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Show do Bilhão – A destruição do cinema

Sala de cinema

 

“Follow the money” (siga o dinheiro). Este é um dos maiores e mais acertados clichês ao analisar o funcionamento de qualquer estrutura no mundo atual. Quando se trata de arte, especialmente a mainstream (aquilo que atinge a maioria do público), infelizmente, não é diferente.

Do artesão de rua até a indústria que fabrica action figures (ou “hominhos”, como diz a galera da minha geração), tudo é devorado pela lógica de mercado – desde produtos até ideias – nada escapa da “mão invisível” onde números e cifras importam mais do que tudo. Não é incomum descobrir uma fórmula de sucesso e explorá-la até a exaustão.

Cada época tem seu gênero dominante – já foram dramas de época nos anos 40 e 50, westerns nos anos 60 e 70, grandes aventuras e ficção científica nos anos 80, filmes de ação nos anos 80 e 90, distopias adolescentes nos anos 2000 (que pessoalmente aprecio bastante). Agora, entramos na mais recente e voraz tendência da história da indústria: os filmes de super-heróis.

E os meus filmes de boneco?

Mas, posso gostar dos meus filmes de super-heróis?
Certamente! Você pode gostar dos filmes de super-heróis, mas compreender os efeitos dessa tendência não faz mal. Eu mesmo fiquei empolgado com a batalha final de Vingadores: Ultimato (2019). No entanto, do pior ao melhor filme do gênero, nada justifica a quase extinção de outros tipos de filmes nas salas de cinema.

A fixação pelo bilhão

Para se ter uma ideia, 9 das 10 maiores bilheterias de todos os tempos foram feitas nos últimos 15 anos. Entre elas, 4 são filmes do MCU (Universo Cinematográfico Marvel). O sucesso dessas obras deve-se ao condicionamento do público para consumir esse tipo de conteúdo, já que geralmente apenas uma ou duas salas de cinema exibem títulos diferentes dos filmes de super-heróis, contanto que um deles esteja em cartaz.

O capitalismo demanda lucros cada vez maiores. Nesse cenário, atingir um bilhão nas bilheterias tornou-se o objetivo supremo dos grandes estúdios e a métrica de sucesso para filmes. Obras que não demonstrem esse potencial raramente são consideradas.

Mas e as experiências?

A situação é como comer doces, frituras e chocolate – prazeroso, mas o corpo não sobrevive apenas disso por muito tempo e com qualidade. Da mesma forma, a indústria cinematográfica, ao buscar incessantemente a próxima grande bilheteria, acaba por sufocar outros tipos de narrativas que enriquecem e diversificam o mercado e as perspectivas dos espectadores.

Já foi diferente?

Na década de 1990, coexistia um fenômeno interessante: blockbusters caros conviviam pacificamente com obras de menor orçamento que também geravam lucro, mesmo sem alcançar o status de O Rei Leão (1994), Titanic (1997) ou Matrix (1999). Compreende?

O gosto do público não é um dado natural, mas sim construído e influenciado pela indústria. O “Show do Bilhão” estabeleceu-se na mente dos executivos, transformando as salas de cinema numa rede de fast food cinematográfico, empobrecendo nossa experiência como espectadores.

Além dos efeitos negativos sobre os profissionais da indústria, especialmente os especialistas em CGI, essa abordagem empobrece a sociedade, pois a arte é essencial para a reflexão sobre nós mesmos e o mundo ao nosso redor. A arte molda e reflete o mundo real. É hora de estar atento a isso.

 

 

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