Harlem, 19 de Abril de 1989. Cinco jovens. Quatro negros, um latino. Uma jovem brutalmente estuprada no Central Park. Um Donald Trump que já demonstrava a intolerância que possui até hoje. Linda Fairstein tão racista e intolerante quanto Trump. Racismo, abuso de poder e a maior falha da “justiça” americana. Estes são os elementos abordados na minissérie de Ava Duvernay, produzida exclusivamente para Netflix.

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Na noite de 19 de Abril de 1989, ocorreram algumas arruaças na região do Central Park, de jovens que estavam ali zoando, como dito por eles mesmos. Os jovens agrediram alguns passantes e ciclistas, zoavam com mendigos e cometiam algumas brincadeiras de mal gosto com pessoas que passavam ali, cometeram vandalismo. Perto dali, no Central Park, uma jovem bancária de 28 anos fazia sua corrida matinal ouvindo música em seu walkman, quando foi atacada e brutalmente estuprada, deixada ali para morrer. Quando encontrada a moça vestia apenas um sutiã de ginástica. Perdeu 75% do sangue do corpo . Tinha duas fraturas cranianas, hipotermia e restos de sêmen no corpo. Devido aos graves ferimentos, um anel foi o que restou para que pudesse ser reconhecida. Ela era Trisha Meili, que ficou conhecida mais tarde como “A corredora do Central Park”. Quando recobrou a consciência, duas semanas depois, Trisha não se lembrava de nada. A polícia então nos arredores achou os jovens arruaceiros e decidiu levá-los para interrogação, a princípio pelos atos de vandalismo. Mas vandalizar, e atacar alguém são duas coisas bem diferentes. Mas não para a promotora racista Linda Fairstein, que achou mais fácil culpar os cinco jovens pela agressão, estupro e tentativa de assassinato da jovem corredora, do que procurar pelo verdadeiro culpado do crime.

A série aborda exatamente sobre os fatos citados acima. Mas não se engane, a história vai muito além do que citei, e é um forte soco no estômago. Assistir os eventos que se basearam no fato real, pode ser difícil e doloroso, mesmo que sequer possamos imaginar o que aqueles garotos realmente passaram. A direção da trama é eficaz por não ter pressa alguma em narrar os fatos ocorridos, focando em cada um daqueles jovens, e deixando claro que aquilo não foi apenas uma falha da justiça, mas um crime racial, cometido por todos aqueles que se recusaram a aceitar as provas que inocentavam os garotos, e decidiram simplesmente culpá-los por serem negros, pobres ou hispânicos. Depois de horas de abuso de poder, torturando psicologicamente Korey Wise, Raymond Santana, Yusef Salaam, Antron McCray e Kevin Richardson, todos jovens entre 14 e 16 anos, interrogados sem a presença de um responsável durante 30 horas, sem receber alimentação alguma, e nem poder dormir, os garotos foram induzidos pela polícia a culpar uns aos outros, com a promessa de serem assim liberados. Os vídeos, de depoimentos dos jovens visivelmente abalados sendo coagidos a culpar uns aos outros, era a única prova que a promotoria tinha contra eles. Em contrapartida, todas as outras provas inocentavam aquelas crianças. Foi encontrado uma meia com sêmen, que não era de nenhum daqueles cinco garotos, não havia nenhuma evidência de Trisha neles, e nenhuma evidência deles em Trisha. Era um absurdo tudo que estava acontecendo ali, e só não via que as crianças eram inocentes, quem não queria, ou quem era extremamente racista como Donald Trump e Linda Fairstein. Trisha não se recordava de nada. As famílias dos meninos não tinham dinheiro ou influência para protegê-los e livrá-los daquelas mentiras. É até difícil separar a realidade da série, visto sua qualidade ser tão boa a ponto de enxergarmos tudo ali, como se fosse o caso sendo visto passo a passo novamente, 30 anos depois do crime. As atuações são tão verdadeiras, tão honestas que não tem como não se emocionar com cada um deles, embora Korey tenha sido o que mais sofreu em minha opinião, com uma atuação poderosíssima de Jharrel Jerome, que faz você transportar para dentro da prisão junto dele. Ainda há participações grandiosas de Niecy Nash que interpreta a mãe de Korey, junto com o arco do garoto vemos sua irmã transexual (que mesmo não sendo muito abordada, por não ser o foco, consegue nos transmitir o necessário para sentir tudo que Korey passou em sua família, e principalmente na cadeia). Sua irmã transexual é interpretada por Isis King, que está excelente no papel mesmo com pouquíssimo tempo em tela. Felicity Huffman, atriz incrivelmente talentosa, dá vida a odiável Linda Fairstein, e sua atuação é realmente excelente, fazendo com que sintamos ódio por ela do início ao fim. Vera Farmiga, Famke Janssen e Joshua Jackson ainda que em participações menores também conseguem se destacar. Os garotos, a maioria iniciante na atuação, são muito bons e tanto os atores da fase criança, quanto os atores da fase adulta tem atuações grandiosas. Direção muito segura e eficaz que recria com maestria os absurdos deste crime bárbaro, que destruiu não só com a vida de uma vítima de estupro, mas que causou mais 5 vítimas, desta vez de racismo, condenadas injustamente por um crime que jamais cometeram. A ambientação dos anos 80/90 também é feita com maestria, tornando sua produção caprichadíssima. Sobre mais um mérito da diretora, ela consegue arquivos verdadeiros das declarações racistas e intolerantes de Donald Trump, que na época era apenas um babaca milionário que adorava declarar bobagens na televisão. E hoje, inexplicavelmente vemos um cara desses como presidente dos Estados Unidos (lamentável é o mínimo que posso declarar), e ainda mais inexplicavelmente temos uma cópia de Trump no Brasil, que o tem como ídolo (triste, não?!). Mas isso é um outro assunto que não irei aprofundar aqui. No mais, mesmo depois de 30 anos, hoje em 2019 é lamentável que essa história seja tão atual, porque ainda vemos falhas de justiça, principalmente por racismo, intolerância e homofobia. Sobre a série vale muito a pena assistir, mesmo que com os lenços para enxugar suas lágrimas, e esteja preparado porque ver o sofrimento dos inocentes retratado ali é realmente difícil. E sobre o caso real, em Agosto de 1989, Matias Reyes, criminoso que cometeu uma série de estupros similares ao de Trisha, foi preso. Mesmo assim não ocorreu à polícia comparar seu DNA com o material biológico encontrado no corpo da corredora. Em 2002, treze anos depois, Reyes confessou o crime. Ele confessou que o cometeu sozinho, descreveu com detalhes tudo que acontecera a Trisha, e tudo que declarou batia com as provas encontradas em 1989, no local do crime. Finalmente a justiça estava sendo feita, para os jovens inocentes culpados pelo crime que não cometeram e também para Trisha. Em 2002 os rapazes foram inocentados e absolvidos do estupro, e então Korey (o último ainda preso) finalmente saiu da prisão. Finalmente aqueles cinco garotos estavam libertos, porém mesmo assim Linda e Trump nunca admiram o erro, e nem mesmo se desculparam pelo crime que cometeram. Somente em 2014, a cidade de NY indenizou os cinco (Korey, Yusef, Raymond, Antron e Kevin) com mais de 40 milhões, pela falha de justiça. Hoje os cinco do Central Park vivem suas vidas normalmente, e se dedicam á causas sociais e raciais.

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