Primeira Guerra Mundial | 10 filmes para você assistir

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O texto abaixo é uma transcrição de um depoimento real dado por um ex-soldado alemão a um documentário britânico de 1964 sobre a Primeira Guerra Mundial, no aniversário de 50 anos do início do conflito. Achei interessante introduzir esta lista com este depoimento porque, já que estamos falando da grande guerra, um relato de um soldado em primeira mão é muito mais intenso do que ler um texto impessoal num livro de história e a perspectiva de quem está no “olho do furacão” é sempre mais atraente (quem gosta de história vai me entender). Você pode pular o texto e ir direto até a lista, mas não é todo dia que você pode ler como um soldado da primeira guerra mundial se sentiu sobre a guerra em si e sobre matar alguém.

Um dia, recebemos ordens para atacar uma posição francesa. Chegamos lá e meus camaradas à minha esquerda e à minha direita foram abatidos, e então, fui confrontado por um cabo francês. Ele estava com sua baioneta preparada e eu também estava com a minha baioneta na mão. Por um momento, eu senti o medo da morte, e, numa fração de segundo, percebi que ele estava atrás da minha vida, assim como eu estava atrás da dele. Fui mais rápido. Me livrei do rifle dele e atravessei minha baioneta em seu peito. Ele caiu, pôs a mão no lugar onde foi atingido e eu empurrei a baioneta mais uma vez. O sangue saiu de sua boca e ele morreu.

Me senti fisicamente mal. Quase vomitei, meus joelhos estavam tremendo e eu estava, francamente, envergonhado de mim mesmo. Meus camaradas – Eu era um cabo, até então – ficaram absolutamente tranquilos com o que tinha acabado de acontecer. Um deles se vangloriou porque tinha matado um ‘poilu’ (soldado francês) com a coronha do seu rifle. Outro tinha estrangulado um capitão francês. Um terceiro acertou a cabeça de alguém com uma pá. 

Eles eram homens comuns, como eu. Um deles era um maquinista, outro era um vendedor, dois eram estudantes e o resto trabalhava em fazendas. Pessoas comuns que nunca haviam pensado em machucar alguém. Como foi que eles foram tão cruéis? Me lembrei então que nos disseram que o bom soldado mata sem pensar no seu adversário como um ser humano; no momento em que ele o vê como uma pessoa, não é mais um bom soldado.

Mas eu tinha em minha frente esse homem morto, um soldado francês morto; eu gostaria que ele tivesse levantado a sua mão, eu a teria apertado e nós seríamos melhores amigos, porque como eu, ele era um ninguém, só um pobre garoto que precisava lutar, que tinha de seguir em frente com as armas mais cruéis contra um homem que não tinha nada contra ele pessoalmente, que só usava um uniforme de outra nação, que falava outra língua, mas um homem que tinha pai, mãe e talvez uma família. Então, eu senti a morte dele.

Às vezes eu acordava à noite, molhado de suor, porque eu via os olhos dele, do meu adversário caído e eu tentava me convencer, pensando no que poderia ter acontecido comigo se eu não tivesse sido mais rápido do que ele. O que teria acontecido comigo se eu não tivesse enfiado a minha baioneta em sua barriga?

De que maneira nós, soldados, nos esfaqueávamos, nos estrangulávamos, íamos atrás uns dos outros como cachorros raivosos? De que maneira nós, que não tínhamos nada contra eles pessoalmente, lutamos contra eles até o fim, até a morte? Nós éramos pessoas civilizadas, afinal de contas. Mas eu senti que a cultura pela qual nós nos vangloriávamos tanto é só uma casca fina que se quebra no exato momento no qual entramos em contato com coisas cruéis como a guerra de verdade.

No último domingo, às 11h do dia 11 de novembro de 2018 completaram-se exatos cem anos que “A guerra para acabar com todas as guerras” terminou oficialmente. O conflito durou apenas 4 anos (1914-1918), mas foi o suficiente para arrasar a Europa, deixar 18 milhões de mortos e redefinir o mapa do velho continente, que mergulharia numa outra guerra sangrenta e de proporções ainda mais gigantescas 21 anos depois. Em algumas cidades inglesas o impacto da primeira guerra foi catastrófico. Na imagem aérea da cidade de Grimsby compartilhada no tweet abaixo, por exemplo, cada papoula representa alguém que não votou para a casa depois do fim da guerra:

Fatos históricos e horrores da guerra a parte, o Nerdzoom elaborou uma lista de dez bons filmes para você assistir. São filmes de variados gêneros, épocas e países, mas todos eles têm um ponto em comum: giram em torno da Primeira Grande Guerra. Me recusei a por Mulher-Maravilha nessa lista porque é um filme do “gênero” super-heróis (que estão em alta) e é recente, então o caro leitor deste site muito provavelmente já deve ter assistido a esse filme (se não tiver assistido, fica a dica).

Tem muitos filmes antigos por aqui (a maioria, na verdade), mas para mim a divisão entre filmes velhos e novos não faz sentido. O filme que você amou e foi lançado ontem não vai deixar de ser bom porque não é mais tão recente assim. Então se você é daqueles que detesta filmes antigos, um aviso: está perdendo muita coisa boa por causa desse preconceito. Vamos à lista:

1 – Lawrence da Arábia (Lawrence of Arabia) – 1962

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T.E Lawrence (Peter O’toole, centro), praticamente um Indiana Jones da vida real

Baseado na incrível história real do arqueólogo, escritor, espião e militar galês T.E Lawrence (Peter O’toole), que serviu ao exército britânico durante a primeira guerra, Lawrence da Arábia é uma adaptação do livro clássico “Os Sete Pilares da Sabedoria“, onde Lawrence relata suas experiências no movimento nacionalista árabe, onde ajudou a organizar estratégias contra o exército turco-otomano. A revolta árabe fez parte do esforço britânico na primeira guerra mundial para derrotar o Império Turco-Otomano, aliado da Alemanha. As quase 4h de duração do longa passam num piscar de olhos. O diretor, David Lean, consegue transmitir com perfeição todo o senso de aventura que a jornada de Lawrence pela península arábica invoca. T.E Lawrence teve um papel decisivo nos rumos da guerra travada nos desertos árabes. O cara era praticamente um Indiana Jones da vida real, atuando na primeira guerra não só como militar, mas também como espião, disfarçado em território inimigo. A vida dele por si só daria uma incrível biografia. O livro “Os Sete Pilares da Sabedoria“, que Lawrence escreveu nos anos que se seguiram à guerra, virou um clássico da literatura mundial, assim como a sua adaptação para o cinema, considerado por críticos como um dos melhores filmes da história. Ganhou 7 Oscars, incluindo o de melhor filme.

2 – Glória Feita de Sangue (Paths of Glory) – 1957

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Kirk Douglas e Stanley Kubrick. A parceria seria repetida no filme seguinte do diretor: Spartacus.

Primeiro filme de guerra de Stanley Kubrick, Glória Feita de Sangue é altamente crítico e narra a história do Coronel Dax (Kirk Douglas), comandante do exército francês, que se recusa a conduzir seus homens a um ataque suicida. Após isso, ele é encarregado de defendê-los quando a tropa é acusada por uma corte marcial de covardia. O filme é intenso, angustiante e melancólico. Também existem momentos impressionantes, como por exemplo, o da investida dos soldados franceses contra o inimigo, onde a câmera de Kubrick passeia pela “Terra de Ninguém”, acompanhando o Coronel Dax quando este ataca os adversários, ao mesmo tempo em que se protege dos tiros deles. O filme é baseado no romance de mesmo nome, escrito por Humphrey Cobb. O longa teve aclamação crítica, mas uma arrecadação modesta de bilheteria. Também foi cercado por controvérsias, sendo banido em vários países por seu forte tom anti-militar.

3 – Uma Aventura na África (The African Queen) – 1951

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Katharine Hepburn (Adivinhe Quem Vem Para Jantar?) e Humphrey Bogart (Casablanca): duas lendas sendo dirigidas por outra lenda – o diretor John Huston.

Nesta aventura dirigida pelo lendário John Huston e baseada no livro de mesmo nome do escritor C.S Forester, a missionária Rose Sayer (Katharine Hepburn) e seu irmão, o Reverendo Samuel Sayer, estão na África quando a primeira guerra mundial começa. Quando os vilarejos da costa leste do continente são invadidos pelos alemães e o seu irmão morre, Rose precisa contar com a ajuda do beberrão Charlie Allnut (Humphrey Bogart), capitão do barco African Queen, para escapar dos alemães e voltar a sua terra natal com vida. O filme foi um sucesso de crítica e público e rendeu um Oscar de melhor ator para Bogart, o único de sua carreira.

4 – Cavalo de Guerra (War Horse) – 2011

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Steven Spielberg mandando bem mais uma vez

Se você é um daqueles que se emociona com histórias de amizade entre animais e seus donos, então provavelmente vai gostar deste filme. Dirigido por Steven Spielberg e baseado no livro infantil de mesmo nome, escrito por Michael Morpurgo, Cavalo de Guerra conta a história do adolescente Albert (Jeremy Irvine) e do cavalo Joey. Criado desde filhote pelo garoto, Joey é vendido ao exército inglês pelo pai de Albert para fazer parte do efetivo atuante na primeira guerra. Desesperado, o jovem se alista ao exército para ir atrás do seu cavalo. Enquanto isso, Joey transita pela Europa, passando por vários donos. Será que ambos se reencontrarão algum dia? Esse filme de Spielberg não foi muito assistido durante o seu lançamento, o que é uma pena porque é um dos melhores dramas que ele já fez. O longa foi indicado a seis Oscars, incluindo o de melhor filme. Tom Hiddleston e Benedict Cumberbatch integram o elenco.

5 – Feliz Natal (Joyeux Nöel) – 2005

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Uma história real, daquelas que restauram a fé na humanidade

Era o natal de 1914, a Europa estava em guerra há seis meses. Quando a véspera de natal se aproximava, soldados inimigos que combatiam no Front Ocidental decidiram baixar as armas e comemorar o natal. Isso mesmo. Alemães, ingleses e franceses saíram de suas trincheiras, ousando a atravessar a “Terra de Ninguém” e foram em direção ao inimigo para trocar presentes, entoar cânticos natalinos e até mesmo jogar futebol. Claro que isso não ocorreu em todos os locais: em alguns pontos da Europa a guerra seguiu normalmente, em outros a trégua só durou no dia de natal e em outras localidades o cessar-fogo foi até o final do ano. Os generais não gostaram nada e proibiram confraternizações nos anos seguintes da guerra (um certo cabo do exército alemão chamado Adolf Hitler também ficou indignadíssimo com a trégua natalina). Apesar delas continuarem se repetindo vez ou outra nos anos de guerra que se seguiram, não foi tão ampla como a de 1914, que chamou até a atenção da imprensa na época. Bom, sobre o filme Feliz Natal, que é ambientado em meio a esse cessar-fogo do natal de 1914, acredito que os eventos extremamente inusitados que eu acabei de descrever acima sejam capazes de te convencer a assistir. Os excelentes Daniel Bruhl e Diane Kruger integram o elenco.

6 – Eterno Amor (Un Long Dimanche de Fiançailles) – 2004

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Um dos melhores filmes da Audrey Tautou (Amélie Poulàin)

Neste drama francês de Jean-Pierre Jeunet, Audrey Tautou interpreta Mathilde, uma jovem francesa que aguarda ansiosamente o retorno do noivo Manech, convocado para lutar nas trincheiras do exército francês na primeira guerra mundial. Ao fim do conflito, o exército informa a Mathilde que Manech tentou se mutilar para sair da frente de batalha e, por isso, foi condenado a morte por uma corte marcial, sendo abandonado na “terra de ninguém”, à mercê dos alemães. Mathilde não acredita na morte do noivo e ela decide investigar seu paradeiro por conta própria. O filme foi um sucesso entre a crítica especializada, concorreu a dois Oscars e ganhou 5 Cesars, o maior prêmio do cinema francês. Também conta com um elenco excelente: Audrey Tautou, Marion Cotillard, Jodie Foster e Gerard Depadieu.

7 – O Lobo do Deserto (Theeb) – 2014

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O longa venceu o Oscar de melhor filme estrangeiro em 2015

O ano é 1916 e o mundo está em plena guerra mundial. O pequeno Theeb (Jacir Eid Al-Hwietat) e seu irmão mais velho Hussein (Hussein Salameh Al-Sweilhiyeen) perderam seus pais recentemente e vivem como nômades numa tribo beduína, vagando pelos desertos do Império Turco-Otomano, nação que combate a tríplice Entente (Inglaterra, França e Rússia) em seu próprio território. A tribo nômade de Theeb se encontra na província de Hajaz, permanecendo distante da guerra, até que a chegada de um oficial inglês e de seu ajudante muda os destinos de Theeb e seu irmão Hussain. O soldado está em busca de um poço romano na região e pede que um dos irmãos seja seu guia. O problema é que a viagem é perigosa: a trilha é repleta de bandidos e o Império está em guerra, o que torna bem real a possibilidade do grupo se ver no meio do conflito, mas apesar disso, Theeb e Hussein aceitam a tarefa. Se eles chegarão inteiros ao fim da viagem é um mistério.

8 – Os Campos Voltarão (Torneranno i prati) – 2014

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A guerra do ponto de vista dos soldados italianos

Retrata um dia numa trincheira italiana durante a primeira guerra. O diretor italiano Ermanno Olmi foge do melodrama e retrata a dinâmica da guerra de forma tão realista e contundente que às vezes parecemos estar diante de um documentário ao invés de um filme. Fora que estamos habituados a ver a guerra através do olhar dos soldados da tríplice entente, mas não do lado aliado, principalmente dos soldados italianos.

9 – Sem Novidade no Front (All Quiet on the Western Front) – 1930

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Sem Novidade no Front: O enredo é uma boa definição cinematográfica de expectativa/realidade

Baseado no romance homônimo do escritor alemão Erich Maria Remarque, Sem Novidade no Front conta a história do jovem alemão Paul Bäumer, que assim como todos os jovens de sua idade, está ansioso para servir ao seu país na guerra para, com isso, mostrar coragem ao seu povo e se tornar um herói. Quando Bäumer finalmente vai para a frente de batalha, a dura realidade aparece e, em choque, ele é obrigado a aceitar que não há nada de heroico a se fazer ali. O longa venceu o Oscar de melhor filme em 1930 e continua um clássico, mesmo 88 anos depois do seu lançamento.

10 – Ecos da Guerra (Regeneration) – 1997

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Apesar das marcas d’água na imagem, a foto traduz bem como é o filme

Baseado no romance homônimo de Pat Barker. O filme acompanha as histórias de quatro soldados do exército britânico durante a primeira guerra mundial. Suas histórias se cruzam quando eles são enviados ao mesmo hospital para se tratarem de seus variados traumas, que os incapacitaram permanentemente. Nos EUA, o longa foi lançado com o título Behind the Lines.

Bônus – WestFront 1918 (1930)

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Os nazistas não gostaram do filme por ser pacifista demais

Filme alemão de 1930. Como vocês obviamente notaram, ele é contemporâneo de Sem Novidade no Front, no entanto seu tom é muito mais desolador do que o filme americano. Westfront 1918 mostra os efeitos traumatizantes da guerra sobre um grupo de soldados alemães enquanto estes lutam nas trincheiras na França, durante os meses finais da guerra. Algumas curiosidades sobre o filme: 1) Ele foi o primeiro longa falado do diretor Georg Wilhelm Pabst; 2) Um dos atores, Gustav Diessel, passou um ano como prisioneiro durante a guerra; e 3) O filme tem um tom pacifista e por causa da sua mensagem anti-guerra foi censurado pelo partido nazista, que considerou o filme inadequado para o público. O próprio ministro da propaganda nazista, Josef Goebbels, denunciou o longa porque este “incitava a covardia”. Se os nazistas reprovaram, talvez seja um forte indício de que o filme valha a pena ser assistido, não?

Espero tê-los convencido a assistir a algum filme da lista e reforço o que foi dito logo acima dela: jogue seu preconceito com filmes antigos para longe e aproveite as boas histórias. Só existem filmes bons e filmes ruins.

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