Lista | Os ‘oscarbaits’ fracassados de 2018

Confira uma lista dos filmes feitos para ganhar prêmios e acabaram esquecidos

‘Bait’ em inglês significa ‘Isca’, algo para chamar a atenção. Portanto a palavra ‘oscarbait’ é usada para descrever aqueles filmes feitos especialmente para chamar a atenção da Academia e, com isso, ganhar prêmios. São longas que seguem uma “receita”, abordando histórias e personagens de uma maneira que a Academia simpatize.

Dessa forma, se tornou bastante comum em todo final de ano notar filmes que possuem algumas características em comum:

1. São baseados em personagens reais e a maioria dos protagonistas é homem;

2. Se o personagem central for homem, ele geralmente pode ser de duas formas: ou ele vai ser uma figura admirada por sua coragem e/ou superação (Ex: O Destino de Uma Nação, A Teoria de Tudo, Primeiro Homem, O Discurso do Rei, Uma Mente Brilhante, etc), ou vai ser uma figura célebre por ser escrota (Vice, Trapaça, O Lobo de Wall Street). O primeiro caso é bem mais comum.

2.1. Se for hétero, este protagonista masculino terá uma esposa/namorada que estará sempre ao lado dele e que vai chorar em algum momento do filme.

2.2. Se ele for do bem, vai fazer um discurso emocionante ao final ou vai dar alguma lição de moral sobre felicidade.

3. Se a protagonista for mulher, a variedade de personagens aumenta, mas certas coisas se repetem, como o fato dessas mulheres estarem atravessando sérios problemas pessoais que requerem coragem para serem superados. Se não for isso, então elas são do tipo empoderada. (ex. A Dama de Ferro, Erin Brockovitch, A Rainha, Terra Fria, A Garota Dinamarquesa, Para Sempre Alice, O Segredo de Vera Drake).

4. Esses filmes tendem a ser de época.

5. São todos filmes “bonitinhos”, tentam ficar longe de qualquer polêmica e evitam tocar em temas controversos ou delicados.

Vários oscarbaits são lançados todos os anos, mas nem todos são bem sucedidos no seu intento de chamar a atenção da Academia e participarem da corrida pelo Oscar de melhor filme. Neste ano, alguns longas se saíram bem-sucedidos como Bohemian Rhapsody (6) Vice (8) e Green Book (5) e outros até conseguiram uma indicação aqui e ali, como foi o caso de Primeiro Homem (4) e No Portal da Eternidade (1). No entanto, do mesmo jeito que todo ano tem pelo menos um oscarbait que chame a atenção da Academia, também existem aqueles que são solenemente ignorados, tão ignorados que nem mesmo aparecem nas listas de filmes esnobados da premiação.

Vale notar que o oscarbait fracassado não se resume àquele filme que afundou nas bilheterias ou que foi execrado pela crítica, mas também àqueles que por algum motivo ficaram longe dos holofotes, mesmo sendo bons. Vamos à lista:

 

Colette

Colette foi uma jornalista e escritora francesa que viveu entre 1873 e 1954. Ela foi uma daquelas mulheres destemidas e à frente do seu tempo, que questionava o machismo do meio em que vivia e os costumes sociais da época. O marido a deixou trabalhar como escritora, mas com uma condição: que ela não assinasse como autora. Ela aceitou e logo escreveu vários romances de sucesso. O problema nisso tudo é que o marido recebia todo o crédito por suas obras e, por causa disso, virou uma celebridade no meio literário francês. Colette, naturalmente, ficou revoltada e passou a lutar pelos direitos autorais de suas obras. Tretas com o marido a parte, Colette também fascina por ter sido uma mulher que viveu como quis (o que é muita coisa quando se é uma mulher do século XIX) e suas obras são lembradas até hoje, como é o caso de Gigi, que rendeu várias peças de sucesso na Broadway e um clássico do cinema. Como vocês podem notar, todos os ingredientes que compõem um oscarbait feminino estão por aqui: história real + protagonista quebradora de padrões + filme de época. O filme teve recepção crítica semelhante a que Bohemian Rhapsody teve, por exemplo, mas por algum motivo falhou em chamar a atenção no Oscar. Até o seu lançamento em Sundance foi discreto, mas até aí ok, era o começo do ano. O filme foi comprado e teve o lançamento planejado para a época específica das premiações, onde falhou mais uma vez em se destacar. Curiosamente, o filme se parece muito com A Esposa (se parece até demais, na verdade), filme que rendeu uma indicação de melhor atriz para Glenn Close este ano. Keira Knightley interpreta Colette e o filme vale a pena ser assistido. Não é nenhuma obra-prima, mas também não ofende.

 

Bem-vindos a Marwen

Filme baseado na história real do fotógrafo Mark Hogancamp, que aqui é vivido por Steve Carell. Em abril de 2000, Hogancamp foi atacado brutalmente por cinco homens na saída de um bar, depois de ter dito a eles que era um transformista. Após 9 dias em coma e 40 no hospital, recebeu alta sem se curar dos sérios danos cerebrais que sofreu e da quase perda total de memória. Incapaz de pagar por uma terapia, ele decidiu criar suas próprias lembranças, construindo uma cidade belga em miniatura da época da Segunda Guerra Mundial em seu quintal e povoando-a com bonecos representando a si mesmo, seus amigos e até mesmo seus agressores. Ele chamou a cidade de “Marwencol”, misturando os nomes “Mark”, “Wendy” e “Colleen”. Hogancamp foi inicialmente descoberto pelo fotógrafo David Naugle, que documentou e compartilhou sua história na revista Esopus, no ano de 2006, o que contribuiu para que seu trabalho fosse exibido na galeria de arte White Columns.

Mais tarde, em 2010, sua história foi abordada mais uma vez no aclamado documentário Marwencol, que serviu como inspiração para Bem-vindos a Marwen, de Robert Zemeckis. Considerando a fascinante e triste história de Hogancamp, chega até a surpreender que Hollywood tenha levado tanto tempo para levar sua vida ao cinema. No fim das contas, o longa fracassou nas bilheterias americanas e foi apedrejado pela crítica especializada por ser considerado desconexo e de roteiro desajeitado. Em suma, se quiser saber mais da história de Mark Hogancamp, é melhor assistir Marwencol.

 

Querido Menino

Olha o Steve Carell aí de novo. Dessa vez ele é pai do Timothée Chalamet em Querido Menino, longa baseado num livro de memórias de mesmo nome escrito por David Sheff, lançado em 2008. O livro se originou a partir de uma artigo que Sheff escreveu no The New York Times Magazine, em 2005, onde relatou o difícil convívio com o filho, Nic Sheff, viciado em metafetamina.  Querido Menino cobre uma parte substancial da vida de Nic e lida com as dificuldades do seu pai sobre como reagir a um filho que ele ama, mas que também é um perigo para sua família.

Ao contrário de Bem-vindos a Marwen, Querido Menino foi melhor recebido pela crítica e as atuações de Carell e Chalamet como David e Nic Sheff, respectivamente, foram consideradas o ponto forte do filme, capazes de sustentar uma narrativa que não faz jus às suas atuações. O filme estreia esse mês no Brasil.

 

Boy Erased – Uma Verdade Anulada

O americano Garrard Conley ficou conhecido ao lançar sua autobiografia Boy Erased, em 2016, na qual narrou sua experiência angustiante ao se submeter a terapias de “cura” homossexual, obrigado por seus pais fundamentalistas religiosos. O objetivo de Conley era mostrar o quanto as tais “terapias”, na prática, causavam mais prejuízos aos pacientes do que uma “melhora” significativa na sua condição.

A história de superação vivida por Conley, que precisou enfrentar seus pais e o meio preconceituoso em que vivia para aprender a se aceitar e amar da forma como é, é do tipo irresistível para os membros da Academia, cujas cerimônias passadas destacaram obras parecidas, de personagens que em algum momento precisaram lutar contra a homofobia (Milk, O Beijo da Mulher-Aranha, Moonlight, Filadélfia). Boy Erased, além de carregar esse apelo, ainda é baseado numa história real, assim como Milk foi. Não se sabe exatamente explicar porque o filme não foi bem em ser lembrado nas premiações, já que é um consenso entre os críticos que o diretor Joel Edgerton faz um bom trabalho aqui e Lucas Hodges (o protagonista), Russell Crowe e Nicole Kidman (seus pais) trazem performances poderosas. O filme vale a pena ser conferido.

 

Suprema

Suprema é um drama biográfico baseado na vida e nos primeiros casos de Ruth Bader Ginsburg, atual ministra da Suprema Corte de Justiça americana, que enfrentou o preconceito para conseguir ser levada a sério como profissional. Ela também foi ativista pela igualdade de gênero e atuou em diversos casos jurídicos que abriram precedentes para o tratamento igual entre homens e mulheres pelas leis americanas.

Ruth é vivida por Felicity Jones, indicada ao Oscar por A Teoria de Tudo, há alguns anos. O elenco também conta com Armie Hammer, que interpreta Martin D. Ginsburg, marido de Ruth. A crítica especializada considerou o filme bem-intencionado, porém falho e exaltaram a atuação de Jones. No fim das contas, o longa foi totalmente esquecido nas premiações, ao contrário do documentário RBG, que recebeu duas indicações: melhor documentário e melhor canção original.

 

O Favorito

O senador Gary Hart (Hugh Jackman) decide se candidatar à presidência dos EUA em 1987. Durante a campanha, ele desafia a imprensa a segui-lo enquanto não estiver buscando votos, mas a decisão se mostra equivocada depois que jornalistas do Miami Herald publicam fotos dele e de uma suposta amante, Donna Rice. A partir daí, sua campanha é seriamente prejudicada e, desmoralizado pela imprensa e pelos eleitores, ele é obrigado a retirar a sua candidatura. O filme recebeu críticas mistas e não consegue mostrar de forma satisfatória o seu principal objetivo, que é propor uma reflexão sobre a privacidade de pessoas públicas e até que ponto questões puramente morais de terceiros deveriam afetar a nossa visão quanto a capacidade delas. O elenco conta com Vera Farmiga, J.K Simmons e Alfred Molina.

 

Primeiro Homem

O diretor Damian Chazelle até então teve uma trajetória profissional fantástica: seu segundo longa, Whiplash, concorreu a melhor filme na cerimônia do Oscar de 2014. Não ganhou a estatueta principal, mas ganhou três prêmios por melhor ator coadjuvante, edição e mixagem de som. Em 2017, ele voltou ao holofotes com La La Land, musical que é uma homenagem aos tempos áureos do gênero em Hollywood. Foi recordista com 14 indicações, levando apenas 6 prêmios no fim das contas. Agora, ele volta a tentar o Oscar de novo com Primeiro Homem, dessa vez narrando a trajetória de Neil Armstrong (Ryan Gosling) rumo à Lua. Todos os elementos de oscarbaits clássicos estão lá: personagens reais, história real, esposa chorosa (Claire Foy) e um protagonista destemido, mas dessa vez não deu certo e Primeiro Homem se contenta apenas com 4 indicações em categorias técnicas.

 

Voltando a Bohemian Rhapsody, citado no começo do texto como um oscarbait que deu certo esse ano, é interessante notar que o filme, apesar de ter todas essas características de “pega-oscar” foi um hit surpresa para a Fox. Nem o executivo mais otimista do estúdio esperava o cenário que se desenrolou a partir da estreia do longa, em outubro. O sucesso estrondoso do filme sem dúvida foi um fator que colocou este filme com pinta de oscarizável na disputa, apesar das críticas medíocres.

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