Maus Momentos no Hotel Royale: Crítica | Um Thriller Repleto de Metáforas

Dirigido por Drew Goddard, o thriller surpreende por ser aparentemente comum mas possuir uma profundidade muito maior, além de um elenco estelar.

Antes de mais nada, se ainda não assistiu o filme evite ler a crítica, pois ela contém spoilers. Aproveite, corra para assistir ao filme e depois volte para ler, não esqueça de voltar hein.

“Maus Momentos no Hotel Royale” parece ser apenas mais um thriller hollywoodiano, e de início é exatamente assim que ele se apresenta ao telespectador. Mas logo depois do início já vemos que o novo trabalho de Drew Goddard tem algo mais a oferecer. A trama se passa no Hotel que dá nome ao título, e lá somos apresentados a seis pessoas de personalidades distintas, e todas com um segredo e um passado a esconder. Eles podem não saber, mas suas histórias irão se cruzar abruptamente.

Na história acompanhamos um “Padre” que vai parar inesperadamente no Hotel, uma talentosa cantora que encontra repouso ali, uma jovem problemática com uma refém, um investigador policial que está investigando o local, além do jovem recepcionista traumatizado por ter estado na guerra. Estes seis personagens serão divididos em locais diferentes do Hotel, que possui uma parte em Nevada e a outra na Califórnia, enquanto uma possui vantagens prazerosas, a outra se concentra mais na paz e sossego. Mas até aí tudo bem, vemos os personagens se dividirem e aí começa o verdadeiro suspense da obra. Um Padre que não é padre, uma jovem que na verdade não sequestrou outra garota, uma “sequestrada” que não tinha nada de inocente, um investigador que está ali para algo muito mais sério do que parece, e acaba se metendo em uma questão que não era sua, uma cantora que não estava tão bem assim já que foi usada por produtores sua vida toda e não era valorizada, um recepcionista aparentemente inocente que já tirou várias vidas lutando na guerra, atormentado por demônios do passado. O que eles tem em comum? Nada, além do fato de estarem no mesmo local e rodeados de um mistério, além dos que eles próprios carregam. E no meio disso é que o roteiro constrói um thriller bem executado e dirigido, regado á excelentes atuações, revelando que ninguém é o que parece ser, e que tudo está ligado de certa forma, culminando na aparição de um sétimo personagem, o psicopata Billy Lee, interpretado surpreendentemente bem por Chris Hemsworth, e claramente inspirado no assassino Charles Manson. Billy surge depois de vários acontecimentos fatídicos e acaba trazendo muito mais caos e atrocidade ao local, revelando também a verdadeira face de Rose, a irmã de Emily, também surpreendentemente muito bem interpretada por Dakota Johnson, que consegue construir várias facetas da mesma personagem com maestria. Jon Hamm apesar de ter seu personagem excluído precocemente também está ótimo, e possivelmente o agente ao qual ele interpreta estava investigando algo relacionado ao presidente americano John Kennedy, pois mesmo não sendo dito explicitamente tudo dá a entender isso. Na fita misteriosa possivelmente seria o John Kennedy, pois além dos fatos apresentados ainda há uma foto de Marilyn Monroe no saguão do hotel, que pode facilmente representar ele na fita. Além disso é mencionado que tal pessoa gravada já está morta, o que bate com a linha temporal do filme, visto que ele se passa na segunda metade da década de 60 e JFK morreu em 1963. Isso explicaria o porquê do FBI estar tão interessado no hotel a ponto de mandar um agente para investigá-lo. O suposto Padre na verdade era um ladrão que roubou dez anos antes, e escondeu o dinheiro em um quarto deste Hotel, e agora disfarçado de Padre e livre da prisão voltou para recuperar o dinheiro. A cantora Darlene Sweet muitíssimo bem interpretada por Cynthia Erivo, que além de ótima atriz tem uma voz incrível, está sempre cantando como que querendo se livrar ou esconder algo. O final é bem satisfatório, mesmo se tratando de apenas um thriller com reviravoltas bacanas. No fim vemos quem escolheu qual lado, e quem levou a melhor nesta escolha.

Mas agora levando para a metáfora que tanto mencionei, possivelmente o roteiro traz uma metáfora espiritual. Dizem que há uma linha tênue entre o céu e o inferno, e é exatamente isso que os dois estados que dividem o hotel representam na história. Califórnia seria o inferno e possui uma paleta de cores quentes, com tons mais avermelhados, enquanto Nevada que representa o céu usa uma paleta de cores mais frias porém alegres, com tons de azul claro representando claramente um local de paz. Na Califórnia os personagens podiam fumar e beber, além de haver mais diversão, porém pagariam um preço por isso. O pessoal que estava em Nevada estava privado de muitas coisas, mas no fim vemos quem levou a melhor.

Cada pessoa ali estava sendo julgada naquele purgatório que definiria quem iria para o céu e quem iria para o inferno, uma espécie de julgamento que seria feito de acordo com cada pecado que os levou até ali. Tecnicamente o Padre não deveria estar ali, já que Padres passam direto para o céu, por isso o recepcionista do Hotel fica confuso ao vê-lo ali, sem saber porém que ele não era um Padre, e sim um ladrão, e por isso estava ali.

Darlene acabou cometendo muitos erros em busca da fama, percebeu desde o inicio que estava sendo testada por algo maligno, e por isso passou a maior parte do filme cantando e adorando a algo soberano, que lhe desse luz e mostrasse o caminho que ela deveria seguir. O agente secreto que por se meter em algo que não devia, mesmo com boa intenção, acabou liberando o maior mal que poderia estar ali: Rose. Todos eram observados como que por uma entidade superior, enquanto na TV notícias ruins do mundo lá fora, caótico e repleto de violência. Billy Lee represente algo maligno, como o Diabo ou líderes religiosos hipócritas que cegam a mente das pessoas hoje em dia, as quais os seguem como se fossem Deus, e cometem atrocidades em seu nome como se estivessem fazendo algo certo. Ele é sedutor, bonito e manipulador, como o mal descrito em qualquer livro religioso, principalmente na bíblia. Inclusive há um diálogo onde Emily diz que antes de Billy chegar não havia aquela violência, numa clara referência de que ele era o mal que trazia caos aquele lugar, como se eles estivessem em uma espécia de teste entre o bem e o mal, e que precisassem de redenção. Quando Billy finalmente é morto é como se todo o mal daquele local se desfizesse, e finalmente os dois sobreviventes encontram redenção, como numa espécie de paraíso, ao passarem pela porta com um raio de sol os esperando lá fora.

Mas a verdade é que metafórico ou não o filme é uma grande obra cinematográfica, que pode ser encarado de ambas as formas e ainda assim ser muito bem apreciado. Aos mais exigentes ele consegue entregar um roteiro profundo, com metáforas muito bem-vindas nos dias atuais. E aos menos exigentes, consegue divertir com um bom roteiro e uma excelente produção. De qualquer forma vale muito a pena conferi-lo, em casa, já que infelizmente teve sua exibição nos cinemas nacionais cancelada, ainda assim, pode ser visto em plataformas digitais já disponíveis por aqui. Espero que você tenha uma bela experiência no El Royale … e que nos vejamos no paraíso … ou quem sabe no inferno … Vai saber!

8.8
  • Roteiro
    8
  • Direção
    10
  • Fotografia
    8
  • Trilha Sonora
    9
  • Enredo
    8
  • Atuações
    10
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Nascido no Rio Grande do Sul, com 24 anos, empresário e estudante de letras, Giovani tem paixão por cinema e TV e planeja escrever no futuro. Apesar de já ter escrito um livro, ainda não lançado, ele planeja ingressar nessa carreira de escritor, além de crítico de cinema, e dar aulas de português para crianças.

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