Numa época em que Hollywood quase nunca lança obras originais e nós temos as salas de cinema inundadas com adaptações de livros, quadrinhos e jogos, cinebiografias, remakes e continuações, chega a ser um alívio ver que algumas destas adaptações, ao menos, saem de histórias que não são grandes franquias em si, nas mídias originais, como quadrinhos de super-heróis. Rainhas do Crime é um destes filmes de quadrinhos que não é de super-heróis, de capa e cueca em cima da calça. É baseado na HQ “A Cozinha – Rainhas do Crime”, do selo Vertigo da DC Comics, criada por Ollie Masters e Ming Doyle.

A história nos apresentam Kathy (Melissa McCarty), Ruby (Tiffany Haddish) e Claire (Elisabeth Moss), três mulheres, esposas de líderes da máfia irlandesa de Hell’s Kitchen (Cozinha do Inferno, nome em português do bairro novaiorquino muito conhecido dos fãs do Demolidor, da concorrente Marvel), que são presos pelo FBI ao assaltar uma típica “deli” (típico comércio de Manhattan, como se fosse a padaria daqui) e condenados a três anos de prisão. Vendo-se sem saída, num mundo ainda mais machista do que nós vivemos hoje, em que mulheres eram donas de casa sem estudo, sem chance de conseguir emprego, as “donas de casa”, a princípio aceitam viver de uma “pensão” paga pela máfia, mas que não pagava nem o seu aluguel e se sentem obrigadas a tomar uma atitude e se tomam o lugar da mesma máfia no bairro, mas com muito mais sucesso, tornando-se as “Rainhas do Crime”.

Um típico filme de máfia, com um tom moderno de empoderamento feminino, que pode ser tomado como bom exemplo a ser seguido por quem realmente quer aprender como não tratar uma mulher nos dias de hoje. Kathy é a mulher que foi proibida de estudar e trabalhar pelo marido, que se sente humilhado por ela conseguir fazer seu trabalho melhor do que ele, Ruby, além de mulher, é negra e sofre preconceito da família do marido (que comanda a máfia) e Claire é a mulher violentada fisicamente por um marido que pensa que a possui. Ingredientes perfeitos para uma história de volta por cima e o conflito é extremamente concentrado na superação das três, mesmo que o subplot do controle de influência seja consistente o suficiente para levar a história à frente.

Tecnicamente, o filme convence: a fotografia (da competentíssima Maryse Alberti, de Beleza Oculta e Creed – Nascido Para Lutar) é linda, num tom vintage que, apesar de não apresentar grãos (recurso clichê de quando queremos que o filme pareça vintage) tem um tom amarelado, que ressalta a tonalidade quente e reforça a trama, nos dando a impressão de que assistimos um filme realmente feito na década de 1970. Junto com a fotografia de Maryse, temos a direção de arte de Anu Schwartz e Ernesto Solo, com a ajuda dos figurinos de Sarah Edwards, que, de tão detalhista, nos faz olhar para cada canto da tela em busca de referências à época, além de caracterizar as personagens com perfeição, desde o tom mais doméstico de Kathy, até a evolução de Ruby e, especialmente, a retomada de autoestima de Claire durante a trama, deixando clara a caminhada do roteiro. A montagem de Christopher Tellefsen deixa um pouco a desejar, por ser um pouco burocrática, mas é compreensível, quando sentimos o toma mais vintage do filme, o que o faz escapar dos novos clichês de filmes de crime, criados por Guy Ritchie e contemporâneos precursores da montagem de videoclipe, mas decepciona.

Por fim, a direção de Andrea Berloff (de uma lista imensa de filmes pequenos) é primorosa, especialmente no que tange a ação das personagens e a paixão que elas passam em tela. Acompanhando a montagem, a decupagem parece um pouco tradicionalista, mas a direção dada às atrizes compensa demais e o filme conquista. A estreia, hoje, merece a sua presença e torçamos para que o filme tenha um bom fim-de-semana de estreia, para que tenhamos mais cinema quej foge da capa e cueca por cima da calça e traga temas atuais, como o empoderamento feminino, sem panfletagem e com inteligência de roteiro e direção.