Distopias se tornaram temas recorrentes ultimamente na sétima arte, principalmente quando tratamos de desastres naturais. O bom destes mundos, é que são um campo praticamente infinito para histórias envolventes, e Caminhos da Memória é uma destas obras que sabem aproveitar muito bem o que tem em mãos.

Escrito e dirigido por Lisa Joy (Westworld), o filme gira em torno de Nick Bannister, um investigador particular que trabalha com memórias, seja para solucionar casos, ou apenas para ajudar pessoas a se recordarem do passado de forma mais vívida. Vivendo as margens de uma Miami completamente submersa, devido a um desastre natural, Nick se depara com uma nova cliente, chamada Mae, a qual desenvolve uma paixão avassaladora, quando sem mais, nem menos ela desaparece, e assim, Nick parte em busca de uma jornada para encontrá-la, passando por cima de tudo e de todos.

O filme dá um nível grande de importância aos detalhes, coisa que rendeu a Joy a sua fama, pelos seus roteiros intrincados, o que deixa o mundo em volta do personagem central algo vivido, tanto quanto seus personagens. Isso se deve a diretora, fazer com que o protagonista explore a cidade, dando identidade a esta distopia.

Pelo fato de este ser o primeiro filme da Lisa Joy, o principal defeito do filme (e talvez o único), seja o ritmo do filme, que usa cenas desnecessárias para um contexto a situações que poderiam ser explicadas com uma linha de diálogo simples, ou se valendo da imaginação do espectador. 

Parte disto se deve a suas experiências com séries de televisão, onde é necessário uma quantidade maior de cenas, para conseguir cumprir com a duração exigida em cada episódio, que nem sempre casa com a proposta da tela grande.

Mas as partes negativas param por aí, o roteiro é extremamente bem escrito, e como a história envolve um mistério complexo, que consegue misturar muito bem o clima noir, com elementos de distopia, fazendo com que a duração de 2h30 passe num piscar de olhos.

Como já provou em sua experiência à frente de Westworld juntamente com seu marido Jonathan Nolan (Amnésia), Lisa Joy consegue fazer uma mistura complexa e sutil de gêneros e ainda colocar ponderações filosóficas como pilar central da história que ela quer contar, de forma completamente orgânica, sem precisar forçar com diálogos expositivos.

Em Caminhos da Memória não poderia ser diferente, com uma reflexão profunda sobre se prender ao passado e como prosseguir, mesmo com as dificuldades, e principalmente com as perdas, traz uma mensagem necessária para os dias atuais.

As atuações são realmente dignas de nota. Hugh Jackman (O Rei do Show), após sair da esfera de blockbusters parece estar mais solto em suas atuações e trabalhando com papéis diferentes, o que demonstra o quanto este excelente ator ainda tem pra dar.

O elenco feminino dá um show à parte. Thandiwe Newton (Westworld) que já era uma companheira de longa data de Lisa, também ganha seu espaço para brilhar como uma voz de racionalidade em meio a uma trama tão complexa. Angela Sarafyan (Westworld), que contracena com Thandiwe, também aparece, e Lisa Joy aproveita bem a dinâmica que as duas já possuem, mesmo que seja em uma cena curta.

Mas quem rouba a cena mesmo é Rebecca Ferguson (Doutor Sono) que além de possuir uma beleza arrasadora, ainda tem um talento impressionante, e assim como em trabalhos anteriores, ela se entrega ao papel e garante uma das cenas mais emocionantes de todo o filme. Realmente uma atriz a prestar atenção no futuro.Caminhos da Memória, apesar do ritmo lento, possui praticamente tudo o que um filme necessita pra te prender a atenção: atuações maravilhosas, universo cativante, uma história instigante, fora uma mensagem poderosa e extremamente necessária para estes períodos de pandemia, onde tivemos tantas perdas. Realmente vale o seu ingresso e o seu tempo.