Ao longo da última semana o mundo (na verdade uma parte dele) se comoveu com a história de um grupo de bilionários que se aventurou num submersível, oferecido por uma empresa de “turismo subaquático”, com o objetivo de visitar os destroços do icônico navio naufragado Titanic.

Como todos sabem, a expedição terminou de forma trágica com a provável implosão do veículo e a morte violenta e instantânea de todos a bordo. A parada foi sinistra, digna dos mais violentos filmes de terror.

Mas o que é mais impressionante nessa história?

O mais absurdo nessa história é o fato de que todos os viajantes tinham completa noção dos riscos envolvidos numa viagem como aquela, tendo inclusive assinado um termo que deixava claro o quão arriscada era aquela aventura.

Além dos perigos envolvidos em descer a uma profundidade de 4 mil metros, em águas geladas e numa região isolada no meio do Atlântico Norte, ainda havia o fato de que o submersível parecia mais um trabalho de feira de ciências de uma escola de ensino médio, do que um veículo minimamente seguro.

Entre as falhas no projeto do “submarino” estavam: controles precários (um joystick de videogame era usado para controlar o Titan), falta de um sistema eficiente de comunicação com a superfície (uma vez que nem mesmo GPS funciona debaixo d’água) e, por último, a ridícula ideia de projetar um veículo que só poderia ser aberto por fora.

Titan

O ridículo

Ricos e super ricos têm uma obsessão bastante clara: o fetiche pela exclusividade, pela diferenciação, por fazer coisas que a esmagadora maioria da população jamais poderia fazer, principalmente por causa da barreira financeira. Resumindo: gastar milhões com porcaria.

Os ricos são capazes de se expor às coisas mais ridículas e absurdas; fazem harmonização facial que deixa todos eles com cara de bonecos de cera de um museu bizarro, realizam procedimentos dentários caríssimos que deixam seus dentes parecendo uma cartela de mentex, caçam animais silvestres e em extinção por pura diversão, compram mansões que têm mais quartos do que o infeliz é capaz de visitar numa semana. Enfim.

Entre as extravagâncias ridículas e “exclusivas” estão as viagens ao espaço, ou a regiões levemente acima da atmosfera e, é  claro, as viagens submarinas. Visitar uma carcaça tomada por corais e oxidação, em baixa luminosidade e condições perigosas e hostis já seria brega, cafona, por si só, mas o custo de 250 mil dólares (mais de 1 milhão de reais) torna tudo muito pior.

Round 6 da vida real

Na série Round 6 (2021), sucesso absoluto da Netflix, um game show macabro, que mata a sangue frio os competidores derrotados, é realizado todos os anos com o patrocínio de bilionários de todas as partes do mundo.

Depois de várias e várias edições, a matança de pobres e falidos deixa de ser tão divertida para Oh Il Nam, um dos ricaços que mantém o torneio. Oh Il, acometido por uma doença grave, decide então deixar de ser um mero observador do jogo sádico e cruel, para se tornar um participante.

O magnata participa de todas as terríveis provas (provavelmente com alguma ajuda da organização) e, algum tempo depois, revela a verdade ao protagonista, que naturalmente fica chocado.

Oh Il Nam é um bilionário entediado, que já comprou tudo o que o dinheiro poderia oferecer, incluindo a vida e a morte de pessoas. O que mais poderia divertir um sujeito desses? Que tipo de ação seria ação suficiente para um fulano como ele?

Se você fizer essa pergunta a si mesmo, vai entender o que levou um grupo de super ricos a embarcar numa aventura altamente imprudente e sem sentido algum, uma vez que poderiam ter tido exatamente a mesma experiência visual pela tela de um computador, ou mesmo assistindo ao clássico filme de James Cameron.

Oh Il-Nam em “Round 6” (foto: divulgação Netflix)

Distorcendo a realidade

A física nos mostra que objetos muito grandes, muito massivos, como o Sol, por exemplo, distorcem a realidade em torno de si, fazendo com que o tempo, a gravidade e o espaço se comportem de forma estranha, aberrante.

Aqui, nessa pequena bola de pedra onde nós vivemos, pessoas que reúnem nas mãos muito mais dinheiro, riqueza (que não são a mesma coisa), poder e influência também distorcem a realidade em volta de si. Às regras em torno dessas pessoas funcionam de maneiras aberrantes, irritantes e injustas.

Um cara muito rico pode roubar um terreno público para ampliar sua mansão; um cara muito rico pode criar uma rede de tráfico de pessoas; um cara muito rico pode destruir o meio ambiente; um cara muito rico pode viajar ao fundo do mar, se perder e fazer com que os governos de três países enviem equipes de resgate, enquanto um barco com mais de 700 refugiados pobres e negros e árabes passa dias à deriva até naufragar e levar centenas ao desaparecimento e à morte, tá ligado? Apenas pouco mais de 100 pessoa foram resgatadas com vida e entre as 750 à bordo, pelo menos 100 delas eram crianças.

Esse caso também não merecia comoção mundial e o emprego de recursos de pelo menos um país que fosse? Sim, mas isso não aconteceu e resultou em uma das maiores tragédias da história do Mediterrâneo Central.

Navio Adriana

O mais trágico

O mais trágico é que no caso do navio de pesca Adriana, os viajantes não estavam em busca de emoção para sua vida tediosa de bilionários, estavam lutando por uma vida melhor, longe da guerra e da fome.

Eles não eram os que assistiam ao game show macabro que é a vida de uma pessoa pobre num país subdesenvolvido, eles eram os jogadores, aqueles que morrem quando perdem uma prova.

A tragédia do Titan ter acontecido simultaneamente à do Adriana nos mostra que no mundo muitos estão dispostos a assistir Round 6 e torcer para os VIP’s.

O grupo a bordo era composto por:

Stockton Rush, dono da OceanGate e descendente de Richard Stockton e Benjamin Rush, ambos personalidades que assinaram a declaração de independência dos Estados Unidos (dois dos chamados “Founding Fathers” “Pais Fundadores”). Ou seja, linhagem abastada desde pelo menos o século XVIII.

Hamish Harding, bilionário britânico dos ramos da aviação e da química. Harding foi um dos turistas espaciais na viagem da Blue Origin ao espaço (cada assento sai pelo valor de 8 milhões de dólares atualmente).

Paul-Henry Nargeolet, ex-comandante da Marinha Francesa e especialista em Titanic.

Shahzada e Suleman Dawood, pai e filho eram membros de uma das famílias mais ricas do Paquistão. Os negócios da família giram em torno das áreas de fertilizantes e energia.

Ah, os nomes dos 750 perdidos no meio do Mar Mediterrâneo? Esses nós, infelizmente, não temos. Isso é bastante triste.

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