Nas recentes eleições americanas, um escândalo veio a tona. Os candidatos, seja para governador, presidente e afins, estavam envolvidos em um processo de compra de dados pessoais de cada eleitor americano. Como funcionava, a empresa conhecida como Cambrige Analytics, é uma empresa especializada em dados pessoais. Ela utilizava de recursos como permissões de aplicativos para ter acesso a alguns dados pessoais do cidadão e traçava uma personalidade para cada um dos eleitores americanos.

Diante disto, os candidatos “compravam” desta empresa o perfil dos candidatos, sabendo o que mais atrai e retrai em cada um deles. Após isso, eles realizavam a campanha daquele candidato em específico diante destas informações, seja com notícias positivas sobre o candidato, ou com notícias ruins sobre o outro.
O documentário Privacidade Hackeada parte desta premissa para, assim, explorar os fatos levantados e debatidos sobre o caso.

Quem já viu um anúncio que te convenceu que seu microfone está ouvindo suas conversas?”, David Carroll pergunta a seus alunos no começo de Privacidade Hackeada, o novo documentário da Netflix sobre privacidade de dados e desinformação na internet. Carroll ri nervoso quando quase todas as mãos da classe se levantam.

A resposta é perturbadora, mas não uma surpresa – uma boa introdução para uma história sobre a Cambridge Analytica, a empresa agora infame que forneceu dados de segmentação de anúncios para a campanha de Trump na eleição de 2016. A empresa, como sabemos agora, peneirou os dados de questionários do Facebook para construir milhões de perfis psicográficos, depois os usou para hiperdirecionar anúncios para os eleitores com campanhas publicitárias personalizadas. Como o homem que fez a denúncia, Christopher Wylie, diz de maneira sucinta mais tarde no filme, a Cambridge Analytica não é uma empresa de ciência de dados, mas uma “máquina de propaganda”.

Mas mesmo que a narrativa de Privacidade Hackeada sobre a guerra de privacidade e informação possa abrir os olhos de muita gente, o documentário não consegue mostrar o grande panorama das coisas. O “grande hack” não foi o uso mal-intencionado de dados pela Cambridge ou o fracasso do Facebook em proteger esses dados. O hack é todo o modelo de negócio do Vale do Silício, que incentiva o uso de dados pessoais para manipular o comportamento humano em grande escala.

Com longos 113 minutos de duração, o documentário se perde em não conseguir tornar um tema tão complexo e com inúmeras minúcias em algo mais simples de ser compreendido. Quem não acompanhou o básico sobre o que aconteceu pode ficar sem entender alguns detalhes. Por outro lado, há um uso criativo e lúdico de efeitos especiais para evidenciar o como tudo o que nós fazemos pode ser resumido em dados que são compartilhados o tempo todo (o que evidencia os crimes cometidos pela CA).

Há também uma tentativa de aprofundar o tema, mostrando como tudo o que foi retratado ao longo do documentário está relacionado com outros eventos políticos, como a eleição presidencial no Brasil, em 2018, e o genocídio rohingya em Mianmar, em 2016. Com tudo isso, o mais irônico é que “Privacidade Hackeada” seja um documentário original da Netflix, uma empresa que constrói seu catálogo a partir dos dados sobre os hábitos de consumo de seus usuários.