Stanley Kubrick, um dos maiores cineastas que existiu faleceu em 7 de março de 1999. Contudo ele deixaria para o seu legado uma obra que mostrava que ele ainda mantinha o seu alto nível, De Olhos bem Fechados lançado em 3 de setembro de 1999.

O diretor nesse período do tempo já tinha uma polêmica carreira, tendo lançado épicos como 2001: Uma Odisséia no Espaço e polêmicas como Laranja Mecânica. Contudo em De Olhos bem Fechados, Stanley Kubrick focaria em algo diferente, sem épicos espaciais ou um mundo de violência, ele iria direcionar seu foco para os desejos humanos.

Stanley Kubrick em Laranja Mecânica de 1971.

O filme acompanha o protagonista Bill Hartford (Tom Cruise) que é um renomado médico casado com Alice (Nicole Kidman). Ele possui uma boa vida, tendo uma filha e indo em festas elegantes da alta sociedade de Nova York, contudo após uma discussão sua esposa Alice diz ter tido fantasias sexuais com um homem que conheceu ao acaso. Após essa revelação Bill não sabe o que dizer e sai de sua casa tendo que ir cuidar de um paciente que o ligou.

A jornada De Olhos Bem Fechados é intrigante, e nos faz questionar em diversos momentos os reais desejos humanos. Bill após sair de sua casa parece entrar em uma jornada através de seus sonhos tal qual Alice que entra no país das maravilhas. Seu primeiro encontro é com a filha de um paciente, que é apaixonada por ele, contudo ele não possui sentimentos reais por ela. Após isso ele se encontra com uma prostituta que o chama para sua casa, contudo após uma ligação de sua esposa ele volta atrás e não realiza o ato final.

Ainda tendo visões sobre sua esposa fazendo sexo com outro homem, ele ainda não retorna para casa e vai até um bar para encontrar um antigo amigo que estudou medicina ao seu lado mas desistiu no final e agora é um pianista. Nesse momento ele revela que toca em um lugar secreto de olhos vendados e que ali havia visto mulheres que nunca tinha visto antes. Bill durante essa viagem ao país das maravilhas tenta ao máximo realizar algo, não sendo mais um personagem passivo das situações e pede o endereço do local.

Indo em busca de uma fantasia para participar do evento o personagem se encontra agora cada vez mais próximo do pico de fantasia e alusão aos desejos sexuais, agora se encontrando com o absurdo de uma jovem realizando sexo com homens adultos.

Chegando enfim na festa, o filme nos traz para o ápice da jornada dos sonhos, onde as luzes dos cenários se amplificam. Nos vemos em volta de algo que não acreditamos ao olhar, com uma pesada trilha sonora e uma fantasiosa realidade que agora parece ter se tornado real. Bill vê que ali ele talvez possa enfim realizar seu desejo, contudo o que ele vê o faz simplesmente desacreditar de tudo. Com a descoberta de que ele não faz parte daquele grupo e é um intruso, ele é expulso do local, onde agora o dia volta e nos vemos na realidade novamente, fora dos sonhos.

Bill busca investigar aquilo que ele viu, contudo o pianista desaparece, as pessoas que venderam sua fantasia agem de forma estranha e a mulher que o salvou na noite passada está morta. Ele não sabe mais o que fazer ou pensar, até que seu amigo de alta classe que vimos no início do filme o chama para uma conversa. Ele se revela fazer parte de tudo aquilo, e que ele deve parar de investigar, dizendo que tudo foi encenado e a morte da mulher não foi culpa deles.

O real retorno para casa enfim acontece, agora Bill não se contém mais e chora nos braços de sua esposa revelando tudo que ocorreu naquela noite. No final temos um suposto final feliz, contudo com algumas aspas de que a realidade pode não ser o que esperam, mas com a certeza do que precisam fazer a seguir…. Fuck.

A maestria de Kubrick nesse filme se encontra primeiramente em como ele conta sua história, onde temos uma jornada no primeiro ato do filme que vai escalando até seu ápice no segundo ato, e no terceiro lentamente somos jogados novamente para a realidade. A fotografia magistral juntamente com o uso de luzes nos faz levitar em uma realidade que se confunde com sonhos.

Como sempre em sua direção ele consegue extrair o máximo que consegue de seus atores, onde vemos Tom Cruise e NIcole Kidman totalmente inertes em seu personagens, e mesmo Cruise não esboçando muitos sentimentos, isso condiz com a construção de seu personagem.

Diretor STANLEY KUBRICK, TOM CRUISE e NICOLE KIDMAN

De Olhos bem Fechados continua ecoando pela história não somente pelo seu diretor ou história, mas também por abordar os tabus relacionados a monogamia, o sexo e desejos humanos que naquela época não eram discutidos e mesmo hoje o filme continua refletindo certos pontos da realidade. A complexidade humana se perde em desejos, violência e entre outros sentimentos, mas Kubrick foi aquele que nos levou em cada um deles, nos mostrando que as maiores histórias estão talvez na nossa deturbada realidade.