Eduardo Spohr é hoje um dos grandes nomes da literatura no Brasil, tendo angariado uma legião de fãs ao longo de mais de uma década como escritor profissional. Seu primeiro livro, “A Batalha do Apocalipse” é um verdadeiro fenômeno da literatura de fantasia no país, tendo sido publicado também no exterior. As narrativas ricas, pluridimensionais e sustentadas por extensa pesquisa tornam o trabalho de Spohr interessante e envolvente. Após o fim da chamada “Tetralogia Angélica”, o autor decidiu se aventurar na ficção histórica. Em entrevista ao Nerd Zoom a gente troca uma ideia marota sobre tudo isso e ainda mais. 

(André Walker | Nerd Zoom) Olá, Eduardo! Muito obrigado pela conversa!

(Eduardo Spohr) Eu é que agradeço!

(André Walker | Nerd Zoom) Você é conhecido por ser um ávido jogador de RPG, em termos práticos, em que isso ajuda no seu processo de escrita?

(Eduardo Spohr) Nos anos 90 nós (eu e meu grupo) jogávamos no Mundo das Trevas, uma ambientação de RPG que incluía vampiros, lobisomens, fantasmas e magos. Depois que assistimos ao filme “Anjos Rebeldes” (1995), ficamos com vontade de jogar com anjos e demônios, mas não existia regras para tal, então nós a criamos. Inventamos muitos personagens e situações. Eu peguei esses fragmentos e os costurei no meu primeiro livro publicado: “A Batalha do Apocalipse”. Portanto, vale lembrar, esse universo nasceu de uma criação coletiva. No Desconstruindo 15 (podcast do meu blog) falo melhor sobre isso. 

(André Walker | Nerd Zoom) Na Tetralogia Angélica, além do trabalho de pesquisa que deu suporte à obra, você tinha o elemento fantástico e a magia em favor da trama, o que não está disponível na trilogia Santo Guerreiro. Como foi trabalhar sem o elemento mágico (pelo menos de forma explícita) depois de quatro livros que possibilitavam o uso desse recurso?

(Eduardo Spohr) Pois é… Eu achei que seria complicado. Depois achei até mais fácil. Penso que as limitações às vezes são boas para ativar a nossa imaginação. Elas acabam nos dando até combustível criativo. 

(André Walker | Nerd Zoom) Estudei história, e me senti muito confortável lendo os dois volumes de Santo Guerreiro, do ponto de vista das descrições de lugares, costumes, alimentos e outros aspectos das várias culturas que compunham o império romano. Como foi o seu processo de pesquisa para essa trilogia?

(Eduardo Spohr) Há três níveis de pesquisa, ao meu ver. O primeiro nível, o mais raso, é pela internet. Os verbetes da Wikipédia nos fornecem uma visão geral da coisa. É um ótimo ponto de partida. De lá, seguimos para a leitura de livros, o que nos dá uma perspectiva mais ampla. Em seguida, se for possível, é interessante tentar visitar o local. Eu não diria que a pesquisa in loco é essencial — escrevi sobre Israel em A Batalha do Apocalipse e nunca estive lá, por exemplo — , mas ajuda bastante.

A pesquisa, no meu entender, traz uma emoção especial ao romance. Os sítios históricos na Normandia (França, palco da Segunda Guerra Mundial) me fizeram compreender a sensação de estar lá, de fato, dentro de um bunker, durante a invasão do Dia D. Em outro momento, os personagens vão para Amsterdã (na Holanda), uma cidade peculiar, onde as pessoas te tratam de um jeito muito especial.

(André Walker | Nerd Zoom) Seus personagens costumam ter construções bastante interessantes e complexas, como funciona o processo de criação dos seus personagens? Em que parte do processo de desenvolvimento da trama eles são criados?

(Eduardo Spohr) Depende de personagem para personagem e de situação para situação. O importante é dar a eles um objetivo, trabalhar suas qualidades, defeitos e falhas, para que eles se tornem mais críveis e humanos — ainda que sejam seres fantásticos, por vezes. 

(André Walker | Nerd Zoom) Você é um profissional da escrita há muitos anos. Como foi para você a adaptação ao fazer essa transição do seu trabalho como jornalista para o trabalho como escritor em tempo integral?

(Eduardo Spohr) Suave. Não larguei uma profissão do nada e ingressei na outra. Eu sempre escrevi, na verdade. Quando percebi que podia ganhar mais como escritor, fiz as contas e deixei o emprego de jornalista.

(André Walker | Nerd Zoom) Você foi uma criança dos anos 80, a época do boom da cultura pop, quais obras da cultura pop da época mais contribuíram na sua formação como artista?

(Eduardo Spohr) No caso da tetralogia (meus primeiros livros publicados), duas em especial são as principais: a série de filmes “Anjos Rebeldes” e os quadrinhos da Vertigo (DC Comics), como Hellblazer, Preacher, Sandman e Livros da Magia. É claro que, além disso, eu tive muitas influências, de várias mídias. Por exemplo, as lutas angélicas foram certamente inspiradas no anime “Cavaleiros de Zodíaco”. Os monstros dimensionais tem alguma coisa de Lovecraft e a questão imortalidade dos personagens sem dúvida veio dos livros da Anne Rice. A miscelânea de entidades e deuses nasceu a partir da leitura dos romances de Neil Gaiman. Mas há muito mais referências, que seriam impossíveis ser citadas todas aqui.

(André Walker | Nerd Zoom) Autores como você, Leonel Caldela, e vários outros, têm desenvolvido obras de qualidade altíssima, que não devem nada às grandes obras do gênero no mundo. Na sua visão, esses talentos sempre estiveram por aí, ou houve um ponto de inflexão nas últimas duas décadas, trazendo tantos grandes nomes à tona?

(Eduardo Spohr) O Brasil sempre teve escritores sensacionais, de todos os gêneros. Basta olhar nossos clássicos ao longo da história. 

(André Walker | Nerd Zoom) O surgimento de outras formas de se consumir obras no audiovisual, vários livros têm sido adaptados, principalmente pelos serviços de streaming. Você já chegou a ter sua obra sondada nesse sentido?

(Eduardo Spohr) Por enquanto não. 

(André Walker | Nerd Zoom) Você surpreendeu os fãs, com um trabalho totalmente diferente daqueles que os projetaram como escritor, explorando um território totalmente novo. Como você faz a escolha pelo tema e a época que pretende abordar em cada um dos seus trabalhos?

(Eduardo Spohr) 

Geralmente eu escrevo sobre a história que está no meu coração, sobre aquela que eu realmente desejo contar. Na minha opinião, é o único jeito de seguir adiante com o projeto. 

(André Walker | Nerd Zoom) Se “A Batalha do Apocalipse” fosse virar uma série (eu, particularmente acredito que funcionaria muito melhor como série) e tivesse orçamento infinito. Quem você gostaria que fosse o diretor ou diretora e quem você gostaria que fizesse a composição da trilha sonora?

(Eduardo Spohr) Deixo essa escolha com os leitores rsrsrsr

(André Walker | Nerd Zoom) Para encerrar, depois do terceiro e último volume de “Santo Guerreiro” e das viagens de divulgação, você pretende tirar um tempo de folga, ou já tem alguma ideia para um próximo projeto?

(Eduardo Spohr) Tenho várias 😉


(André Walker | Nerd Zoom) Mais uma vez, obrigado pela entrevista! Sucesso!

(Eduardo Spohr) Obrigado a você pela oportunidade 🙂

Qual a sua reação?

0
Incrível!
0
Gostei muito!
0
Amei!
0
Fiquei em Dúvida!
0
Simples