Os vencedores e perdedores de 2020

2020 vai ficar na memória de um jeito bem ruim para os cinéfilos, é um fato. Nem na pandemia de gripe espanhola, as salas de cinema passaram tanto tempo...

2020 vai ficar na memória de um jeito bem ruim para os cinéfilos, é um fato. Nem na pandemia de gripe espanhola, as salas de cinema passaram tanto tempo fechadas. Essa mudança brusca causada pelo surto da Covid-19 acelerou um processo que já vinha acontecendo há anos, que é o aumento do interesse dos streamings entre os consumidores. O impacto desse período na indústria cinematográfica ainda está para ser sentido, mas, mesmo assim, houve quem conseguiu brilhar neste ano tão difícil.

 

Vencedor: Disney

É incrível como não tem tempo ruim para esta empresa. Mesmo tendo que adiar seus blockbusters promissores para o ano seguinte, a Disney conseguiu manter o dinheiro entrando com o aumento das assinaturas do seu streaming “Disney +”, que além de ser beneficiado pela quarentena, foi lançado em vários países este ano. No começo deste mês, a Disney divulgou aos acionistas que o serviço havia alcançado a marca de 86 milhões de assinantes. Um número excelente para um serviço de streaming que só tem um ano de existência.

 

Perdedor: Cinemas

2020 foi o pior ano da história para os cinemas. Sem exagero. Sem poder sair de casa para ver filmes, o público se rendeu aos serviços de streaming. A pergunta que fica é: O espectador terá vontade de regressar a uma sala de cinema com a mesma frequência anterior à pandemia? Já existem vários textos por aí se perguntando se seria este o começo do fim das salas de cinema. Ninguém sabe a resposta, mas é certo que os streamings são o maior concorrente dos cinemas desde a popularização da TV, nos anos 1950. Como amante de um telão numa sala escurinha, torço para que essa seja mais outra fase que o cinema enfrentou.

 

Vencedor: Star Wars

Depois do rastro de tristeza e decepção deixado entre os fãs após o encerramento da trilogia principal, Jon Favreau e Robert Rodriguez ajudam a Disney a se redimir com O Mandaloriano, ainda mais depois daqueeela cena. A série, que já está na segunda temporada, vem sendo o “sonho molhado” de qualquer fã da franquia e é o maior atrativo do catálogo da Disney +.

 

Perdedor: Christopher Nolan

Nolan é o único diretor na Hollywood atual que não precisa trabalhar em franquias para fazer filmes rentáveis e ele sabe disso. Existe a marca “Marvel”, a marca “007”, a marca “Star Wars” e por aí vai. Já o Nolan é a própria marca, só a presença dele na direção é o suficiente para atrair público. No entanto, 2020 apresentou um cenário atípico e ele, com o ego nas alturas, achou mesmo que o seu nome num pôster era o suficiente para fazer as pessoas superarem o medo da COVID-19 e saírem de casa para assistir Tenet, salvando o cinema. Errou feio, errou rude. Além de ser o seu pior filme, a insistência de Nolan em lançar Tenet nos cinemas fez com que executivos da Warner se dispusessem a apostar na ideia arriscada de lançar seus filmes ao mesmo tempo nos cinemas e no streaming.

 

Vencedor: Netflix

Netflix dobra lucro com aumento de assinantes durante confinamento - ISTOÉ  DINHEIRO

Além de ter dobrado o número de assinantes durante a quarentena, a Netflix também teve um 2020 excelente em termos de filmes “de arte”. Há anos que o serviço de streaming tenta se posicionar no mercado como uma plataforma rica em filmes dignos de premiação. Começou timidamente com o Beasts Of No Nation (2015) e hoje já abocanhou vários prêmios e indicações com, Ícarus (2017) Roma (2018) e O Irlandês (2019), isso só citando os destaques. Com os cinemas fechados, boa parte dos filmes que seriam fortes candidatos ao Oscar em 2021 foram adiados para disputar a premiação só em 2022, deixando a Netflix com espaço de sobra para chamar a atenção para seus filmes e há vários deles que prometem se destacar no Oscar: Destacamento Blood, A Voz Suprema do Blues, Mank e Os 7 de Chicago. Como se não bastasse, a Netflix também teve os filmes de maior sucesso do verão americano, época dominada por blockbusters, com os longas Resgate e The Old Guard.

 

Perdedor: DC Filmes

Depois de ter um ano vencedor em 2019, com Shazam!, Coringa e o bilhão de Aquaman, os filmes da DC tornam a entrar num período difícil em 2020. Aves de Rapina recebeu muitos elogios dos críticos (e merecidamente, é um ótimo filme na minha opinião), mas isso não se converteu em sucesso nas bilheterias. Já com Mulher-Maravilha 1984 vem ocorrendo um fenômeno oposto: o filme, ao que parece, vai cumprir o seu papel em aumentar o número de assinantes da HBO Max, mas a obra está longe de ter causado a mesma impressão que o primeiro causou e é fato que há um sentimento de decepção entre os fãs. A Warner não depositou o cheque na conta dos críticos dessa vez.

 

Vencedor: Pedro Pascal

2020 provavelmente é o melhor ano da carreira do ator até agora. Não só faz o personagem principal de O Mandaloriano, carro-chefe do Disney +, como também arrasou em Mulher-Maravilha 1984 interpretando o vilão Maxwell Lord, apesar do filme em si. Sua performance é como uma flor em meio ao pântano que foi esse longa.

 

Perdedor: Cyberpunk 2077

Não sei nada de games, nem tencionava em colocar jogos nessa lista justamente por esse motivo, mas pensando melhor, eu decidi que seria justo falar de Cyberpunk 2077 pois há anos que ouço falar dele. Quero dizer, a expectativa em volta do jogo era tão alta, mas tão alta, que chamou até mesmo a atenção de gente que não acompanha a indústria dos games, como eu. Até hoje me lembro do Keanu Reeves causando frisson entre o público gamer num evento há uns dois anos. Passado o aguardado lançamento, a decepção é generalizada e as ações da empresa desenvolvedora do jogo sofreram uma queda de 25%. Acho que é seguro dizer que Cyberpunk 2077  foi um fiasco.

 

Vencedor: Harry Melling

Harry Melling já era um rosto conhecido entre os pottermaníacos mais apaixonados e de boa memória. Mas a maior parte do público ficou honestamente surpresa em descobrir que o Harry Beltik, da minissérie da Netflix O Gambito da Rainha, também foi o primo Duda da franquia Harry Potter. Aliás, além de O Gambito da Rainha, Melling esteve em The Old Guard e em O Diabo de Cada Dia, ambos destaques da Netflix neste ano.

 

Perdedor: Johnny Depp

Justiça britânica autoriza ator Johnny Depp a processar tabloide por  difamação - ISTOÉ DINHEIRO

Johnny Depp teve a reputação enterrada de vez neste ano. O ator está envolvido desde 2015 numa lavagem pública de roupa suja com a ex-esposa Amber Heard. A troca de acusações parou no tribunal em meados de 2020, depois que Depp processou o tabloide britânico The Sun por se referir a ele como “wife-beater” (batedor de esposa, em tradução literal) numa matéria sobre as denúncias de violência doméstica feitas por Heard. Para ganhar o caso, o tabloide precisaria provar ao juiz do caso que Depp de fato agrediu sua então esposa, o que acabou acontecendo. Além da derrota no tribunal inglês, Depp virou persona non grata em Hollywood, foi demitido do seu papel de Grindenwald na franquia Animais Fantásticos e, recentemente, seus filmes foram banidos da Netflix (uma decisão injusta com as outras pessoas que trabalharam nestes projetos).

 

Vencedor: Mads Mikkelsen

O ator dinamarquês Mads Mikkelsen herdou o papel de Grindewald após a demissão de Depp, e agora vai assumir uma posição de destaque numa grande franquia (muitos veem isso como uma coisa boa para este ator tão subestimado, mas pessoalmente eu acho que ele merecia coisa melhor). Mais importante ainda, Mikkelsen é um dos protagonistas da elogiada comédia romântica Quinta Rodada, que tem fortes chances de ser indicado ao Oscar de melhor filme estrangeiro neste ano.

 

Perdedor: Anne Hathaway

Anne Hathaway pede desculpas após polêmica em 'Convenção das Bruxas' -  05/11/2020 - UOL Splash

Anne Hathaway é talentosa, isso é inquestionável, mas parece que precisa de um agente melhor. Ela protagonizou para a Netflix o longa “A Última Coisa Que Ele Queria“, no qual vive uma jornalista que herda o negócio de armas do pai falecido. O filme foi muito criticado pela crítica e pelo público. Ela também reviveu o papel interpretado por Anjelica Huston há 30 anos em Convenção das Bruxas, outro filme muito criticado.

 

Vencedor: Sacha Baron Cohen

 

14 anos depois do primeiro Borat, Sacha Baron Cohen retorna com um segundo filme tão escrachado quanto o anterior e, embora a repercussão não tenha sido a mesma, certamente foi um dos destaques cinematográficos do ano. Para fechar o ano, ele ainda foi dono de uma performance elogiada em Os 7 de Chicago.

 

Perdedor: Quibi

Você provavelmente nunca ouviu falar do Quibi. A ideia deste novo serviço de streaming era a de lançar conteúdos de curta duração especificamente para celulares, daqueles que o consumidor pode assistir enquanto está no ônibus, por exemplo. A pandemia obviamente prejudicou o lançamento do streaming por motivos óbvios, afinal, quem iria espremer os olhos para assistir algo no celular quando pode simplesmente ver algo na sua própria TV? Para piorar, o Quibi também ignorou a existência de concorrências como TikTok e YouTube, que transmitem vídeos de curta duração sem cobrar nenhum valor em dinheiro por isso. Além, é claro, dos outros serviços de streaming que também possuem aplicativo para celulares. Uma análise apontou que dos 910 mil assinantes, a maioria esmagadora cancelou a assinatura antes de completar o período gratuito de três meses, restando apenas 72 mil. O projeto, que teve uma captação bilionária de recursos através de investidores, foi encerrado de vez em outubro deste ano.




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