Por Rebecca Rubin, da Variety Magazine

Quando a Universal lançou o trailer de “Cats“, as redes sociais, para dizer o mínimo, enlouqueceram.

As sequências iniciais da adaptação para as telonas do diretor Tom Hooper deram um vislumbre da magia computadorizada, um fenômeno conhecido na cultura popular como “digital fur technology,” (“tecnologia digital de peles”, em tradução literal), usada para transformar os atores em felinos. O resultado, um amálgama perturbador de CGI, abalou o Twitter. Já os espectadores que compareceram aos cinemas neste final de semana parecem que nunca se recuperaram da visão inquietante, para dizer o mínimo, desses gatos humanoides.

Quando “Cats” finalmente chegou aos cinemas, a Universal previu que seu elenco estelar – um grupo que inclui Taylor Swift, Judi Dench, Jennifer Hudson, Jason Derulo e James Corden – misturado com a publicidade ao redor do projeto, poderiam resultar em pelo menos US$ 15 milhões em vendas de ingressos. Em vez disso, “Cats” ficou aquém das expectativas e alcançou US$ 6,5 milhões nas bilheterias americanas. Foi uma exibição sombria para qualquer grande lançamento em estúdio, mas especialmente para um que custou US$ 100 milhões, isso sem contabilizar as taxas globais de marketing e distribuição.

A repercussão negativa (das mídias sociais) foi pesada e isso prejudicou“, disse Jeff Bock, analista de mídia da Exhibitor Relations.

Qualquer curiosidade sobre “Cats” surgiu depois que os críticos detonaram o filme. As críticas foram brutais, separando o enredo (ou a falta dele) e o desonesto VFX (efeitos visuais). Em vez de se apoiar no espetáculo cafona da produção teatral de Andrew Lloyd Webber, os críticos questionaram a abordagem incomumente séria de Hooper. Como Kevin Fallon, do The Daily Beast, afirmou: “A coisa não é divertida e nem engraçada. É inexplicavelmente sem alegria e melancólico”. Assim, como o musical, “Cats” é centrado numa tribo de gatos chamada Jellicles, na qual um dos membros será selecionado para receber uma nova vida.

No papel, trazer “Cats” para a tela grande parece ser uma escolha óbvia. O musical é bizarro, certamente, mas se tornou um fenômeno global, ficou anos em cartaz na Broadway e em outros países por anos, com grande sucesso financeiro. Os espectadores, sem empolgação para descobrir o que os Jellicles podem fazer, não parecem ter o mesmo entusiasmo do público que lotou os teatros.

Além disso, a Universal se deu bem com o lançamento de musicais como “Os Miseráveis“, “Mamma Mia” e sua continuação lançada em 2018, e a franquia “A Escolha Perfeita“. O estúdio contratou Hooper novamente, depois que o diretor fez de “Os Miseráveis” um sucesso de bilheteria em 2012, arrecadando US$ 441 milhões em todo o mundo e um punhado de indicações ao Oscar. Mas Hollywood já errou antes quando se trata de repensar os musicais amados da Broadway, principalmente por acreditar que a fanbase destes espetáculos ignoraria a falta de qualidade destes projetos. Relembremos de “Rent – Os Boêmios” (US$ 31 milhões em 2005), “Chorus Line – Em Busca da Fama” (US$ 14 milhões em 1985) e “Rock of Ages” (US$ 59 milhões em 2012).

Star Wars” à parte, os lançamentos hollywoodianos de dezembro não dependem de finais de semana agitados; em vez disso, os estúdios apostam nos dias finais do ano, considerados os mais movimentados nos cinemas americanos. Por esse motivo, analistas otimistas de bilheteria acreditam que há uma chance de que “Cats” possa gerar curiosidade no público a ponto deste pagar para ver por si mesmo o motivo de toda essa confusão. Porém, até agora, todo esse barulho pouco fez para impulsionar as vendas de ingressos de fim de semana, mas “Cats” ainda domina as conversas nas mídias sociais.

Os eternos otimistas apontam para o sucesso inesperado da Fox com “O Rei do Show” de 2017. Esse musical, estrelado por Hugh Jackman como o diretor de circo P.T. Barnum, teve uma recepção fria da crítica. Foi lançado no final de dezembro, arrecadando discretos US$ 8,8 milhões. Mas o público se apaixonou por sua trilha sonora e retornou aos cinemas várias vezes para sessões que encorajavam multidões a acompanhar músicas cativantes como “This Is Me”. “O Rei do Show” se tornou um sucesso, ganhando US$ 174 milhões em vendas de ingressos nos EUA e US$ 435 milhões em todo o mundo. O público não mostrou o mesmo carinho por “Cats“, que recebeu uma nota C+ no site CinemaScore. “O Rei do Show“, em contraste, recebeu uma nota A. Além de “Memory”, cantado no filme pela cantora Jennifer Hudson, o musical é desprovido de hits que fiquem na memória, como aconteceu em “O Rei do Show”. (Embora até esta repórter mal-humorada das bilheterias deva admitir que “Skimbleshanks the Railway Cat” é objetivamente bom).

A Universal concebeu “Cats” para o público feminino jovem, para servir de contraprogramação contra “Star Wars: A Ascenção de Skywalker”. O estúdio chegou a focar grande parte de seu marketing em Swift, que aparece no filme para uma música. Certamente “Frozen 2“, da Disney, contribuiu ainda mais para o fracasso, ao apelar para um subconjunto semelhante. A animação da Disney ganhou mais dinheiro no seu quinto fim de semana de lançamento nos EUA (US$ 12,4 milhões) do que “Cats” no mundo todo (US$ 10,9 milhões) neste fim de semana. Swift fez uma divulgação mínima, talvez sentindo que seus fãs leais não estavam interessados ​​em ir para a “Camada Heaviside”. O público mais velho não fez questão de aparecer: 55% dos espectadores tinham entre 18 e 44 anos. Esse público mais velho é um grupo demográfico que não tem pressa para conferir longas no fim de semana de abertura.

Vamos ver seCatstem nove vidas. Às vezes, precisamos deixar os filmes em exibição por mais tempo para ver qual é o veredicto final”, disse Paul Dergarabedian, analista de mídia da Comscore.

Eu completei o filme às 8 da manhã de ontem, após 36 horas seguidas“, disse Hooper a uma multidão lotada na semana passada no Lincoln Center de Nova York. “Isso realmente é uma estréia.”

Nesse caso, a corrida louca de Hooper até a linha de chegada não valeu a pena.