Biografia sobre adolescente anglo-paquistanês reprimido cuja vida explode ao conhecer a música de Bruce Springsteen é uma adorável carta de amor à arte.

A arte é universal, ela não tem fronteiras, limites e nem mesmo público restrito. Ela está à disposição de todos para que cada um a interprete da forma que quiser, para que cada um abrace ou descarte suas ideias e intenções. Uma vez que a arte é publicada, diz-se que ela não pertence mais ao artista, mas ao mundo, ao público. Era assim que pessoas se conectavam muito antes do telefone e da internet existirem, elas entravam em sintonia através de uma ideia em comum expressada por uma mídia específica, como o desenho, as palavras, a escultura e…a música.

“A Música da Minha Vida” (Blinded By the Light, 2019) trabalha dentro desse espectro. Javed (Viveik Kalra), um adolescente britânico, de família paquistanês, reprimido dentro de casa pelos pais super tradicionais e oprimido fora dela pelos fascistas ingleses em meados dos anos 80, numa Inglaterra que vivia sua pior recessão desde a segunda guerra mundial. O cenário não é diferente do que se vê hoje em dia na Europa e nas Américas também: imigrantes sendo tratados como doença, parasitas, e nacionalistas racistas ganhando espaço parar se manifestarem em meio a governos que legitimam esse comportamento. Javed escreve desde pequeno e, chegando no último ano de high school (o nosso ensino médio), ele decide seguir a carreira de escritor, ainda que seus pais não saibam e muito menos concordem com isso.

A escrita é a forma que o rapaz encontrou de se expressar, de colocar para fora os maus que o tormenta, sejam eles sobre os pais, a cultura de sua família, o estado da Inglaterra e dos EUA em meio à Guerra Fria – são poemas, dissertações, letras de músicas, artigos e muito mais. Javed é talentoso e sua professora percebe isso, cobrando que o rapaz seja autêntico em suas redações como é em seus poemas, os quais ele chama de “lixo” e ela responde categoricamente, “mas é o seu lixo”. Em meio à recessão, o desemprego do pai e suas frustrações em casa, Javed é apresentado, por meio de seu amigo Roops (Aaron Phagura), ao músico americano Bruce Springsteen, conhecido como the Boss (o chefe) em sua cidade natal, New Jersey.

Quase instantaneamente, as canções de Springsteen conectam com Javed; ele encontra nelas uma representação, um caminho e pequenas soluções para combater os obstáculos que aparecem em meio à vida, sejam estes sociais ou pessoais. A música de Springsteen não foi feita para Javed, foi feita para Springsteen, assim como os poemas do rapaz britânico não foram feitos para seu vizinho, que encontrou uma de suas poesias numa certa ocasião, mas para o próprio Javed. Só que, em ambos os casos, as palavras de cada artista encontraram um hospedeiro que as tratassem com carinho, e com um piscar de olhos, o hospedeiro não está mais sozinho.

A música de Springsteen traz uma energia até então intencionalmente ausente para o filme, ela realmente muda a forma como nós, espectadores, interagimos com os personagens. Por quê? Primeiramente, porque a música dele é muito boa e extremamente relevante; Bruce Springsteen é um dos maiores artistas populares do século XX, principalmente por conseguir incorporar uma musicalidade (harmonia e ritmo) da música originalmente negra, como o soul e o funk (de James Brown, por exemplo) com as intensas letras do folk (de Bob Dylan, por exemplo). Em seus primeiros álbuns, Springsteen explorou a sua juventude, o desejo de ter sucesso e sair da miséria que assolava New Jersey nos anos 50 e 60, uma cidade que sempre viveu à sombra de New York; depois de Born to Run, de 1975, ele voltou suas letras para perspectivas sobre o ser humano e o que o aflige em Darkness on the Edge of Town (1978), The River (1980) e Nebraska (1982), seu disco completamente folk. Com Born in the USA (1984), Springsteen adota, num cenário pós-punk, uma influência punk (por isso ele é visto como “datado”), usando a bandeira do próprio país como forma de ironia para criticar o governo e a forma como esse tinha tratado os veteranos de guerra. Como citado no filme, algumas pessoas distorceram o real significado da obra de Springsteen, mas essa é, infelizmente, uma das consequências de se ser artista. Todos os temas abordados pelo músico, reverberam em Javed.

 

O segundo motivo não é intencional, e é o maior problema do filme; quando não usa da música para potencializar as emoções e tonalizar a justaposição das imagens que vemos, o filme usa como influência a literatura (o livro no qual o roteiro foi baseado), e a literatura não conversa com o cinema da mesma forma: ela é didática, descritiva e muitas vezes unidimensional, pois personagens numa trama têm funções, porém, enquanto no cinema você consegue ver a forma como eles agem, falam, olham uns para os outros (e a partir desse recurso se cria uma tridimensionalidade), na literatura depende de descrição, esse texto é o mesmo para todos. Assim, personagens entram e saem de cena com a sensação de que eles não são reais, eles existem apenas para o propósito de determinadas cenas; muitas vezes, o protagonista verbaliza o que já era óbvio através das ações, tirando espaço de diversos diálogos que poderiam enriquecer os personagens que cruzam pela vida de Javed. É um problema muito comum em cine-biografias, principalmente as que adaptam material previamente escrito, mas do qual o filme não consegue se separar.

A diretora Gurinder Chadha, de filmes leves e divertidos, que contam histórias Indianas dentro da Inglaterra, consegue expor um pouco de sua voz em sequências fechadas dentro do filme. É de se imaginar que, tratando-se de um filme de estúdio, ela não teve a mesma liberdade para desenvolver a estética pela qual é famosa, mas certamente conseguiu trazer representatividade de forma sensível para um filme de circuito comercial, e isso é um mérito bem grande. No final do dia, infelizmente, entre as vozes presentes no filme, cada uma em sua respectiva “arte”, é a de Chadha que depende menos dela para ser autêntica. “A Música da Minha Vida” é uma adorável carta de amor à essas mídias que nos conectam, às reflexões que podemos levar às pessoas mais improváveis; o artista tem que cutucar, inspirar e passar uma mensagem adiante, pois é certo que, justamente nas trevas, a luz precisa brilhar.

Escrito por Nate Buzelli, cineasta e
apresentador de “Um Podcast Que Cai”.