Thor, Loki, Odin. Você sabe quem eles são, nem que seja por filmes de uma certa empresa por aí. Eles são aesires, os deuses supremos da mitologia nórdica. Até hoje despertam curiosidade e interesse no público, e são representados constantemente em filmes, games (alô, Kratos!), e quadrinhos. Porém, o que David Brin e Scott Hampton fazem é jogar tudo pro alto, botar o dedo na sua cara e criar uma história que parece que foi tirada de algum manicômio (ou da mente do Grant Morrison).

Os Devoradores de Vidas, publicado originalmente pela IDW em 2003, e lançado pela Mythos em Janeiro de 2018, escrito por David Brin e desenhado pelo fenomenal Scott Hampton, é uma história que nem eu, nem você, nem um maluco que nem o Garth Ennis jamais poderíamos ter pensado. Na trama, poucos dias antes do colossal Dia D, na Segunda Guerra Mundial, por atos de magia negra, os nazistas conseguem trazer à vida o panteão mitológico concebido pelos vikings há séculos, arrastando uma guerra que estava quase vencida até os anos 1960, com o domínio quase global dos nazistas. A missão é um fracasso, e a partir do momento, os deuses nórdicos passam a avançar pela Europa e por todo o globo. HQs ondem os extremistas invocam seres através de magia negra já foram escritas, mais precisamente, na origem de Hellboy, personagem de Mike Mignola. Só que há uma explicação extremamente crível para o surgimento desses deuses de uma hora para a outra (vocês não querem spoilers, né?), estupidamente genial. Além de todo o contexto histórico e uma trama bem desenvolvida, David Brin acerta precisamente ao separar Thor, Odin, e os demais aesires de Loki, motivo de rixa entre os deuses, como sempre…

Loki é um símbolo da resistência contra os nazistas, enquanto Odin e Thor são venerados pelos radicais. Obviamente, os nazistas usam os deuses como uma justificativa para as suas falácias da raça ariana e da superioridade, como se os aesires vivos fossem prova disso, e assim, os chefões do panteão permanecem do lado deles. Com o desenvolver da história, acompanhamos aos EUA sucumbindo, a luta titânica entre deuses pelo domínio do planeta, e debates reflexivos sobre meio ambiente, autoritarismo, religião, e claro, política.

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Se só a trama não fosse suficientemente brilhante e diferente de tudo que eu vi e li em um bom tempo, os combates, o universo construído em torno de uma guerra brutal, e principalmente, as reflexões propostas por David Brin são pontos que tornam a obra um espetáculo narrativo, e graças aos desenhos e as cores primorosas de Scott Hampton, uma beleza visual. Apesar de ser pouco comentada, a HQ se tornou uma das minhas prediletas do ano. Vemos humanos sendo os líderes da própria história, lutando pela liberdade, sendo os reais super-heróis do mundo. Não obstante, o final ainda é completamente aberto, deixando o leitor tirar as próprias conclusões. Cabe um elogio à editora Mythos, que publicou o quadrinho em um formato exemplar, de capa cartão e de papel de qualidade, tornando-o mais acessível. Certamente essa HQ merecia mais atenção.

Eventualmente, gosto de sair do núcleo de super-heróis dos quadrinhos e me divertir com uma obra incomum. Eu só não esperava ler deuses mitológicos montados em cavalos alados, bebendo umas e lutando contra mais deuses ao lado de nazistas pirados e o que sobrou de quem se opôs aos regimes autoritários. Leia Os Devoradores de Vidas de mente aberta, sem maiores preocupações. Divirta-se e não se preocupe muito com a sua sanidade. Se você já leu Os Invisíveis e sobreviveu, essa HQ é mamão com açúcar.

 

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Victor Bianconi
Leitor, colecionador apaixonado de HQs, e admirador da magia do cinema. Tento escrever sobre aquilo que amo.