Written by 22:10 Artigos, Destaque, Filmes | Artigos

Sobre Aves de Rapina: Descansa, militante

Como disse uma alma sensata na internet: “O Mitador e o Lacrador, os dois a 80km, quem enche mais o saco?”

Antes de começar, gostaria de deixar definido uma coisa: O termo “militante” é usado no título não somente para se referir ao lacrador exibicionista da internet, aquele ser que se acha iluminado e adora postar lições de moral para mostrar o quão inteligente e evoluído ele é; o termo também é usado aqui para se referir ao militante “anti-lacrador”, também chamado de “mitador”, aquele indivíduo que vê lacração em todo canto. Mulher protagonizando um filme de porradaria? Lacração. Algum personagem gay recebendo destaque? Lacração. Se o filme não tiver um personagem masculino interessante? Lacração. Gostou de um filme protagonizado por um negro? Então você deve ser um fanático dessa ideologia esquerdista e blá, blá, blá.

Em suma, o justiceiro social do twitter e o anti-lacrador são lados diferentes da mesma moeda retardada. Ambos os lados agem como fanáticos religiosos que enxergam demônios em todos os cantos (opressão e lacração, respectivamente), enquanto defendem a sua respectiva palavra sagrada, policiando e reclamando de filmes que nem assistiram, enchendo o saco das pessoas normais porque estas “não-sei-o-que istas” se atreveram a gostar de um filme ou de qualquer coisa que, segundo alguns desses seres iluminados, promovem uma “mensagem perigosa”. Tudo isso enquanto nos brindam com “argumentos” suuuper coerentes, que mudam a depender da conveniência de cada militância e de cada situação. Qual a diferença de um lacrador reclamando da representação feminina em algum filme qualquer, do mitador reclamando que todos os personagens masculinos de tal filme são idiotas?

Veja mais | De Onde Vieram as Animações Clássicas da Disney?

Agora que já esclareci isso, seguiremos.

Bom, eu não gosto muito da Arlequina, não sei bem o porquê. Não me incomodo com as histórias dela em grupo, gostava bastante de Sereias de Gotham, mas a HQ solo dela simplesmente não me desce. Ela tem um jeito espevitado e maluco que funciona muito bem com adolescentes e pré-adolescentes, mais ou menos como ocorre com o Deadpool. Creio que foi por esse motivo que achei a personagem irritante no começo do filme, com o lance do sanduíche e tal. Até aí ok, é algo muito subjetivo, não é um problema do filme. Aí a história engrena, me acostumo a esse jeito da Arlequina de ser e me vejo cada vez mais interessada em ver aonde aquilo ia dar, o que foi uma surpresa porque eu jurava – veja bem – jurava, que o filme ia ser tão lixo quanto Esquadrão Suicida (culpa dos trailers), fui chamada de “hater” umas 800 vezes. Só decidi dar uma chance porque a crítica especializada falou bem (sim, eu olho o que eles dizem antes de gastar num ingresso). Resumindo: Gostei, história bem amarrada, vilões que funcionam, personagens carismáticos e elenco talentoso (apesar do pouco esforço da Caçadora Mary Elizabeth Winstead, que tá bem canastrona aqui como nunca vi antes na carreira dela. Uma vergonha porque é uma ótima atriz).

Aparentemente houve um pessoal que gostou também (ou diz ter gostado). Porém, ao invés de comentar sobre o que curtiu como qualquer pessoa normal faria, o indivíduo sai com uma dessas:

https://twitter.com/fefocaires/status/1227193369396498433

Eu não sei o que é mais ridículo nesse post: Se é promover um filme hollywoodiano como se fosse uma causa nobre, ou se foi o fato do cara querer falar bem de um filme fazendo um anti-marketing dele, basicamente implorando para os outros assistirem. Sério, quem diabos assiste a um filme só porque é feito por mulheres ou por homens? Nem a lacrolândia faz tanta questão assim e se disserem que assistem a um filme apenas baseado nesse critério, estão mentindo. Eu duvido que um lacrador poupe um filme horrível porque ele é de uma diretora, nem que minta para todo mundo a sua volta, dizendo que ele é bom. Se alguém me recomenda um filme e a única coisa boa a se dizer sobre ele é que é feito por mulheres, tá meio óbvio que nem eu, nem ninguém, vai perder tempo com isso.

Aparentemente, certos “marketeiros” de Hollywood pensam como o nosso caro tuiteiro evoluído acima. Mas vamos ser honestos: Desde quando esse tipo de marketing funcionou? Pergunta honesta. Tirando Pantera Negra e Capitã Marvel, eu não consigo me lembrar de nenhum (se alguém se lembrar de um caso bem sucedido, favor postar nos comentários). Nem mesmo Mulher-Maravilha usou essa estratégia. O marketing da heroína da DC foi quase que totalmente focado no heroísmo, com Patty Jenkins declarando até mesmo que a heroína era um exemplo para meninos e meninas e que sua maior inspiração foi o clássico Super-Homem – O Filme. Tudo bem que Gal Gadot pode até ter dado uma declaração ou outra falando de feminismo e tudo bem que a mídia se empolgou com o “primeira heroína do cinema” (afirmação falsa, já que o primeiro filme foi Supergirl, em 1984), mas não muda o fato de que o marketing foi focado no heroísmo. Se duvida, pode olhar os trailers.

Veja mais: Era Uma Vez em Hollywood | O que não te contaram sobre o caso Tate-LaBianca e a Família Manson

O fato é que, na maioria dos casos, esse discurso identitário só faz mais mal do que bem, porque o público passa a ver o filme como um exercício de panfletagem ideológica. Só que tem um detalhe: Ninguém gosta de panfletagem, seja lá de qual ideologia for. Não quero dizer com isso que o discurso identitário por si só garanta o fracasso de um filme, mas contribui. Os exemplos mais conhecidos foram o das Caça-Fantasmas, As Panteras e do Exterminador do Futuro – Destino Sombrio. Todos fracassaram por “N” motivos, o que inclui o fato de serem vendidos como filmes “empoderadores”, como se dessem início a uma nova era para as mulheres no cinema. Quem é de fora da bolha da militância lacradora não viu nada demais. Nos últimos anos, fomos agraciados com diversos filmes liderados por mulheres “fortes”, seja lá o que isso quer dizer.

Imagem

Aliás, até em épocas onde realmente era mais difícil ser mulher, este fator nunca importou, ainda mais se viesse acompanhado de um marketing acertado, atores carismáticos e de uma boa história. Pesquisem sobre Shirley Temple, a maior estrela infantil que já existiu, responsável por salvar a Fox da falência, ou vejam mais sobre …E O Vento Levou, considerado pelo Guinness Book como o filme de maior bilheteria de todos os tempos. Sua protagonista, Scarlett O’Hara, é louca para casar e é também uma chata rica e mimada, mas quando os EUA entram em guerra civil, tudo a sua volta vira um caos. Do nada, ela perde o conforto material, a mãe morre e o pai fica incapacitado por uma doença mental, o que obriga Scarlett a assumir o rancho da família e a cuidar das irmãs mais novas. Uma mulher assumindo o papel de chefe da família, numa história ambientada no século XIX, sendo senhora do seu destino em um filme lançado em…1939. Vejam mais também sobre Marlene Dietrich e o beijo lésbico em Marrocos, de 1930, mas o lacrador acha que o mundo começou em 2010 e aí tratam isso como revolucionário. Em 1982 Christopher Reeve e Michael Caine chocaram quem foi ao cinema assistir Armadilha Mortal por causa de um beijo gay. Isso em pleno início da pandemia de AIDS. Para quem é de fora da bolha, é impossível achar um filme protagonizado por várias mulheres algo inovador e corajoso, e consequentemente digno de atenção. As Panteras, por exemplo, se saíram bem nos cinemas há quase 20 anos, muito por conta do carisma de seu elenco, quando astros de cinema ainda arrastavam multidões às salas de exibição. Vou mais além, a série de mesmo nome que baseou os filmes foi um sucesso estrondoso nos anos 70, a ponto do corte de cabelo da Farrah Fawcett ser copiado por todo mundo na época.

Resultado de imagem para farrah fawcett

 

Os mitadores também acham que o mundo começou em 2010, daí o horror deles a cada lançamento protagonizado  por mulher/gay/cego/gente de cores variadas e olhe lá. É um pessoal que se comporta como se Kill Bill, A Malvada, O Silêncio dos Inocentes, Halloween, Exterminador do Futuro 2, Infâmia, Filadélfia, Maurice, Priscilla – A Rainha do Deserto e tantos outros filmes não existissem. Se fossem lançados hoje, seriam acusados de promover feminismo/”viadagem”/desrespeito às famílias e alguma outra acusação hipócrita qualquer. Como o mundo só começou nos últimos anos, qualquer filme que seja protagonizado por alguma dessas minorias automaticamente ganha o selo “agenda lacradora”. Saudade de quando víamos filmes sem tanto mimimi. Para se ter uma ideia, comentei no facebook que havia gostado de Aves de Rapina e em menos de 5 min fui acusada de deixar minha “mente ser lavada por ideologia“, fui taxada de militante feminista e criticada por financiar “lixo ideológico“. Foi tão surreal que só conseguia rir, de tão inacreditável. O mitador simplesmente não aceitava o fato de que uma desconhecida na internet havia gostado de um filme que ele “hateava”. É um tipo estranho e novo de fanboy.

Eu sou a de rosa, bem lacrador

No entanto, tenho que ser honesta. Boa parte de Hollywood é “progressista” e isso naturalmente reflete nos filmes. As mudanças a que certos personagens são submetidos claramente tem o propósito da representatividade. Isso soa positivo numa imprensa que é majoritariamente “progressista” também. É o famoso exibicionismo moral. Porém, já sabemos que para o público médio isso não é fator determinante na hora de comprar um ingresso. Então como Pantera Negra e Capitã Marvel recorreram a essa estratégia de marketing e sobreviveram? A resposta é obviamente a solidez da marca “Marvel” entre o público, que nenhuma outra franquia tem além de Star Wars. Toda vez que você vai ao cinema para ver um filme da Marvel, você não sabe se vai achar ótimo, mas sabe que ao menos verá algo que dê para passar o tempo, ou seja, é um gasto que tem alta chances de ser compensado. Além disso teve o fator “ansiedade pré-vingadores”. Tanto Pantera, quanto a Capitã estrearam um mês antes dos aguardadíssimos Guerra Infinita e Ultimato, respectivamente. Isso não tira o mérito dos dois longas, mas é fato que ambos pegaram carona na ansiedade gerada pelos vingadores.

Veja mais | A História do Primeiro Escândalo Sexual de Hollywood

Aves de Rapina foi totalmente vendido como mulheres fodonas lutando contra o mal (que são os homens, é claro). Os lacradores se empolgaram (Fora, macho opressor! Esse filme não é para vocês!). Os trailers soaram como panfletagem ideológica e todo esse barulho lacrador feito na internet em volta do filme não ajudou. O resultado é que isso afastou o longa da imagem descompromissada que deveria ter e alienou o público masculino, que é maioria num filme como esse. E mais importante ainda, faltou definir para o público quem seria a Arlequina. Mulher-Maravilha e Capitã Marvel foram vendidas como heroínas, mas a Arlequina é o que? Para o grande público, o que ela seria além de “namorada do Coringa”? Falando em Coringa, aliás, ficou claro que a ausência dele pesou, porque o público que adorou o casal em Esquadrão Suicida sentiu a falta dele e, ainda por cima, a Arlequina não parece ter forças para sustentar um filme sem o “pudinzinho”. Os trailers deveriam ter retratado o filme como ele realmente é: Uma história amalucada e teen da Arlequina, agora uma anti-heroína, tentando refazer a vida do zero enquanto Gotham inteira busca vingança contra ela. A Arlequina de Margot Robbie é exatamente a Arlequina das HQs, que são bem populares entre o público adolescente e também são as mais vendidas da DC, perdendo só para HQs do Batman. Vender o filme através de cenas de luta e girl power não é algo que chama a atenção, porque não é novidade há um bom tempo, vamos admitir.

Resultado de imagem para arlequina cospobre

Aves de Rapina, assim como todos os filmes mencionados até aqui, não fazem apologia aberta a nenhuma ideologia específica. É só um filme de porradaria com uma história descontraída, como vários filmes pipoca que vemos por aí. Só. O máximo de “lacração” que o filme possui de fato foi escalar uma atriz negra para interpretar a Canário Negro e transformar os vilões Máscara Negra e Victor Zsaz em gays, mais nada além disso. Se você for alguém que não tem contato com esses personagens, nem vai perceber essa “lacrada”, da mesma forma que não percebeu as alterações que a Marvel fez nas versões cinematográficas de seus personagens até então desconhecidos, afinal de contas, não dá para reclamar de mudanças em personagens que você não conhece.

A Canário Negro foi popularizada pela série animada da Liga da Justiça no início dos anos 2000 e muita gente se decepcionou quando descobriu que ela seria interpretada por uma atriz negra. Eu mesma torci o nariz para a escalação inclusive, apegada à visão que eu tinha da personagem. Mas no fim das contas, Jurnée Smolett-Bell se saiu muito bem e a personagem está toda ali. O fato dela não ser uma branca de olhos azuis é só um detalhe. Victor Zsaz tá praticamente o mesmo, exceto pelo cabelo. O Máscara Negra foi muito interessante também: imprevisível, narcisista e cruel. Uma biba escandalosa e psicopata, eu adorei. Ewan McGregor é fantástico. E daí se o Máscara Negra é gay? A sexualidade é irrelevante, mesmo se ele fosse retratado como hétero, o filme seguiria o mesmo caminho. Aliás, sequer me lembro da sexualidade desses dois vilões ser abordada nas HQs com alguma relevância.

Veja mais: Primeira Guerra Mundial | 10 filmes para você assistir

Tudo bem que entre os nerds sempre tem aquele grupo que odeia mudanças de qualquer tipo nas histórias e nos personagens, independente da alteração. Mas é óbvio que também existe uma parcela mitadora que usa essa indignação habitual de nerd para camuflar os próprios preconceitos.

O filme da Arlequina estreou bem abaixo do esperado, o que é uma decepção para o estúdio, mas não para os “haters” que estavam torcendo (?) pelo fracasso, o que é algo muito bobinho de se fazer. Acho que o filme teria se saído melhor se não fosse proibido para menores, assim o público-alvo da Arlequina poderia comparecer. Enquanto isso, os lacradores acusam de “machista” quem simplesmente não gostou, enquanto os mitadores atacam quem gostou, porque supostamente somos “lacradores”. Tempos estranhos.

Resultado de imagem para arlequina cospobre

O real público da Arlequina, que foi esquecido pelo marketing.

Close