No verão americano de 1921, Roscoe “Fatty” Arbuckle (ou Chico Bóia, como era conhecido no Brasil) estava no topo do mundo. A Paramount Pictures pagou a ele US$ 3 milhões para estrelar 18 filmes mudos em três anos, um valor sem precedentes para a época, e ele também havia acabado de assinar outro contrato de um milhão de dólares com o estúdio. O último filme do comediante corpulento antes do escândalo, Crazy to Marry, estava sendo exibido nos cinemas de todo os EUA (a distribuição de filmes há cem anos era diferente da atual, então ter um filme exibido em todo o país era uma vitória e um sinal de enorme popularidade). Assim, seu amigo Fred Fischbach planejou uma grande festa para comemorar, uma festa de três dias que ocorreria no feriado prolongado do Dia do Trabalho, no Hotel St. Francis, em São Francisco.

O que eles não sabiam é que até o final daquele feriado, a situação mudaria drasticamente e Fatty Arbuckle se veria sentado na cela 12 do “corredor do crime”, localizada no Salão de Justiça de São Francisco, preso e sem a possibilidade de pagar fiança, acusado de estuprar e matar uma atriz de 26 anos chamada Virginia Rappe. Crazy to Marry foi rapidamente retirado dos cinemas, e os EUA ficaram indignados ao descobrir um lado sórdido da vida fora das telas que as estrelas de Hollywood levavam. Por trás dos problemas de Arbuckle estava uma mulher misteriosa chamada Maude Delmont, testemunha de acusação que nunca seria chamada para testemunhar, porque a polícia e os promotores sabiam que sua história não se sustentaria. No entanto, o que ela tinha a dizer seria mais do que suficiente para arruinar a carreira de Arbuckle.

 

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Roscoe “Fatty” Airbuckle. Fatty significa literalmente “gordinho”, apelido que Roscoe carregava desde a infância. Ele odiava. Só aceitava ser chamado dessa forma nos sets de filmagem, enquanto encarnava o personagem Fatty Airbuckle.

Quem foi Roscoe ‘Fatty’ Airbuckle?

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Buster Keaton (à esquerda) e Roscoe Airbuckle (centro)

Durante a primeira década do século XX, Roscoe foi um artista do vaudeuville (uma espécie de show de variedades, uma série de apresentações de artistas variados, que foram muito populares nos EUA no fim do século XIX e começo do XX), foi graças ao vaudeville que ele fez amizade com gente do cinema e decidiu entrar no ramo, mais precisamente em 1909. Ganhou cada vez mais notoriedade ao longos dos anos 1910 e se tornou uma das maiores estrelas da comédia (vale notar que naquela época era muito comum os atores trabalharem em mais de seis filmes por ano). Roscoe serviu de tutor para Charlie Chaplin e descobriu Buster Keaton, outra lenda da comédia que se tornou seu grande amigo. Fatty Airbuckle praticamente inventou a comédia pastelão, inclusive o clichê da torta na cara foi algo popularizado por seus filmes, onde trabalhava com parceiros habituais de tela, como é o caso da atriz Mabel Normand. No final daquela década, Roscoe já era o artista mais bem pago de Hollywood, graças, principalmente, ao contrato milionário com a Paramount. Tudo estava indo bem na vida dele até aquele fatídico dia em 1921.

 

O escândalo

Os dias que antecederam a festa não deixaram o recém-divorciado Arbuckle de bom humor. Ele estava numa oficina em Los Angeles, aguardando a manuntenção do seu automóvel Pierce-Arrow acabar, quando se sentou em um pano embebido em ácido na garagem. O ácido não só corroeu a calça como também as nádegas, causando queimaduras de segundo grau. Ele ficou tentado a cancelar a viagem a São Francisco, mas o amigo Fred Fischbach não aceitou. Ele segurou um anel acolchoado de borracha para Arbuckle se sentar, e eles fizeram o caminho até o hotel St. Francis, onde Fischbach havia reservado dois quartos adjacentes e uma suíte.

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Virginia Rappe, morta aos 26 anos. Antes de Hollywood, era modelo, designer de roupas e participava de corridas de carros por diversão. Depois buscou uma carreira como atriz, onde só fez papeis insignificantes e, ironicamente, acabou famosa pela forma como morreu. Até hoje não se sabe ao certo o que exatamente houve naquela festa.

De acordo com Arbuckle, Fischbach organizou tudo, desde os quartos, os convidados e até a bebida (apesar da Lei Seca que vigorava a época), e no Dia do Trabalho, em 5 de setembro de 1921, Arbuckle acordou ao descobrir que havia muitos convidados e não convidados transitando pelo espaço. Ele ainda estava andando de pijama, roupão e chinelos quando viu Maude Delmont e Virginia Rappe e manifestou preocupação de que sua presença pudesse alertar a polícia para a “festa do gin”. Em Los Angeles, Delmont tinha fama de cafetina e chantagista; já Rappe criou um nome para si mesma como modelo, estilista, aspirante a atriz e festeira. Havia comida e bebida à vontade, a música tocava alto, e Arbuckle já não estava mais focado em seu cansativo horário de trabalho, nas queimaduras nas costas ou em quem eram todos aqueles convidados. O que aconteceu nas horas seguintes apareceria nas primeiras páginas da cadeia nacional de jornais de William Randolph Hearst (foi ele quem inspirou Cidadão Kane, aliás), em manchetes lúgubres, antes mesmo que Arbuckle tivesse a chance de contar o seu lado da história.

Durante a festa, Virginia Rappe foi encontrada gravemente doente no quarto 1219, um dos quartos adjacentes onde Roscoe e seu amigo Fred estavam hospedados. Ela foi examinada pelo médico do hotel, que concluiu que seus sintomas eram principalmente causados por intoxicação e lhe deu morfina para acalmá-la. Rappe só foi hospitalizada dois dias após o incidente.

Virginia Rappe sofria de cistite crônica (ou síndrome da bexiga dolorosa), uma condição que o licor ingerido por ela agravava dramaticamente. A sua bebedeira descontrolada e a má qualidade do álcool pirata da época poderiam deixá-la em sérias dificuldades físicas (Para quem não sabe, como a fabricação de álcool era ilegal, se tornou comum a fabricação caseira, onde o uso de substâncias perigosas para produzir as bebidas era habitual. Muita gente morreu intoxicada como consequência). Virginia desenvolveu uma reputação de beber demais nas festas e depois, embriagada, tentava rasgar as roupas, em meio à dor física resultante do consumo intenso de álcool.

No hospital, a companheira de Rappe na festa, Maude Delmont, disse ao médico que Arbuckle havia estuprado sua amiga. O médico examinou Rappe, mas não encontrou evidências de estupro. Rappe morreu um dia após sua internação por peritonite causada por um rompimento na bexiga. Delmont também disse à polícia que Arbuckle havia estuprado Rappe; a polícia concluiu que o impacto do corpo obeso de Arbuckle, deitado em cima de Rappe, acabou causando a ruptura da bexiga. Em uma entrevista coletiva posterior, o empresário de Rappe, Al Semnacker, acusou Arbuckle de usar um pedaço de gelo para simular sexo com Rappe, causando ferimentos. Quando a história foi publicada nos jornais, o objeto havia evoluído para uma Coca-Cola ou uma garrafa de champanhe, em vez de um pedaço de gelo. De fato, testemunhas disseram que Arbuckle esfregou o gelo no estômago de Rappe para aliviar sua dor abdominal. Arbuckle negou qualquer irregularidade e Delmont, mais tarde, fez uma declaração incriminando Arbuckle à polícia, na tentativa de extorquir dinheiro dos advogados dele.

Estado da suíte depois da festa

O julgamento de Arbuckle foi um grande evento da mídia. A cadeia nacional de jornais de William Randolph Hearst explorou a situação com histórias exageradas e sensacionalistas. Os jornais retratavam Arbuckle como um sujeito lascivo, grosseiro, que usava seu peso para dominar meninas inocentes. Hearst ficou satisfeito com os lucros que acumulou durante o escândalo de Arbuckle e mais tarde disse que “vendeu mais jornais do que qualquer outro evento desde o afundamento do Lusitânia” (navio americano de passageiros afundado pela marinha alemã durante a 1ª Guerra Mundial. O caso gerou grande comoção). Grupos moralistas pediram que Arbuckle fosse condenado à morte. Os estúdios, que controlavam a carreira dos atores, proibiram que os artistas amigos de Roscoe dessem declarações públicas a seu favor. Charles Chaplin e Buster Keaton desobedeceram e declararam publicamente apoio ao ator. O escândalo resultante destruiu a carreira de Arbuckle, juntamente com sua vida pessoal.

 

 

Os Julgamentos

O promotor do caso, Matthew Brady, era também candidato ao governo da Califórnia e usou o julgamento para ganhar capital político. Fez de tudo para condenar Arbuckle, arrumando testemunhas falsas e ameaçando testemunhas reais que estiveram na festa.

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Ao longo dos três julgamentos, praticamente todas as testemunhas de acusação se contradisseram e admitiram sofrer ameaças do promotor. O legista que alegou que a ruptura da bexiga de Rappe fora causada pelo peso de Airbuckle sobre ela, mudou o relato quando confrontado com o depoimento de outros médicos. Os advogados do ator descobriram até que uma das testemunhas que dizia ser funcionário do hotel era, na verdade, um criminoso convicto que aceitou mentir a pedido do promotor, em troca de uma redução da pena.

A defesa enfatizou o (suposto) passado promíscuo da suposta vítima, bem como seu histórico de saúde, que já envolvia problemas na bexiga. Apenas o relato do réu não mudou ao longo do caso. Segundo Arbuckle, ele havia concordado em levar uma das moças até a cidade, quando foi a seu quarto se trocar, deu de cara com Rappe vomitando no banheiro. Ela disse a ele que se sentia doente e pediu para se deitar. Arbuckle a colocou na cama e chamou os outros convidados para acudirem-na. Quando voltou ao quarto, encontraram-na no chão, rasgando suas roupas, enquanto entrava em uma aparente convulsão. O gerente do hotel e o médico foram chamados. Neste ponto, todos pensavam que ela estava apenas bêbada. Arbuckle alegou não saber da condição de saúde de Rappe.

Maude Delmont, a mulher que deu início a todo esse caos, não conseguiu extrair dinheiro do réu como queria. Nem mesmo o promotor a levou em consideração como testemunha, e, ao longo dos julgamentos sua fama de golpista e prostituta foi levantada pela defesa de Arbuckle, que apelidou Delmont de “A testemunha queixosa que nunca testemunhou”. Enquanto isso, ela passou a viajar pelos EUA, se apresentando como “A mulher que assinou a acusação de assassinato contra Arbuckle” e ganhou dinheiro com palestras sobre a sordidez de Hollywood. Os jornais também se aproveitaram do caso e preencheram suas páginas com histórias sensacionalistas, envolvendo drogas e orgias na indústria do cinema.

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Arbuckle (centro) em meio a uma das sessões de julgamento do caso

Em 12 de abril de 1922, o júri absolveu Arbuckle daa acusações de estupro e de homicídio culposo após deliberar por apenas cinco minutos – quatro dos quais foram utilizados para preparar um pedido formal de desculpas:

A absolvição não é suficiente para Roscoe Arbuckle. Nós sentimos que uma grande injustiça foi feita a ele… não havia a menor prova apresentada para conectá-lo de alguma forma à prática de um crime. Ele foi varonil durante todo o caso e contou uma história direta em que todos acreditamos. Desejamos-lhe sucesso e esperamos que o povo americano aceite o julgamento de catorze homens e mulheres de que Roscoe Arbuckle é totalmente inocente e livre de toda culpa“.

Arbuckle foi considerado culpado apenas por consumir álcool e pagou uma multa de 500 dólares. Independente disso, o estrago já estava feito, o ator estava falido e não conseguia mais trabalho em canto algum.

 

Consequências

Segundo a historiadora Cari Beauchamp, este foi o primeiro escândalo de Hollywood que trouxe um impacto negativo às bilheterias. Ela ainda acrescenta: “Todos acreditavam que as estrelas eram cobertas de pó mágico. Agora que a ilusão estava destruída e os chefes dos estúdios estavam aterrorizados, isso destruiria a própria Hollywood“.

Para conter os danos a imagem da indústria, os estúdios formaram em 1922 a Motion Picture Producers and Distributors of America (MPPDA), atualmente conhecida como Motion Picture Association (MPA). A MPA atualmente trabalha com a regulação da indústria, políticas anti-pirataria e define a classificação indicativa dos filmes. Mas na sua origem, quando a sua sigla ainda era MPPDA, sua função era basicamente a de limpar a imagem de Hollywood, a fim de trazer estabilidade na arrecadação das bilheterias, enquanto convence gente de Wall Street a investir no ramo. Também regulava a vida dos atores fora da tela, de forma a evitar escândalos. A organização elegeu como presidente Will Hays, um político republicano, que decidiu se encarregar do combate à imoralidade nos filmes. Seu empenho resultaria sete anos depois no famoso Código Hays (que por si só rende um post), que determinava o que os filmes não poderiam exibir, de forma a proteger a moral e os bons costumes.

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Roscoe e sua terceira esposa, Addie Macphill, durante exílio na Inglaterra.

O fato é que o escândalo envolvendo Roscoe Arbuckle foi o maior, mas não o único. Durante o mesmo período, houveram vários escândalos envolvendo nomes conhecidos da indústria: O primeiro foi em 1920, quando a atriz Olive Thomas morreu depois de beber uma grande quantidade do remédio de sífilis do marido, pensando que fosse água; outro escândalo foi o assassinato do diretor William Desmond Taylor, em 1922, que arruinou as carreiras das atrizes Mary Miles Minter e Mabel Normand (habitual parceira de tela de Arbuckle); em 1923 o ator e diretor Wallace Reid morreu de overdose de morfina; e o ator/roteirista/diretor Thomas H. Ince morreu misteriosamente no yacht do magnata William Randolph Hearst, em 1924. Isso sem contar ainda que a revolução sexual da década de 1920 naturalmente refletiu nos filmes e alguns deles passaram a fazer claras menções a sexo e/ou à homossexualidade.

Imagem atual do quarto onde tudo aconteceu há quase um século (via BBC).

Quanto a Roscoe Arbuckle, foi banido por Hays de trabalhar em Hollywood. Oito meses depois, o próprio Hays mudou de ideia, mas de nada mudou, o ator continuava com a imagem bastante manchada.

Afundado em dívidas e sem conseguir trabalho, teve que vender todos os seus bens para pagar parte dos honorários dos advogados e passou a sobreviver com ajuda de amigos. Buster Keaton chegou a reverter parte do lucro da sua produtora para ajudá-lo.

Arbuckle mudou seu nome para William B. Goodrich (Will B. Good) e trabalhou nos bastidores, dirigindo filmes para amigos que permaneceram leais a ele e mal ganhavam a vida no único negócio que ele conhecia. Ele foi para a Europa, viver na Inglaterra, onde continuou dependente de ajuda para conseguir trabalho e se entregou à bebida. Em 1931, quase uma década depois, Hollywood o perdoou e um dos chefões da Warner Bros, Jack Warner, contratou o ator para estrelar seis curta-metragens de comédia usando seu próprio nome.

Esses seis filmes são os únicos com o registro de sua voz. Quando encerrou as filmagens do último curta, em junho de 1933, Arbuckle declarou à imprensa que aquele era “o dia mais feliz de sua vida”. No dia seguinte entraria em vigor um contrato com a Warner para protagonizar um longa-metragem. Finalmente sua reputação estava restaurada. Porém, a felicidade deve ter sido tanta que foi demais para o seu coração, e Roscoe ‘Fatty’ Arbuckle morreu depois de um infarto fulminante, aos 46 anos.

Sobre o escândalo, o historiador David Pearson também não acredita que o ator machucou alguém. “Arbuckle era apenas uma estrela de cinema que estava no lugar errado na hora errada. E ele pagou por isso pelo resto da vida“, diz Pearson. “Já Rappe estava definitivamente no lugar errado e na hora errada, porque acabou morta. Foi uma dupla tragédia“.

How to put on a hat

 

Fontes:

https://web.archive.org/web/20061020034045/http://silent-movies.com/Arbucklemania/home.html

http://silent-movies.org/Arbucklemania/FACTS.html

https://www.smithsonianmag.com/history/the-skinny-on-the-fatty-arbuckle-trial-131228859/

https://www.bbc.com/news/magazine-14640719

http://www.public.asu.edu/~ialong/Taylor28.txt