Written by 16:28 Criticas, Destaque, Filmes | Criticas

Crítica: Manual Prático da Vingança Lucrativa | Quais os dilemas do homem branco médio dos EUA?

O Manual Prático da Vingança Lucrativa é um filme que explora o luxo e absurdos dos bilionários, mas esquece de seu personagem principal.

Atualmente existe um tropo que está cada vez mais se popularizando onde vemos uma pessoa de classe pobre se rebelando contra aqueles da alta sociedade. Temos filmes de terror com essa proposta, filmes de ação, dramas e muitos outros que estão cada vez mais se utilizando dessa fórmula. Contudo, ao usar uma fórmula, você cai no risco de enfrentar certos problemas, de esvaziar o próprio tema. E nesse caso temos o “Manual Prático da Vingança Lucrativa” que nos mostra uma outra perspectiva perante o dilema do capitalismo.

No filme acompanhamos Becket Redfellow (Glen Powell)  que é filho de uma das herdeiras da herança Redfellow. Contudo, devido ao fato de sua mãe ter se distanciado da família, ele  ficou mais distante de ter essa herança, sem levar em consideração também os outros herdeiros que estão em sua frente na fila. É quando ele reencontra uma velha amiga de infância, Julia Steinway (Margaret Qualley) que indiretamente acaba dando uma ideia. Ele parte então em uma jornada de vingança para eliminar todos os herdeiros e conquistar sua herança.

Uma história com aparência bilionária

O primeiro elemento que te impressiona ao embarcar nessa história é a fotografia e direção que podem ser considerados diferentes da maioria cotidiana. Temos aqui uma fotografia que abusa dos contrastes e cria um visual “vintage” que contrasta com a narrativa do filme. Também temos a direção de John Patton Ford  que é conhecido por atuar no cenário indie e agora chega em um grande projeto.

Toda a cinegrafia presente na história nos permite ficar imersos nesse mundo que se mistura entre o real e a fantasia das pessoas ricas. Vemos o tempo todo as comparações que demonstram a vida que o protagonista possui e a vida que ele deseja alcançar. No decorrer da história também percebemos em como isso afeta o nosso protagonista e faz com que ele mude seu próprio visual, e a direção segue o mesmo caminho.

Apesar de termos um grande ponto alto nesse quesito, a retratação dos bilionários do filme não acompanha a qualidade de sua direção.

Os palhaços com dinheiro no bolso

Aqui temos um retrato que poderíamos dizer ser “caricato”, contudo reflete a realidade com maestria. Os herdeiros dessa herança possuem os arquétipos de todos os bilionários atuais que conhecemos. Os líderes religiosos egocêntricos, os pseudo-artistas que acreditam ter algo para falar, os filhos rebeldes e medíocres e os coachs. Cada um deles esboçando um conceito diferente do palhaço com dinheiro no bolso.

E apesar disso, o filme não apela para as versões estereotipadas dessas figuras. Nós temos personagens que refletem o quão destruidor é fazer parte dessa sociedade, em como você perde tudo. Nisso, nós temos uma narrativa que se preocupa em mostrar o lado bom e ruim de ser alguém com tanto poder.

Acompanhamos Beckett conhecendo essas figuras, e a cada etapa do seu plano, uma transformação acontece. Essa transformação inicialmente acontece sem problemas, e no decorrer vamos percebendo como o personagem muda e esse conflito acontece principalmente nas personagens de Julia e Ruth (Jessica Henwick). Uma representa tudo aquilo que ele quer ser, e outra representa tudo aquilo que ele é.

Só que nessa jornada, o filme se perde ao não investir nos dilemas de um personagem que não se importa com escrúpulos, mas ao mesmo tempo não pode queimar o próprio filme do seu protagonista.

Quando o personagem é um c*z@º

O protagonista Beckett interpretado pelo ator Glen Powell.

Beckett não é um personagem bom. Ele é egoísta, se importa somente consigo mesmo e deseja tudo aquilo que o dinheiro pode lhe oferecer. Contudo, temos o ator Glen Powell na frente, uma figura “galã”, que precisa sempre ter um contexto para o que está sendo feito. Não podemos pensar por conta própria no que ele fez, o argumento do motivo precisa estar ali.

O que cria uma confusão narrativa com o enredo, pois temos aqui uma história que nos traz um final onde deveríamos pensar sobre qual o preço da resolução desse plano. Só que devido à essa necessidade de manter as aparências, esse final perde a força.

Um protagonista que não se preocupa em ser bom é sempre interessante de ser explorado, e havia um grande potencial nessa narrativa, que infelizmente é diluído pela necessidade de uma auto-aprovação (que os próprios bilionários almejam).

 

 

Close