Baseado no romance homônimo lançado em 1929 na Alemanha, o longa Berlin Alexanderplatz (2020) usa a questão dos imigrantes ilegais na Europa para trazer a história aos dias atuais. Esta é a terceira vez que o filme tem uma adaptação para o audiovisual. A primeira foi um longa em preto e branco lançado na Alemanha em 1931, que contou com a participação do próprio autor do romance – Alfred Döblin; a segunda foi uma aclamada minissérie de 14 episódios concebida pelo diretor Rainer Werner Fassbinder e lançado na TV alemã em 1980. Por fim, a terceira adaptação é do diretor alemão descendente de afegãos Burhan Qurbani, que chamou a atenção pela primeira vez em 2014, com o longa da Netflix “Nós Somos Jovens. Nós Somos Fortes“, no qual resgata um episódio recente de xenofobia ocorrido na Alemanha.
Se na versão original o protagonista era um alemão de 41 anos chamado Franz Biberkopf, que jura se manter fora de problemas depois de uma temporada preso por matar a namorada, no longa de 2020, Franz – ou melhor – Francis (Welket Bungué) é um imigrante ilegal nascido em Guiné-Bissau, que trabalha duro em uma Berlim selvagem enquanto enfrenta os traumas de seu passado e o racismo, tudo com o desejo de buscar a sonhada cidadania alemã. Sem conseguir arrumar emprego, ele é “resgatado” por Reinhold (Albrecht Schuch), um traficante de drogas e também uma espécie de fornecedor de mão de obra terceirizada para o submundo do crime berlinense. Francis, que assim como o Franz da obra original, havia jurado a si mesmo que seria um homem correto, é forçado a quebrar a sua promessa. Suas constantes tentativas de sair do mundo do crime enfurecem Reinhold, que o enxerga como um investimento. Para piorar, a gratidão que Francis sente por Reinhold tê-lo tirado das ruas impossibilita que ele enxergue as reais intenções do seu “amigo”.
O longa reconhece a importância de sua mensagem ao retratar um protagonista, que, incapaz de ser aceito em qualquer lugar do mundo, se deixa seduzir pelo inescrupuloso. O ator guiné-bissauense Welket Bungué transmite muito bem ao público a frustração e o desgaste emocional de Francis ao tentar, em vão, levar uma vida justa. No entanto, ao enfatizar o conflito interno do protagonista em diversas ocasiões, o longa acaba por soar repetitivo, prejudicando outros personagens que mereciam um cuidado maior, como Mieze (Jella Haase) e Eva (Annabelle Mandeng). Apesar da atuação envolvente da primeira e da interpretação correta da segunda, ambas não passam de recursos utilizados pelo roteiro com o intuito de realçar a confusão moral de Francis. Mieze e Eva são, por assim dizer, os “anjinhos” ao ouvido do protagonista.
Já o “diabinho” seria Reinhold (Albrecht Schuch). O tempo investido pelo traficante para treinar Francis no “emprego”, mais a sensação de superioridade característica do racismo, fazem com que Reinhold não aceite muito bem o fato de Francis querer se distanciar dele, daí só resta ao personagem se aproveitar do sentimento de lealdade do protagonista para manipulá-lo. A interpretação de Albrecht Schuch oscila entre a caricatura e o sinistro, mas esta oscilação não chega a comprometer o ar ameaçador e imprevisível de seu personagem. Além disso, o tempo de tela que o antagonista recebe é exagerado para um personagem pouco profundo, cujo relacionamento tenso com o protagonista já se estabelecera na primeira hora de projeção.
Ainda assim, o carisma de Francis, a sua luta e o seu desespero em seguir uma vida honesta nos fazem ter ânimo para acompanhá-lo por esta jornada de 3h duração, por mais previsível que o final se mostre à medida em que nos aproximamos do encerramento do longa.
Berlin Alexanderplatz estreou nesta quinta-feira (18) nos cinemas brasileiros.
