Uma resenha. Depois de um longo tempo. É, eu sei, não tem desculpa. Mas sabe como é que é. CCXP, natal, e tudo mais, muita treta… mas passou, e vamos em frente! Primeiríssima resenha de 2019, e já com uma história de cair o queixo.
Shangri-La, termo concebido por James Hilton em seu livro Horizonte Perdido, era, resumidamente, um lugar paradisíaco oculto na Terra, com pessoas de diferentes lugares e etnias convivendo pacificamente e onde a felicidade era plena e absoluta. Ainda que pareça ser maravilhoso, Shangri-La é um lugar assustador e opressivo, imponente, para muitos. Mas como supostamente o paraíso na Terra poderia ser um local de medo, temor e angústia?
A HQ Shangri-La, do francês Mathieu Bablet, publicada originalmente em 2016, “bebe” veementemente dos dois conceitos para construir a sua obra: em um futuro em que a Terra tornou-se impossível de morar, os seres humanos restantes vivem em uma estação espacial gigante que orbita nosso planeta, mas realizando as mesmas tarefas que realizavam na Terra: trabalhando, consumindo, trabalhando para consumir e dormindo. A rotina banal e niilista não está tão longe de nosso alcance como parece.
Olha esse desenho. Fala sério!
De início, pensa-se que o quadrinho trata explicitamente sobre o consumismo; as vidas vazias dos humanos na estação, dominada pela empresa Thianzu Enterprises, assemelha-se com o pós-modernismo presente atualmente; ter que comprar o mais moderno modelo de celular (parafraseando a obra: “Seu TZ phone tem mais de seis meses? Como você é capaz de guardar essa velharia?”), trabalhar para ter algo material que dê um sentido de existência, e em vez de viver a vida, afundá-la na rotina repetitiva e deprimente. Porém, a obra de Bablet vai muito além de uma mensagem. O autor esmiúça o poder das corporações e o controle absolutamente opressivo que essas empresas realizam na vida cotidiana da população: as propagandas quase pornográficas, os testes desumanos e sanguinários realizados em animais, e claro, a doutrinação visível de um povo destinado a trabalhar para talvez ter algo material que justifique sua existência.
Conforme a trama se desenvolve, os problemas vão ficando cada vez maiores, e o consumismo é o menor deles. Os cientistas e pesquisadores da Thianzu chegam até a ansiar serem tão poderosos quanto Deus. Em contraponto à exploração e doutrinação dos humanos, há a liderança do misterioso Mr. Sunshine, apoiado pelo seu subalterno John, um… cachorro. Sim, eu esqueci de contar, os animais como cães e gatos passaram a falar e ter inteligência igual a dos humanos E adquirirem formas antropomorfizadas. Como se tanta ficção científica já não fosse o suficiente…
Além da trama principal (a resistência dos poucos humanos contra a Thianzu), há diversas sub-tramas e questões filosóficas sendo debatidas ao longo da história: a exploração espacial, o desenvolvimento da ciência, a destruição de nosso planeta natal, e claramente, o domínio monopolista corporativo que está na frente do nosso nariz. Sim, amiguinhos, as empresas querem que você tome aquele refrigerante todo dia, troque de tênis a cada 3 meses e compre algo que você sabia que não precisava. Assim, elas podem continuar mantendo a população alheia aos acontecimentos mundiais de real importância e podem continuar mandando na sua vida sem você nem perceber. Mágico!
Como se só uma trama de arrepiar os cabelos dela não fosse o suficiente, a arte de Mathieu Bablet é ainda melhor. As páginas inteiras desenhadas, as cores que parecem que saíram do cinema, as splash pages… é tudo magnífico. Uma das artes mais fantásticas que tive o prazer de “degustar”. Um dos pontos altos do quadrinho.

Exemplo das cores utilizadas pro Bablet, Simplesmente magnífico.
O único “porém” que tenho de Shangri-La são os personagens. Eles são rasos, não tem cativam em nenhum momento e não possuem nenhuma carisma. O mais marcante de todos, ironicamente, é o cachorro John. Os humanos, em si, são entendiantes. Ei, isso é verdade na vida real de vez em quando também!
Shangri-La é assustadora. Reveladora. Uma das poucas obras que te faz parar a leitura frequentemente e pensar, refletir. É uma obra extremamente necessária para não se deixar ser levado por uma maré de materialismo, de viver como gado. Foi uma das leituras mais angustiantes e chocantes do ano passado. Não vou e nunca darei spoilers, mas quando a HQ trata sobre os testes que empresas de cosmético realizam em animais… é de fechar o quadrinho e chorar. E chorar de novo, porque aquilo acontece MESMO. Todas as mazelas ocorrem bem debaixo do nosso nariz.
A HQ está no meu top 10 dos quadrinhos de 2018 e com toda a razão. A propósito, essa lista sai em breve. É uma leitura necessária. E cabe aqui elogios à edição da Sesi-SP: o quadrinho tem um formato gigantesco, ótimo para apreciar a arte, e um papel de excelente qualidade. E elogiar a editora por trazer a obra para o Brasil também, já que eu não entendo patavinas de francês. O legal é que a editora já anunciou que publicará outra obra do autor, “A bela morte”, em 2019 ainda. Depois de Shangri-La, comprarei de olhos fechados. Senhoras e senhores, leiam esse espetáculo. Vocês não vão se arrepender.
