Em julho deste ano, a atriz Scarlett Johansson processou a Disney, alegando ter sofrido um prejuízo financeiro de US$ 20 milhões com o lançamento híbrido de Viúva Negra, que entrou em cartaz nos cinemas ao mesmo tempo em que foi disponibilizado no Premium Access do Disney +, serviço de streaming do estúdio.

A atriz, que recebe uma porcentagem dos lucros nas bilheterias, diz que a Disney quebrou o contrato ao disponibilizar o filme no Disney+, ao invés de um lançamento exclusivo nos cinemas, como o acordo previa.

Não é nenhum segredo que a Disney está lançando filmes como ‘Viúva Negra’ diretamente no Disney Plus para aumentar os assinantes e, assim, impulsionar o preço das ações da empresa – e que está se escondendo atrás do COVID-19 como pretexto para isso”, disse John Berlinski, advogado de Johansson, à revista Variety. “Mas ignorar os contratos dos artistas responsáveis pelo sucesso de seus filmes em prol dessa estratégia míope viola seus direitos e esperamos provar isso no tribunal. Este certamente não será o último caso em que a classe artística de Hollywood enfrenta a Disney e deixa claro que, independentemente do que a empresa possa fingir, tem a obrigação legal de honrar seus contratos.

Já o CEO da Disney, Bob Chapek, defendeu o lançamento de Viúva Negra, declarando que a decisão foi tomada levando em conta o “mercado global e o comportamento do consumidor” e que desde o início da pandemia o estúdio fechou dezenas de acordos com artistas para que todos se sentissem satisfeitos, “independentemente do modelo de negócios“.

É difícil dizer o que vai acontecer pela frente. Certamente, os estúdios vão ter mais cuidado quando fecharem contratos para projetos que tenham lançamento simultâneo nos cinemas e nos streamings, mas também existe o fato de que esse tipo de lançamento pode passar por alterações no futuro. A Warner Bros, primeiro estúdio que teve a ideia de lançar seus filmes de forma híbrida, fechou contrato com a rede americana de cinemas AMC para criar um espaço de 45 dias entre o lançamento nas telonas e no streaming a partir de 2022.

Então, é difícil calcular o tamanho do impacto que o caso de Scarlett Johansson terá em meio à classe artística, visto que o futuro dos lançamentos simultâneos é bastante incerto. O caso deve se resolver logo e certamente não vai “abalar o sistema”, como Olivia de Havilland fez há quase 80 anos, quando decidiu processar a Warner.

Obviamente, elas não foram as únicas. Vamos à lista:

1 – Bette Davis

A hora em que Bette Davis levou a Warner Brothers ao tribunal
Bette Davis durante a década de 1930.

A famosa “Era de Ouro” de Hollywood foi um período entre os anos 1930 e os anos 1950, caracterizada por produções de grande glamour e fantasia, no qual os grandes estúdios dominavam TUDO: desde roteiros de filmes até a vida pessoal dos atores, o que frequentemente resultou em casamentos arranjados (Rock Hudson) e atores mirins sendo obrigados a consumir drogas para dar conta de tanto trabalho (Judy Garland).

Enquanto eram contratados dos estúdios, os artistas ficavam totalmente à mercê deles, sem ao menos ter o direito de escolher os filmes em que trabalhariam. Era o caso de Bette Davis. Depois de alcançar o estrelato com Escravos do Desejo (1934), ela passou a ganhar mais dinheiro e prestígio, mas ao mesmo tempo não suportava os filmes que a Warner obrigava-a a fazer.

Cansada de brigar por bons roteiros com Jack Warner (dono do estúdio), ignorou o contrato que tinha com a Warner e foi trabalhar na Inglaterra em 1936, para outro estúdio que havia oferecido mais liberdade artística à atriz. Os executivos da Warner ficaram furiosos, afinal ela deveria honrar o contrato e não poderia trabalhar para mais ninguém além deles.

Bette processou a Warner por obrigá-la a trabalhar em filmes que não queria participar, acusou o estúdio de escravidão e exigiu ser liberada do contrato. Ela perdeu a causa, mas pelo menos Jack Warner se comprometeu a arrumar bons papeis para ela e na década seguinte Bette seria apelidada de “A Quarta Irmã Warner”.

2 – Olivia de Havilland

A lendária Olivia de Havilland ~ Memórias Cinematográficas
Olivia de Havilland em “…E o Vento Levou“. Fonte: Gazeta do Povo.

Assim como a amiga Bette Davis, Olivia de Havilland também estava farta da Warner Bros. Cansada dos papeis de moça ingênua que a Warner obrigava-a a interpretar, Olivia decidiu que não iria mais aceitar estes trabalhos. Como consequência, foi suspensa pelo estúdio por seis meses.

De acordo com a lei trabalhista da Califórnia, um “contrato pessoal de serviços exclusivos” não poderia ter duração superior a 7 anos. Assim, diante da letra da lei, os advogados dos estúdios adotavam uma interpretação favorável aos seus clientes, suspendendo a contagem de sete anos enquanto os artistas não estavam trabalhando em suas produções (o contrato era suspenso até mesmo durante os finais de semana e feriados).

Então, na prática, um contrato durava muito mais do que sete anos de fato, abrangendo praticamente toda a carreira de um jovem artista em Hollywood. Por medo de represálias, quase ninguém ousava enfrentar o posicionamento dos estúdios, que tinham poder em absolutamente tudo.

Contratada da Warner desde maio de 1936 e ciente do fracasso de Bette Davis nos tribunais, Olivia esperou pacientemente até maio de 1943 para dizer ao estúdio que não trabalharia mais com eles pois seu contrato já havia se encerrado. A Warner, claro, não aceitou porque na contagem adotada por eles os sete anos do contrato ainda não haviam acabado.

Em agosto de 1943 e contando com o apoio do sindicato de atores em Hollywood, Olivia processou o estúdio e ficou sem trabalhar enquanto a briga rolou nos tribunais. A sentença só saiu em dezembro de 1944, dando ganho de causa para a atriz. A decisão do juiz do caso determinou que a contagem do prazo de sete anos deveria ser feita em anos-calendário. Portanto, o contrato da Warner com Olivia durou até maio de 1943 e o estúdio não poderia mais obrigá-la a trabalhar para eles depois disso.

A decisão abriu um precedente e os outros estúdios também tiveram que mudar a contagem da duração dos contratos, o que beneficiou vários artistas, que assim como Olivia, também se sentiam aprisionados aos seus estúdios.

Jack Warner, chefão do estúdio que fundou com seus irmãos, ficou uma fera e disse que Olivia de Havilland não trabalharia para eles nunca mais. Warner foi mais além e tentou convencer os chefões de outros estúdios a não contratar a atriz, mas ela conseguiu trabalho na Paramount mesmo assim.

Livre da Warner, ela pode escolher projetos melhores e sua carreira floresceu artisticamente. Até 1950 ela ganharia 2 Oscars de melhor atriz pelos filmes Só Resta Uma Lágrima (1946) e A Herdeira (1949), ambos lançados pela Paramount.

A decisão do juiz posteriormente virou a “Lei de Havilland” e foi um verdadeiro golpe no imenso poder que os estúdios de Hollywood tinham naquela época. Até hoje artistas são beneficiados por ela, como foi o caso de Jared Leto e Rita Ora, que recorreram à lei para se livrarem de suas respectivas gravadoras.

Aos 101 anos, em 2018, Olivia atacou novamente e processou o canal FX porque não gostou de como foi retratada na minissérie Feud, de Ryan Murphy. Em uma das cenas, ela aparece xingando a irmã e também atriz Joan Fontaine (Rebecca, 1940), chamando-a de “bitch” (vadia). Olivia ficou ofendida pela cena e disse que jamais usou xingamentos para se referir à irmã. Desta vez, ela não ganhou o processo.

3 – Raquel Welch

Pin by Wilf on Raquel | Raquel welch, Rachel welch, Raquel
Raquel Welch, em 1984. Fonte: Pinterest.

Raquel Welch processou a MGM no começo dos anos 1980 por quebra de contrato, depois do estúdio demiti-la do longa “Esquecendo o Passado” (1982) e substituí-la por uma atriz 15 anos mais jovem. Ao tribunal, a atriz alegou que o estúdio a escalou para o projeto apenas porque pretendiam usar a sua reputação para conseguir financiamento para o filme. Raquel pediu US$ 24 milhões em indenização. As partes entraram em acordo e a atriz recebeu US$ 10 milhões, um valor superior ao que Esquecendo o Passado fez nas bilheterias.

4 – Sylvester Stallone

Frank Stallone Wants You to See the New Frank Stallone Documentary
Sylvester e seu irmão Frank. Fonte: Philadelphia Magazine.

Em 1997, Sylvester fez uma cameo no filme The Good Life, protagonizado pelo irmão dele, Frank Stallone. Porém, o filme foi vendido como se o astro fosse o personagem principal. Sylvester achou que a decisão da produtora DEM Films em vender o filme dessa maneira foi um insulto ao seu irmão, além de ser propaganda enganosa e pediu US$ 20 milhões de indenização. A DEM Films também processou o ator, pedindo US$ 50 milhões como reparação de danos. Os dois lados entraram em acordo, mas ninguém sabe exatamente o que aconteceu além disso. O fato é que, por conta do processo, The Good Life nunca foi lançado.

5 – Crispin Glover

Back to the Future' Cast: Where Are They Now?
Crispin Glover em ‘De Volta Para o Futuro’ (1985) e atualmente. Fonte: UsMagazine

Crispin Glover foi um dos personagens principais de De Volta Para o Futuro (1985), mas não foi chamado de volta para a sequência. Ele acabou processando a Universal por um motivo inusitado: O ator alegou que os produtores fizeram um molde de gesso do seu rosto durante as filmagens do primeiro filme. Este molde foi usado por um ator diferente no segundo longa, fazendo parecer que Crispin estava no filme. A Universal fez um acordo com o ator e ele recebeu US$ 760 mil em indenização.

6 – Taylor Hickson

Atriz Taylor Hickson processa produtores de Ghostland após ter o rosto  desfigurado durante as filmagens - AdoroCinema
Taylor Hickson. Na direita, a atriz aparece com o rosto machucado por conta das filmagens de ‘Ghostland’.

Taylor Hickson trabalhou no filme ‘Ghostland‘ em 2016, quando tinha 18 anos. Numa cena emocionalmente intensa, sua personagem batia a cabeça várias vezes contra uma janela de vidro. Durante as filmagens, o diretor repetidamente encorajava a atriz a bater a cabeça cada vez com mais força. Ela perguntou se era seguro, o diretor respondeu que sim.

Infelizmente não era seguro. Taylor quebrou o vidro com a cabeça e caiu logo em seguida. Foi levada às pressas para o hospital com um rasgão no rosto, que precisou de 70 pontos para ser fechado. A atriz processou a Incident Productions, responsável pela produção, citando danos físicos e emocionais e o prejuízo que a cicatriz no rosto trará à sua carreira.

7 – Faizon Love

Faizon Love The "Couples Retreat" Interview - Los Angeles Sentinel | Los  Angeles Sentinel | Black News
Faizon Love no filme ‘Encontro de Casais’ (2009).

Faizon Love é um ator e comediante que foi um dos protagonistas do longa ‘Encontro de Casais‘ de 2009. O filme segue quatro casais em um retiro de terapia de casais, estrelando nomes como Kristin Bell, Jason Bateman e Vince Vaughn. Love e sua esposa no filme, Kali Hawk, foram os dois únicos protagonistas negros. Eles também foram visivelmente o único casal que ficou de fora do pôster do filme. A principal versão internacional do pôster incluía apenas os três casais brancos.

Quando a mídia chamou a atenção da Universal Studios para o pôster em questão, Love disse que o presidente da Universal e o produtor do filme se desculparam com ele e disseram que o pôster seria descartado. Em julho de 2020, Love descobriu que o pôster ainda estava em circulação e entrou com um processo de discriminação racial contra o estúdio.