O difícil caminho de ‘Fênix Negra’ e o provável reboot

A Disney vai reaproveitar o elenco do filme? Pouco provável

Não é segredo para ninguém que a pós-produção de Fênix Negra, novo filme da franquia X-Men, aparentemente foi mais conturbada do que o tolerável. As filmagens oficiais começaram em junho de 2017 e foram até outubro do mesmo ano. O lançamento, por sua vez, estava inicialmente planejado para março de 2018.

Tudo ok até aí, até que em dezembro de 2017 a Fox adiou em um ano o lançamento do longa, dessa vez para fevereiro de 2019. Isso é extremamente incomum e, quando questionado, o diretor Simon Kinberg justificou a decisão, dizendo que precisava desse tempo para deixar o filme como queria. Nesse meio tempo foram feitas extensas refilmagens que, segundo fontes, duraram cerca de três meses, algo que também é bastante incomum. De fevereiro de 2019, o filme foi definitivamente marcado para 7 de junho de 2019.

Diante desse cenário, é natural que a desconfiança dos fãs se torne maior do que qualquer hype que essa produção possa ter causado desde o seu anúncio. Porém, muita gente decidiu deixar essa nuvem negra de lado e esperar pelos trailers para ver se podiam ter alguma esperança, mas, como todos nós sabemos, não adiantou muito, visto que as principais coisas que a maioria dos fãs detesta estão lá, como a Mística com maquiagem de cosplay e o fato do filme se parecer com uma refilmagem de X-Men – O Confronto Final, de 2006, considerado o pior da franquia pelo fandom.

Até agora não vi ninguém realmente empolgado com o filme nessas minhas andanças pela internet, mas não me surpreenderia se achasse alguém que está, afinal de contas sempre há o diferentão/a diferentona. Agora, o que me deixou realmente surpresa foi ler alguns comentários de pessoas que realmente acreditam na possibilidade da Disney permanecer com esta versão atual dos personagens, mesmo estando muito óbvio que não irá, a menos, é claro, que Fênix Negra seja um sucesso estrondoso.

Considerando o cenário atual, acho improvável Fênix Negra conseguir o sucesso gigante que precisa conseguir para continuar sendo relevante para a Disney e evitar um reboot total. Por mais que o filme surpreenda e seja bom, existem várias coisas que trabalham contra ele:

Bilheteria fraca de X-Men: Apocalipse – Para medir o interesse do público numa sequência, o estúdio obviamente se baseia na bilheteria. X-Men: Dias de Um Futuro Esquecido, em 2014, foi um sucesso incontestável, arrecadando US$ 747 milhões, mas a sua sequência – X-Men: Apocalipse – arrecadou um valor abaixo do esperado: apenas US$ 543 milhões. Uma queda de US$ 200 milhões de um filme para o outro. O público claramente deu o seu recado. Será que este mesmo público pagaria para ver uma continuação de um filme que eles não gostaram? Ainda mais quando esta continuação segue a mesma estética e temática repetida dos filmes anteriores?

Temática, tom. Tudo repetido – Se Fênix Negra apresentasse algo de novo, como a Paramount fez com Transformers e Bumblebee, haveria uma luz de esperança para esta encarnação dos X-Men, mas pelo visto, veremos Magneto se questionar pela milionésima vez se a humanidade vale a pena ser salva ou não. O personagem está sempre transitando entre estar, ou não, ao lado dos humanos, sem nunca assumir de vez uma postura definitiva. Nos primeiros filmes isso era aceitável, mas já se passaram quase 20 anos desde o primeiro longa. Não dá mais para engolir este eterno dilema.

Em 2006, o lançamento de X-Men: O Confronto Final trouxe desgaste para a franquia. A Fox, então, decidiu optar por um reboot e assim surgiu X-Men: Primeira Classe, que foi um sopro de vida dentro da franquia, principalmente pelo fato do seu diretor, Matt Vaughn, trazer uma identidade própria ao projeto, saindo do realismo e do tom sombrio característicos da trilogia original. Não que realismo e tom sombrio sejam ruins, mas depois de três filmes nessa linha, é preciso trazer novos ares, revitalizar o interesse do público nesses filmes e foi isso que Vaughn fez para os X-Men. No entanto, o desgaste da franquia era tanto, que Primeira Classe praticamente passou despercebido nos cinemas, algo parecido com o que aconteceu a Bumblebee no ano passado. Apesar disso, o filme causou uma boa impressão, trazendo um futuro promissor para a franquia.

Em X-Men: Primeira Classe, o dilema sobre a humanidade é abordado novamente entre os amigos Max e Xavier, mas ao final do longa, Max – agora Magneto – finalmente toma uma decisão. Com isso a Fox não precisaria mais retomar esse enredo, afinal tudo estava pronto para os personagens seguirem em frente, com novas tramas. Porém, o estúdio foi no caminho inverso, trazendo Bryan Singer de volta e, com isso, todo o espírito dos antigos filmes.

X-Men: Dias de Um Futuro Esquecido foi um sucesso comercial, isso é um fato, mas curiosamente, o filme não gerou um grande interesse por Apocalipse, que é o contrário do que normalmente ocorre com filmes que fazem sucesso. Para ter uma ideia, Dias de Um Futuro Esquecido estreou com cerca de US$ 90 milhões em 2014; Apocalipse estreou com apenas US$ 63 mi em 2016. Considerando isto, acredito que um dos principais fatores do sucesso de Dias de Um Futuro Esquecido seja justamente a boa impressão deixada por Primeira Classe. É verdade que o filme em si não é ruim, mas a volta de Bryan Singer ao comando deixou tudo com um ar de “mais do mesmo”, daí a falta de interesse em Apocalipse.

Para piorar, o filme que promete ser um novo reboot da franquia (conforme declaração de Simon Kinberg, quando Fênix Negra foi anunciado em 2016), parece um remake de O Confronto Final, que não só é o filme mais odiado da dos X-Men, como também aposta na mesma estética e seriedade de Bryan Singer. Depois de Apocalipse, é arriscado continuar no mesmo caminho.

Desperdício do elenco jovem – As versões jovens de Ciclope, Jean Gray e Noturno foram as melhores coisas de Apocalipse. O ar juvenil que eles inseriram ao longa trazia algo de novo à franquia, mas, infelizmente, a relevância deles não passa da mera apresentação e logo em seguida se perdem na “singerisse” de sempre. Assim como Primeira Classe, o mau uso desses personagens acaba sendo uma oportunidade jogada no lixo para revitalizar a franquia.

 

Não quero diminuir a importância da contribuição de Singer. Seu trabalho nos primeiros X-Men foi louvável não só pela franquia em si, mas para o “gênero” super-herói em geral, mas chega né. O que no início se apresentava como algo diferente (e era), agora está ultrapassado. Os X-Men precisam de uma nova visão se quiserem um espaço no atual mercado. Tudo bem que Fênix Negra pode surpreender e ser um bom filme com personalidade própria, mas o longa terá de enfrentar a reputação deixada pelos filmes antigos e os trailers não ajudam a mudar essa perspectiva.

Durante a CCXP do ano passado, o Simon Kinberg disse que o roteiro de Fênix Negra foi supervisionado por Kevin Feige, mas independente disso ser verdade ou não, duvido muito que o Feige tenha dado importância ao filme, tendo em vista que ele já declarou publicamente que seu plano é focar nos personagens que já pertencem a Marvel e que possui pensamentos ainda muito vagos sobre os X-Men. 

Ou seja, Feige não tá nem aí para esses filmes, o que já é um indicativo da posição da Disney sobre isso. O estúdio também imprime uma característica própria para os seus produtos, incluindo os filmes da Marvel. Tal característica é bem diferente do realismo que a Fox definiu para os X-Men. Dar continuidade a essa franquia, seria ligar o universo que Singer criou ao universo da Marvel e eu duvido muito que Feige aceite uma coisa dessas. Nem o homem-aranha de Andrew Garfield, que tinha menos bagagem, foi reciclado, então por que diabos a Disney se aproveitaria dessa versão desgastada de X-Men que já dura quase duas décadas? Nem o Wolverine eles tem mais. Para a Disney é muito mais fácil criar algo novo. A equipe criativa da Marvel não precisa se desgastar inventando formas mirabolantes de unir o singerverso ao MCU.

Vamos supor que Fênix Negra drible tudo isso e seja um dos maiores sucessos do ano, nível Deadpool, fazendo a Disney pensar seriamente em manter esta versão. Se isso realmente viesse a acontecer, em quantos anos o primeiro filme dos X-Men dentro do universo da Marvel aconteceria? O Feige já disse que não tem planos por agora para a equipe, e, ele também já possui uma ideia de como os próximos 20 filmes da Marvel serão. Independente da fala dele ser marketing ou não, já ficou subentendido que um filme novo com o elenco de Fênix Negra levaria anos e anos para acontecer, visto que esses 20 filmes futuros giram em torno de personagens cujos os direitos eles já possuem.

Em relação a Deadpool, o cenário é diferente. A franquia possui dois filmes bem sucedidos e o fator “proibido para menores” é o diferencial do personagem. Em time que está ganhando não se mexe e a Disney sabe disso. O mesmo já não pode ser dito de X-Men.

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