo, essa tendência está ligada principalmente a estratégias de marketing das empresas.
“Se você coloca um influenciador com milhões de seguidores em um projeto, automaticamente ele traz visibilidade e alcance para aquela produção.”
Isso não significa necessariamente que o talento artístico seja ignorado, mas muda a lógica da escolha dependendo da situação.
“Um ator pode ser excelente, mas um influenciador pode trazer uma audiência gigantesca. Então a decisão muitas vezes passa por estratégia.”
Ao mesmo tempo, ele defende que influenciadores que desejam atuar precisam investir em formações e pesquisa na área.
“Ser influenciador não impede ninguém de atuar, mas é importante estudar e se preparar para entregar um bom trabalho.”
Inteligência artificial preocupa profissionais
Outro tema que tem provocado debates intensos na indústria é o avanço da inteligência artificial no audiovisual.
Para Danilo, a tecnologia pode trazer benefícios, mas também representa riscos para toda a cadeia produtiva.
“Quando falamos de IA substituindo atores, não estamos falando apenas de atores perdendo trabalho. Estamos falando de toda uma indústria, figurino, cenografia, maquiagem, técnicos, que pode ser impactada.”
Ele acredita que o avanço tecnológico precisa vir acompanhado de uma regulamentação clara.
“Sem leis claras sobre uso de imagem, direitos autorais e controle de conteúdo na internet, a inteligência artificial pode virar uma terra de ninguém.”
O debate já ganhou força internacionalmente, como demonstrado pelas recentes greves de roteiristas e atores em Hollywood, que trouxeram a discussão justamente sobre o uso de imagens e performances digitais.
Um mercado mais competitivo e ansioso
Com o avanço da tecnologia e das redes sociais, o mercado artístico também mudou e se tornou mais competitivo.
Segundo Danilo, muitos atores iniciantes acreditam que a carreira pode acontecer rapidamente, o que raramente corresponde à realidade.
“O maior erro que vejo hoje é a pressa. As pessoas querem resultados muito rápidos em um mercado que exige tempo, estudo e construção.”
Ele defende que o processo artístico exige dedicação constante e que isso é um diferencial para o artista.
“Estudar atuação, ler literatura, entender referências culturais… tudo isso faz parte da formação de um artista.”
O futuro do audiovisual brasileiro
Apesar dos desafios, Danilo acredita que o audiovisual brasileiro vive um momento importante de amadurecimento.
“A gente está começando a entender melhor como fazer cinema, como construir nossas narrativas e como levar essas histórias para o mundo.”
Para ele, o caminho do setor ainda é longo, mas cheio de potencial.
“O Brasil tem histórias incríveis para contar. O desafio agora é garantir que essas histórias sejam contadas por quem realmente vive essas experiências.”
Os trabalhos de Danilo Rowlin podem ser encontrados principalmente no mercado publicitário e em produções audiovisuais desenvolvidas pela produtora Meraki, onde atua como diretor de elenco, roteirista e produtor.
Ao longo de mais de 15 anos de carreira, ele participou da seleção e desenvolvimento de talentos para campanhas, projetos audiovisuais e produções ligadas ao cinema e à publicidade. Parte desse trabalho também se reflete em pesquisas acadêmicas e discussões sobre o mercado audiovisual brasileiro, especialmente em temas como diversidade, processos de seleção de elenco e os impactos das novas tecnologias na indústria.


