Crítica: O Poço | Repleto de Críticas Sociais, Novo Longa da Netflix se Destaca Por Teorias

Lançado com o Selo da Netflix, O Poço, estreou em Março (2020) aqui no Brasil, fazendo um sucesso considerável, e consecutivamente, muito comentado por suas polêmicas críticas sociais.

O Poço | Site Oficial Netflix

Vamos aos fatos sobre o filme, do diretor Galder Gaztelu-Urrutia. O fato principal é que não há muitas explicações sobre o roteiro ao longo do filme. Tudo é sobre interpretação, aquilo que você decide interpretar com a história que está sendo vista diante de seus olhos. Além do fato de que na trama, o protagonista também precisa interpretar como lidar com cada situação apresentada diante dele.

O longa começa com o protagonista Goreng interpretado pelo ótimo ator Ivan Massagué, acordando dentro do poço com um colega, no nível 48, um nível consideravelmente bom, segundo seu colega ranzinza Trimagazi, interpretado pelo também ótimo ator Zorion Eguileor.

Logo entendemos o porquê de Trimagazi afirmar que o 48 é um bom nível, pois o sistema do local nos á apresentado, e é bem simples. Á uma plataforma que desce com comida, comida esta que é colocada no nível zero e vai descendo até o último nível, onde nível por nível é possível que os presos se alimentem do mesmo alimento. Óbvio (como diria Trimagazi) que o 48 seria um nível bem equilibrado, levando em conta que o poço teria supostamente uns 200 níveis, no 48 ainda chegaria alimento, mesmo que já bem revirado.

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A cada 30 dias os presos são trocados de nível, podendo aleatoriamente subir ou descer vários níveis, correndo o risco de ficar assim sem alimento, caso desçam demais. Mas o perigo não se limita apenas ao risco de ficar sem alimentação. Há o colega de “cela”, os perigos que cada um tem o direito de guardar consigo dentro da “cela”, por exemplo Trimagazi possui uma faca, que mais tarde trará bastante dor de cabeça á Goreng.

Ainda há uma mulher que todos os meses desce de nível em meio á comida da plataforma, em busca de seu filho, que supostamente também está no poço. Isso rende alguns discursos sexistas interessantes, mas não são explorados o suficiente para discutirmos aqui.

Quando Goreng e Trimagazi descem para um nível baixíssimo que não chega comida, as coisas saem do controle. É ali que os limites são testados e que podemos fazer os melhores questionamentos a respeito do longa. Até onde o ser humano pode chegar para se proteger? O que o desespero leva alguém a cometer? Quem é o verdadeiro vilão daquele sistema? Como as coisas poderiam não sair do controle naquela situação? São tantas questões a responder que fica até difícil saber por onde começar.

 

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Antes de falar sobre o polêmico final, vamos responder as questões acima, lembrando que o filme nada mais é do que uma crítica e metáfora aos sistemas mundiais, e que cada telespectador tem sua própria visão a respeito da obra. Segundo o próprio diretor do longa, as interpretações ficam por conta do telespectador, e existem várias, nenhuma errada por sinal.

A primeira questão a abordar é que se trata de um filme sobre política e sobre desigualdade social, com críticas políticas e sociais intensas, a partir daí as conclusões  sobre os fatos apresentados na obra ficam por sua conta.

A distribuição desigual de comida entre os presos é uma dura crítica ao sistema capitalista, embora possamos ver críticas a vários sistemas aqui e ali, mas o capitalismo é visivelmente o foco aqui. Uma crítica á sociedade, aos sistemas e a desigualdade ao qual o ser humano submete outros da própria espécie.

Os vilões seriam a administração do poço? Talvez um deles, mas eu não enxergo apenas eles como responsáveis. Os administradores criaram um sistema prático, bizarro é verdade, mas prático onde se cada um comesse somente seu necessário, e não espalhasse tudo feito animais, teria comida para todos os níveis do poço. Isso lembra o capitalismo? Sem dúvidas. E onde estaria o erro dos políticos, assim como na administração do poço? A desigualdade. No nosso caso, se políticos não roubassem tanto para si, será que não poderia toda a população viver bem?! É provável que sim. Não haveria tantos com muito, e muitos com nada. A igualdade prevaleceria, mas assim como no poço não prevalece.

Os presos seriam o problema? Creio que em parte também sim. No filme são os presos em si, mas na sociedade em geral o ser humano como um todo. Se as pessoas fossem menos consumistas a igualdade poderia ser um tanto mais equilibrada. Para que consumir tanto, quando nem necessitamos disso tudo?

No filme á uma cena muito interessante, onde uma personagem distribui dois pratos com porções suficientes para cada um, mas ao receberem tais pratos, os caras simplesmente não querem e atacam a “mesa” feito animais, jogando tudo para o alto e comendo tudo que enxergam na frente. Uma crítica também ao modo como as pessoas vem se alimentando mal e desperdiçando o alimento. Será que cabe chamá-los de animais? Acho que não, afinal os animais sabem comer apenas o necessário, o ser humano é que não sabe comer até hoje, infelizmente.

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Como o plano das personagens no ato final do filme, se cada pessoas consumisse apenas o necessário haveria alimentação para todos os níveis do poço. E claro que não é apenas na gula que suas críticas se concentram. Ainda há o fato de algumas situações pouca abordadas mas que estão lá, a cobiça que é bem presente, o machismo e sexismo como já comentei, a selvageria que o ser humano é capaz de se submeter, a raiva e o ódio. Enfim, são vários fatores interessantes a avaliar pessoalmente ao assisti-lo.

Eu não diria que é um filmaço porque não achei. É um bom filme sim, com ótimas atuações e uma direção eficaz, mas que pode deixar os menos pacienciosos entediados e sem absorver a verdadeira mensagem, o que seria uma pena, em um filme que basicamente se propõe a passar uma mensagem. Mas se você não se importar com o ritmo lento, e absorver bem os detalhes terá bom proveito da experiência.

Também não se engane pelo gore, porque definitivamente não é um filme de terror convencional. É sim um longa do gênero, mas sem dúvida alguma se concentra no psicológico, e não no convencional com sustos e tensão a todo momento. Tem gore, tem tensão e cenas perturbadoras, mas está longe do que se espera ao assistir um filme de terror comum.

Sobre mais fatos a respeito do filme não posso falar muito senão soltaria spoilers gritantes, mas assista e tire suas conclusões, creio que será uma experiência interessante assistir um longa tão crítico e necessário nos tempos atuais. Sobre o final ele é ambíguo e de interpretação pessoal, por isso também não posso comentar, pois muitas pessoas não o entenderam, e se você também não entendeu, fique tranquilo pois ele é todo seu, você que interpreta o final do filme de acordo com sua percepção. E receber sua mensagem, parar para pensar e absorve-la é essencial. Aproveite esta quarentena para sentir a experiência que O Poço pode te proporcionar. De fácil acesso, o longa se encontra disponível na plataforma de Streaming Netflix, é só acessar, e bom filme.

 

Giovani Otta

Giovani Otta

Nascido no Rio Grande do Sul, com 24 anos, empresário e estudante de letras, Giovani tem paixão por cinema e TV e planeja escrever no futuro. Apesar de já ter escrito um livro, ainda não lançado, ele planeja ingressar nessa carreira de escritor, além de crítico de cinema, e dar aulas de português para crianças.

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