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Especial de Natal do ‘Porta dos Fundos’ e o Efeito Streisand

A essa altura, vocês, caros leitores, já devem ter se cansado de ler sobre a polêmica envolvendo os humoristas ‘youtubeiros’ do Porta dos Fundos e os cristãos. O centro da discussão foi o especial natalino “A Primeira Tentação de Cristo“, lançado pela Netflix no começo deste mês. O especial de 46 min tinha tudo para ser mais um desses especiais quaisquer lançados durante essa época, se não fosse o fato do Porta brincar com a ideia de Jesus ter um namoradO.

Obviamente, esta decisão criativa chamou a atenção. E, também obviamente, os mais religiosos se sentiram ofendidos. Na sexta passada, dia 20, uma juíza do Rio de Janeiro julgou improcedente uma liminar ajuizada pela Associação Centro Dom Bosco de Fé, que requeria que o especial fosse tirado do ar. A magistrada negou o pedido, pois, segundo a própria: “”não há exposição a seu conteúdo a não ser por opção daqueles que desejam vê-lo“. Ainda cabe recurso contra a decisão. A Associação ainda pede multa por danos morais no valor de R$ 2 milhões.
Não foi a primeira vez que o Porta dos Fundos foi parar no banco dos réus por zoar algo ou alguém. Em 2015, o Botafogo processou os humoristas por terem feito piada com a quantidade de logomarcas de patrocinadores estampada nos uniformes da equipe. Depois de 4 anos de trâmites judiciais, o time perdeu a ação.

O Porta dos Fundos ganhou o Emmy Internacional por “A Santa Ceia“, especial natalino do ano passado (sabe-se-lá como), onde Jesus foi retratado como um bêbado e tinha um caso com Maria Madalena. Essa versão de Jesus nem de perto chegou a fazer o barulho causado pelo especial deste ano. Duvivier até declarou que as críticas possuem cunho homofóbico, o que é verdade, tendo em vista que a retratação anterior não incomodou ninguém, apesar de ser igualmente absurda. Digo igualmente absurda, porque ambas destoam bastante da retratação bíblica. Se ambos retratam Jesus de forma diferente e fazem piada com isso, por que um foi considerado ofensivo pelos cristãos e outro não? A respostas é óbvia.

Mesmo assim, os religiosos tem todo o direito de se sentirem ofendidos, afinal de contas, Jesus representa um conjunto de valores, numa religião onde a homossexualidade geralmente não é aceita como algo natural. Já o pessoal da “justiça social”, por sua vez, que digladiou com a “crentaiada” pela liberdade de zoar figuras religiosas, são os primeiros a se ofenderem com piadas de minorias. Contraditório, não é mesmo?

Esse lado pode argumentar que o direito das minorias não serem zoadas é maior do que a crença religiosa de outros, ao passo que os fiéis acham que piadas de gordo e afins nem chegam perto de uma ofensa à figura divina. A verdade é que são dois lados da mesma moeda, porque o justiceiro de internet, assim como cristão, também acha que seu conjunto de valores foi afrontado. Ambos estão no direito de se sentirem ofendidos, mas nenhum lado tem o direito de censurar o outro, afinal, “estar ofendido” não é a mesma coisa que “estar certo”.

Mas o que tudo isso tem a ver com o Efeito Streisand?

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Esta casa aí acima pertence a cantora e atriz Barbra Streisand, mas você jamais saberia disso se ela não tivesse processado o fotógrafo e o site que publicou esta imagem. O incidente aconteceu no ano de 2003, quando o site pictopia.com publicou uma coletânea de 12 mil imagens da costa da Califórnia. Barbra não gostou, pediu judicialmente a remoção da foto e uma indenização de US$ 50 milhões pelo incômodo.

O caso chamou a atenção da imprensa, gerando curiosidade no público em ver a tal foto que causou todo o “bafafá”, todo mundo queria dar uma olhada. Resultado da briga judicial: não só Barbra Stresand perdeu a ação, como também milhões de internautas acessaram o Google para ver a foto, o que mais tarde foi apelidado por um jornalista de “Efeito Streisand”. Moral da história: Se você não quer que algo seja publicamente exposto, o melhor a se fazer é deixar para lá.

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Barbra Streisand: Deveria ter ficado na dela

Lembra do Crivella censurando HQ da Marvel na bienal do livro por causa de um beijo gay? Em sua sanha de decidir o que é melhor para os outros, a atitude do prefeito do Rio só serviu para gerar curiosidade sobre a HQ. A consequência foi o esgotamento da edição durante aquela bienal. Era melhor ter ficado quieto.

Ainda em abril deste ano, o STF censurou uma matéria da revista Crusoé, na qual citava o ministro Dias Toffoli numa situação curiosa, o que gerou suspeita sobre seu nível de familiaridade com o antigo governo. Seja como for, a censura chamou a atenção de toda a imprensa mainstream e circularam na internet prints contendo toda a reportagem cesurada. Um flagrante abuso de poder que saiu pela culatra.

A mesma situação se repete agora com “A Primeira Tentação de Cristo“. Essa confusão toda com certeza gerou curiosidade e a Netflix está feliz com todo o marketing gratuito feito pelos cristãos ofendidos. Até EU assisti a esse lixo. Sim, porque esse especial é bem ruinzinho. O programa é basicamente um esquete qualquer do grupo estendido por 46 min. Os vídeos do Porta dos Fundos podem até funcionar vez ou outra durante 5 min, mas quando esse vídeo é estendido para quase uma hora não funciona. Fica chato. Pelo menos para mim, né.

O único motivo que valia a indignação era a qualidade do especial. Se os cristãos tivessem espalhado que é sem graça e forçado, teriam tido um melhor resultado em causar desinteresse no público. O barulho feito foi tão grande, que saiu até na imprensa estrangeira. Ou seja, como se não bastasse a quantidade de brasileiros convencidos a assistir pela curiosidade, agora até os gringos também vão querer ver o motivo da confusão.

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