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Contos de Hollywood #04 | Jayne Mansfield: A subcelebridade que virou lenda de Hollywood

Para a jornalista e radialista Elaine Stevens, agora com 70 anos, as lembranças ainda estão frescas na memória.

Stevens atendeu a porta da casa de seus pais em Gulfport, Mississippi. Seu noivo, Ronnie Harrison, estava diante dela. Descrevendo-o hoje, Stevens soa como se ainda tivesse 18 anos: “Ele parecia o Matthew Modine ou Ralph Fiennes“. O casal planejava fugir três dias depois para se casarem em segredo; Stevens estava carregando seu filho. “A última coisa que ele me disse foi: ‘Você sempre vai me amar?’ E eu disse: ‘Claro que vou. Eu sempre vou te amar.’ “.

Essa foi a última vez que eles se viram.

Duas horas e 800 quilômetros de distância depois, outra mulher, Vera Peers, acordou em pânico. Sua filha, Jayne Mansfield, apareceu em um sonho seu. De pé no alto de uma grande escada branca, ela estava gritando: “Mamãe, tenho uma história para contar. Você tem muitos passos a seguir. Estou no topo agora, mas estarei esperando por você“.

Vera acordou com o barulho das rodas de um carro de polícia na porta da frente.

Jayne Mansfield, 34, estrela de cinema e mãe, morreu em um acidente de carro na Highway 90 em Slidell, Louisiana, a caminho de Nova Orleans. Também morreram no acidente o advogado e namorado dela, Sam Brody, e o motorista deles, o noivo de Stevens, Ronnie Harrison. Todas as três crianças no carro – Mickey Jr., Zoltan e Mariska Hargitay – sobreviveram.

Jayne Mansfield, em 1956

 

Jayne Mansfield não era boba. A loira burra mais inteligente do mundo apareceu em 27 filmes (poucos memoráveis). Mas sua tentativa de se manter viva na posteridade deu certo – não só através da vida de seus filhos, mas também por meio da cultura próspera de ser “famosa por ser famosa”, que ela ajudou a criar.

Antes que as estrelas alcançassem milhões de seguidores através de stories no Instagram ou por meio de 280 caracteres e 60 segundos ou menos, o equivalente do Twitter tinha um nome: Hedda Hopper. O Instagram também tinha um: Louella Parsons. Estas, juntamente com uma dúzia de outros colunistas sociais sindicalizados de Hollywood, formavam uma linha principal até o coração do povo americano. E Jayne sabia muito bem lidar com eles, adepta que era de qualquer mídia social moderna para se manter à vista do público.

De fato, se não fosse por Mansfield, provavelmente não haveria Kardashians hoje.

Jayne Mansfield and her husband Mickey Hargitay at a costume party ...

Jayne Mansfield e o marido, Mickey Hargitay, numa festa à fantasia.

 

A influência de Mansfield na imprensa nunca foi tão potente quanto em 1957, quando ela parecia pronta para dominar o mundo.

Pegando emprestada a persona pública de Marilyn Monroe, Mansfield venceu a própria Monroe em pesquisas de popularidade. Ela já tinha quatro filmes em seu currículo, e a Twentieth Century Fox estimou seu valor em US$ 40 milhões (US $ 350 milhões hoje). O nome de Mansfield era “mágica nas bilheterias“, escreveu Parsons.

Em turnê com Bob Hope, Mansfield levantou o ânimo de 100.000 soldados (a co-estrela Neile Adams se lembra dela “de biquíni no Alasca em um clima de -6 ºC“). O impacto de Mansfield nos homens foi comparado ao de Elvis Presley nas mulheres, deixando tumultos por onde passava. Ela tinha, como disse o colunista Walter Winchell, “o mundo na palma da sua mãozinha rosa“.

Então, por que Jayne Mansfield mal é lembrada hoje?

A resposta pode estar em um único item que apareceu na coluna de Hopper, na virada de 1957: “Jayne Mansfield está avançando rápido demais“.

Na verdade, ela estava avançando 60 anos à frente de seu tempo. Mansfield pavimentou o terreno para muitas subcelebridades e “famosos por serem famosos” décadas antes da internet surgir, e antes mesmo de Andy Warhol dizer que “no futuro, todos teriam 15s de fama“.

Jayne antes de Hollywood (com maquiagem de velhice) com a filha Jayne Marie Mansfield nos bastidores da produção de Ten Nights in a Bar-room no Austin Civic Theatre de 1951: “Eu estava pensando em Hollywood, mas não estava em Hollywood“.

 

Menos de três anos antes de sua ascensão meteórica, Mansfield, então com 20 anos, trocou o Texas por Hollywood, levando o marido Paul e a filha, o bebê Jayne Marie.

Enquanto crescia, Vera Jayne Palmer foi um prodígio do violino e do piano; seus instrutores achavam que algum dia conquistaria o Carnegie Hall. Ela falava cinco idiomas e tinha um QI de 163 (segundo a própria). Ganhou concursos de beleza enquanto frequentava a Universidade do Texas em Austin, quando decidiu abandonar tudo para seguir o sonho de Hollywood.

Em Dallas, onde morou por um tempo com o marido, Jayne estudou com Baruch Lumet – celebrado ator do Yiddish Theatre e pai do diretor Sidney Lumet – que a dirigiu em uma performance “perfeita” de Death of a Salesman. A Gaivota era uma das suas peças favoritas, e ela sonhava em interpretar Blanche DuBois.

O jornalista do Texas John Bustin, que conhecia Mansfield desde sua estréia no teatro, com a peça Ten Nights in a Bar-room, no Austin Civic Theatre, em 1951, escreveu sobre seu potencial em 1954: “Ela pode ser maior do que, digamos, Jane Russell em alguns anos“. Ele estava certo – exceto que eram apenas alguns meses antes de Mansfield entrar em ação.

 

Em janeiro de 1955, Mansfield fez um acerto em seu rumo ao estrelato, durante a conferência de imprensa do filme Underwater!, de Howard Hughes, estrelado por Jane Russell. Equipada com um biquini vermelho claro, Mansfield mergulhou em uma piscina e, segundo os jornalistas, “foi habilidosa em permitir que a parte superior do traje se abrisse“.

Da noite para o dia, a imagem de Mansfield foi estampada em toda a América como uma “Marilyn Monroe plus-size“. Em uma entrevista para o programa de rádio Person to Person, transmitida ao vivo para 20 milhões, o entrevistador Edward R. Murrow perguntou sobre o mau funcionamento da roupa de banho – ao qual Jayne respondeu inocentemente: “Não me lembro do incidente“.

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Desde Underwater, a imprensa a adotou“, diz Ray Strait, 93 anos, ex-assessor de imprensa e biógrafo de Mansfield. Na verdade, foi Mansfield quem invadiu o sistema: explorando um ponto ideal de marketing conhecido como “novidade ideal”, ela apresentou uma marca que era uma mistura ideal de originalidade e inovação – ela se apresentou como uma réplica de Monroe, só que foi um pouco mais longe.

A Warner Bros a contratou brevemente, comercializando-a como uma “ameaça a Marilyn Monroe“. Ela fez teste para Juventude Transviada (Natalie Wood conseguiu o papel), conseguiu alguns pequenos papéis (incluindo um papel em um filme chamado Illegal que se assemelhava ao de Monroe em O Segredo das Joias) e posou para a Playboy.

Paul Mansfield, reconhecendo que sempre seria a segunda opção na vida de sua esposa, pediu o divórcio e a custódia da filha. Jayne afirmou que Paul estava com ciúmes de seu Chihuahua – e venceu. O “vôo solo” funcionou a seu favor.

Se os homens sempre gostaram de Mansfield, agora ela havia conquistado as mulheres, que começaram a simpatizar com ela. A loira se tornou, ostensivamente, o primeiro símbolo sexual a varrer da psique de milhões de homens americanos a visão de que ela “não seria uma mulher para casar”. Afinal, quem poderia culpar uma mãe solteira que posou nua para a Playboy “para pagar leite e comida para o bebê”?

Marylin and Jane Mansfield

Marylin e Jane Mansfield

 

Mansfield manteve o sobrenome de casada, mas perdeu o contrato com a Warner. Não demorou muito, no entanto, antes que o raio caísse pela segunda vez no mesmo lugar.

As manchetes anunciavam “Marilyn Monroe é pega de surpresa” quando Mansfield conquistou a Broadway em 1955, imitando Monroe, com a peça Will Success Spoil Rock Hunter? . Ela venceu o Theatre World Award, premiação que reconhece os melhores artistas dos palcos nova-iorquinos, e ganhou também elogios por sua performance como uma rainha loira do cinema. Sua co-estrela Orson Bean, falecido esse ano, lembrou com carinho certa vez: “A peça tornou-se um sucesso por causa de Mansfield e de toda a publicidade. Ela é a única artista que esteve na capa da revista Life duas vezes em um ano!

De fato, todos os dias se tornaram uma repetição daquele incidente do biquíni para Jayne. Além de gerenciar a maternidade, vários animais de estimação e uma programação de eventos em tempo integral, ela orquestrou de três a cinco aparições pessoais, sessões de fotos, entrevistas e propagandas por dia. “Estou trabalhando em um tipo de estágio aqui“, disse ela. Na verdade, estava construindo uma marca.

Nasce uma estrela na Fox. “Ninguém viu como ela realmente era – com um lenço na cabeça fazendo caramelo no meio da noite” – diz a filha Jayne Marie Mansfield

 

Com Monroe em greve na Fox (ela buscou maior controle criativo e financeiro sobre seu trabalho), não demorou muito para que o estúdio enviasse representantes para avaliar Mansfield. A Fox fez para ela um grande lançamento e produziu os trabalhos mais significativos de toda a carreira de Mansfield – Sabes o que Quero, a versão cinematográfica da sua peça de sucesso Will Success Spoil Rock Hunter? e Ciúme, Tempero do Amor – no primeiro ano de seu contrato. Com críticas positivas e vendas respeitáveis de bilheteria, Mansfield ganhou um Globo de Ouro, cumprindo a profecia de Parsons de que, em 1956, seria “Mansfield para vencer, Loren para se destacar, Monroe para se exibir”.

Fox havia contratado Mansfield como uma reação diante da insubordinação de Monroe. Mas o que o estúdio não esperava era que a nova estrela se mostraria um desafio por si só.

Jayne Mansfield and Mickey Hargitay With Their Children - Cinema ...

Jayne Manfield, marido e filhos, a mais velha Jayne Marie Mansfied, Mickey, Jr., Zoltan e Mariska Hargitay (a que está no braço de Jayne), hoje atriz da série Law & Order.

 

Como outros símbolos sexuais de sua época, Mansfield foi incentivada a namorar nas redondezas do estúdio e não ter filhos, uma ordem que ela concordou – inicialmente: “Muitas estrelas de Hollywood estão se casando rápido demais“, brincou ela em 1956. “vou me dedicar ao trabalho durante esse contrato de sete anos. Depois disso, posso ter quatro filhos. Esta cidade foi construída com glamour, não com bebês“.

Um pouco mais de um ano depois, no entanto, ela se casou com o ex-Mister Universo Mickey Hargitay, um refugiado húngaro. Apesar do seu desejo proclamado de ter “um casamento discreto e digno“, 90% de seus convidados eram jornalistas – e cerca de 8.000 espectadores apareceram depois que ela revelou o local, a Wayfarers Chapel no Rancho Palos Verdes, aos jornais.

Em pouco tempo, o segundo dos cinco filhos de Mansfield estava a caminho. A gravidez não se encaixou bem na imagem pública que a Fox criou para ela e isso custou papéis a atriz.

Jayne Mansfield disposta a chamar a atenção em um jantar dado por Hollywood como boas-vindas à atriz Sophia Loren. “Eu estava com medo que os peitos dela caíssem no meu prato”, disse Loren, anos depois.

 

Quando Monroe voltou à Fox, Mansfield resistiu à máquina de publicidade do estúdio e fez malabarismos para chamar a atenção. Um evento em particular a marcou na memória pública.

A festa estava a todo vapor quando Jayne chegou“, lembra Mitzi Gaynor, “linda e no momento mais platinado dela. Foi um daqueles momentos ‘uau’ em que toda a sala parece parar por um instante. Ela percebeu, aproveitou a oportunidade e o resto é história“.

A festa no restaurante Romanoff, comemorando a estréia americana de Sophia Loren, tornou-se uma espécie de festa de lançamento do decote de Mansfield. Enquanto a atriz negou qualquer premeditação – ou mesmo consciência – dos seus seios saltando o decote, o amigo e ator Robert Wagner se lembra de maneira diferente. Ele ri ao recordar-se de como viu a estrela “doce e maravilhosa“, a quem ele frequentemente acompanhava nas estreias, de seu carro em um sinal vermelho a caminho da festa. “Eu a vi em seu carro, e ela estava colocando rouge nos mamilos!“.

Sophia Loren And Jayne Mansfield Photograph by Michael Ochs Archives

A Fox ficou fora de si. As estrelas de cinema deveriam passar uma imagem de inacessíveis, de outro mundo; um ingresso de cinema era o preço do acesso. Mansfield, no entanto, “abriria uma caixa de biscoitos se ela achasse que chamaria a atenção da imprensa“, lembra Strait. “Ela tinha que ter esse foco o tempo todo“.

As conseqüências dessa busca por atenção começaram a se revelar nas colunas daqueles que ajudaram a iniciar sua carreira: “Ela tem sido muito acessível a todos os fotógrafos, escritores e repórteres do ensino médio“, alfinetou a colunista Dorothy Kilgallen.

Já que o estúdio não podia afastá-la desse hábito, decidiu puni-la. De um cachê de US$ 200.000 por filme, a Fox passou a emprestar Mansfield a estúdios no exterior, mantendo seus serviços a apenas US$ 1.250 por semana. A qualidade de seus filmes diminuiu, assim como seu cachê.

Ela pode vender jornais e revistas, atrair milhões de telespectadores e atrair multidões aonde quer que vá“, escreveu uma jornalista canadense, “mas no cinema ela é um grande fracasso … Pode ser que o público tenha recebido tanto de Jayne Mansfield de graça que pagar pelo mesmo privilégio era demais“. Outro crítico perguntou: “Ela atua? Quem se importa?

Mansfield sabia que não podia depender de sua atuação para sustentá-la, sendo, na melhor das hipóteses, apenas uma entusiasta da profissão. Outros foram menos caridosos. “A arte dramática, na opinião dela, é saber usar um suéter“, disparou Bette Davis. Mansfield sempre ignorou as críticas. “Decidi cedo que a primeira coisa que eu iria fazer era me tornar famosa“, disse ela. “Me preocuparia em atuar depois“.

Satisfeita em dizer aos repórteres: “Se você quer ser uma estrela de cinema, deve viver como uma“, Mansfield realizou sua fantasia comprando um palácio na Sunset Boulevard em 1958 e rebatizou o lugar de “O Palácio Rosa”. Na verdade, ela preferia o lilás, mas desde que o chefe da Columbia, Harry Cohn, apelidou Kim Novak de “a loira lavanda”, Mansfield exibiu seu gênio para criar uma marca – novamente. “Agora eu tive uma estratégia“, declarou ela, repleta de carros, peles e poodle, todos cor-de-rosa.

Com o palácio as despesas aumentaram, assim como a criatividade de Jayne para os negócios.

History of Jayne Mansfield's “Pink Palace”

Jayne na banheira do famoso “Palácio Rosa”.

 

Como uma das primeiras – e mais bem pagas – atrações principais de Las Vegas, ela ganhou US$ 200.000 por 10 semanas de trabalho como cantora: a taxa de empréstimo da Fox por um filme inteiro. Ela construiu uma carreira complementar, alavancando sua notoriedade em troca de dinheiro, comida e móveis para sua família e coleção de animais de estimação – no valor de US$ 10.000 a cada inauguração comparecida. Uma manchete da Associated Press de 1961 alardeava sua ingenuidade: “Ela encontrou uma maneira de capitalizar a fama que pode criar um tipo inteiramente novo de estrela. Ela não tem muito o que fazer, mas o pagamento é espetacular“.

E então, em 1962, o mundo mudou. Marilyn Monroe estava morta – e com sua morte, a era da bombshell loira acabou.

No dia da morte de Monroe, um pequeno artigo apareceu nos jornais, indicando que Mansfield havia sido dispensada da Fox. A tempestade perfeita que a levara ao estúdio, ironicamente também tirou sua posição na Fox.

No dia seguinte à morte de Monroe, foi relatado que Mansfield estava se separando de Mickey Hargitay, que muitos consideravam sua rocha. Ela contou sobre a separação aos repórteres antes de contar ao marido.

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Se nos anos 50, Mansfield burlou o sistema e conseguiu fama sem ter relação alguma com estúdios de cinema, emissoras de TV e gravadoras, na década de 1960 esse mesmo sistema a atropelaria. Ela passou anos sendo a “Marilyn Monroe da segunda divisão”. Agora, ela estava decidida a ser Mansfield.

Depois de dizer ao colunista Earl Wilson que “a nudez não combina muito com a maternidade“, ela estrelou Promessas! Promessas! – inovando como o primeiro grande nome a aparecer em uma cena de nudez nas telonas. Embora a aparição de Mansfield no filme abrisse portas que seriam adentradas por inúmeras atrizes depois dela, o fato rompeu um contrato social que ela havia trabalhado duro para manter – o da “exposição acidental”.

Havia um método em sua loucura: a contradição, seja de propósito ou por capricho, foi seu cartão de visitas desde o início de sua carreira. Era típico de Mansfield dizer aos repórteres que “havia comido muito cheesecake” antes de atravessar um cruzamento movimentado em um biquíni estampado de leopardo, parando o trânsito. “Estou farta de publicidade“, desabafou para a imprensa em um funeral católico realizado para a sua Chihuahua, Galina.

Aproveitando as aparições públicas em troca de US$ 10.000 em dinheiro e mercadorias, Jayne era frequentemente membro honorário do conselho das empresas que atendia, uma espécie de embaixadora – como podemos ver nessa imagem, onde ela participou de uma inauguração de uma distribuidora de carne por atacado em 1965.

 

Apesar de sua popularidade explosiva em 1957, o trabalho cinematográfico de Mansfield nunca atraiu a imaginação do público da mesma maneira que os filmes de Marilyn Monroe conseguiam. Monroe era inigualável. O que a Fox podia orquestrar visualmente, eles não conseguiam fabricar em termos de autenticidade. Embora as razões para isso sejam inefáveis, não se pode deixar de observar que o fascínio de Monroe se apresentava como um convite, enquanto o de Jayne era mais uma ordem. Enquanto Marilyn era inatingível, Jayne estava inteiramente disponível. Havia pouco para o público perseguir, então Mansfield o perseguia.

A loira disse a Louella Parsons em 1956: “Eu quero ser uma grande atriz“. Mas, logo depois, ela disse à colunista rival Sheila Graham: “As verdadeiras estrelas não são bons atores ou atrizes. Elas são personalidades“. Mansfield lutou por toda a sua carreira por causa do conflito ilustrado por essas declarações.

Depois de Promessas! Promessas!, sua imagem entrou em declínio. A era da loira platinada e curvilínea havia acabado. A imprensa aos poucos foi se cansando dela e as ofertas para fazer filmes acabaram, o que fez com que Mansfield voltasse suas atenções para a TV (ela era presença assídua em talk-shows), inclusive tentou emplacar um programa meio sitcom-meio reality show, onde vivia uma atriz que queria fazer Shakespeare, mas que precisava se contentar em interpretar Jayne Mansfield. O piloto de The Jayne Mansfield Show, como o programa se chamaria, foi discretamente arquivado pela NBC. O ano era 1965.

File:Jayne Mansfield and Sam Brody May 1967.jpg - Wikimedia Commons

Jayne e o namorado Sam Brody, em 1967. Ele a agredia, inclusive fisicamente. Ambos morreriam em um acidente de carro ainda no mesmo ano.

 

O que destruiu Jayne Mansfield? A resposta pode estar nos alquimistas do capitalismo – os gerentes de marca. O consultor de marketing Matt Park, ex-gerente de produtos da General Mills, não é estranho a produtos embalados. Para Park, o triste destino de Mansfield é um caso clínico de um produto que não evoluiu com a sua base de consumidores.

Naquela época, a cultura estava passando dos anos 50 para a era pós-Kennedy“, diz Park. “Todo os EUA estavam reavaliando o que era ideal, o que deveriam mudar. O início do movimento anti-guerra, anti-militar, a ascensão do feminismo – essas foram mudanças significativas na atitude e na mentalidade do público. Mansfield nunca fez a transição“.

Na linguagem do marketing, Mansfield – a marca – havia perdido sua “ressonância”. Seu público não queria mais o que ela estava vendendo. Marilyn Monroe escapou de destino semelhante ao fazer um movimento de carreira inesperado, morrendo cedo o suficiente (em 1962) e evitando que sua imagem não se desgastasse. Mansfield não teve a mesma sorte. Quando as fantasias sexuais masculinas americanas passaram de pinups de peito de torpedo para garotas hippies sem sutiã, Mansfield estava condenada. A nova competição era, na época, estrelas improváveis ​​como a modelo Twiggy ou a cantora de rock Janis Joplin.

Jayne Mansfield (Dead Blondes Episode 9) — You Must Remember This

“A loira burra mais inteligente”, foi como um jornal se referiu a ela quando noticiou sua morte.

 

A história de Mansfield se encerrou tragicamente na madrugada do dia 29 de junho de 1967, quando viajava de carro com o namorado, três filhos e cinco chihuahuas para Nova Orleans, onde iria a um programa de uma emissora local.

Algumas notícias sobre sua morte foram, ao estilo da própria Mansfield, bem exageradas, dizendo que o acidente a decapitou, quando na verdade ela foi “escalpelada”. O pedaço de cabelo fotografado por algum jornalista no local do acidente era na verdade a sua peruca. O carro acidentado está em exibição em Hollywood até hoje.

How 'Law & Order' Inspired Mariska Hargitay to Take Action

Mariska Hargitay, filha de Mansfield que mais tarde se tornaria atriz da série de sucesso Law & Order, estava no carro com seus irmãos Zoltan e Mickey Jr. Ela não se lembra do acidente.

 

Stevens, autora do livro de memórias Mermaid in the Window, ainda acha os eventos de 1967 “extremamente dolorosos“. Após o acidente, ela foi forçada a desistir de sua filha para adoção. Demoraria mais de 30 anos para Stevens vê-la novamente. Quando os dois se reuniram em 1999, “foi incrível ver parte de Ronnie andando pela terra novamente“.

Stevens acha que os repórteres no local do acidente foram “um precursor do fascínio dos paparazzi pela [princesa] Diana“, anunciando um mergulho mais profundo em uma era de jornalismo sem barreiras no qual Mansfield, lamentavelmente, teve uma participação.

Matéria traduzida do Hollywood Reporter

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