Lembro como se fosse hoje do dia em que, aos 15 anos, desiludido com as dificuldades de se ter uma carreira de desenhista (eu sequer havia começado meu curso de História em Quadrinhos) em uma época pré internet de banda larga, estava conversando com a professora de inglês da minha escola e ela me perguntou: “por que você não faz uma faculdade de cinema?”. E foi ali que começou minha jornada pela vida. Pesquisas, filmes, livros. À partir daquele momento, tudo o que eu fiz na minha vida foi em prol de me tornar um cineasta.
Mas pouca gente sabe que o caminho é tortuoso, árduo e, além de nos exigir abnegações, é recheado de decepções e portas fechadas. E é exatamente disto que fala Paris 8, o bom filme francês que roda o Brasil nas salas de circuito alternativo de cinema. Na história, acompanhamos o jovem Etienne (Andranic Manet) durante seu período de estudos na Sorbonne (uma das mais renomadas escolas de cinema do mundo, sediada em Paris), abrindo mão de coisas que ama em nome de seu sonho em servir à sétima arte.
É inegável que o filme é pretensioso. Todo (belamente) fotografado em preto e branco, Paris 8 tenta mostrar a crueza e a falta de sensibilidade do mundo acadêmico e a insipidez da vida em que nossos sonhos vão desvanecendo. Evidentemente, as personagens iniciam o curso debatendo rica e empolgadamente suas visões de cinema e, com o decorrer da película, vão trocando o assunto do cinema pela vida, que começa a pressioná-los com a rigidez da realidade.
Os belos diálogos disfarçam um roteiro bem monótono, sem grandes viradas, mas que serve para discutir cinema e, ao mesmo tempo, dar um depoimento triste sobre o que a realidade faz com grandes talentos. Destaque para as falas de Corentin Fila (Mathias), que parece ser a voz do diretor em cena, com suas opiniões e posições sempre pretensiosas e com um final surpreendente. O próprio Etienne é bastante pretensioso, mas seu desfecho é tão blazé que dá uma sensação de desespero.
Há momentos bastante monótonos e isto, em boa parte, é culpa da montagem. Tecnicamente, a direção de arte cria boas texturas para a fotografia e preenche a tela com livros, criando citações a grandes publicações acadêmicas sobre cinema. Os recursos de roteiro que fazem a trama seguir sutilmente em frente são bons e nos ajudam a criar os perfis das personagens envolvidas.


