Atenção, o texto tem spoilers à frente.
Quando a Netflix divulgou o trailer de Lindinhas há um mês, as redes sociais explodiram com os vários comentários de pessoas indignadas (fui uma delas) com as cenas sexualmente provocantes protagonizadas por meninas de 11 anos. Atualmente, o trailer já conta com 13 milhões de visualizações e 2 milhões de “descurtidas”, resultado da polêmica gerada em torno de uma suposta glorificação da pedofilia.
Sinceramente, não dá para culpar as pessoas por agir dessa forma. O trailer de Lindinhas divulga um filme empoderador que narra a história de Amy, uma menina de família muçulmana (e por tabela, conservadora) que vê na dança um refúgio das normas sociais impostas às mulheres pela cultura em que sua família está inserida (ela descende de senegaleses). Até aí ok, o problema passa a ser quando vemos que a dança performada por Amy e suas amigas está longe de ser algo apropriado para alguém de 11 anos. De cara, achei inacreditável a Netflix tratar algo assim como ’empoderador’ e me recusei a gastar mais atenção nisso.

No entanto, duas coisas me fizeram mudar de ideia: Primeiro, fiquei pensando em Lolita, de Vladimir Nabokov, e em suas adaptações para o cinema, primeiro com Kubrick em 1962, depois em 1997, co-protagonizada por Jeremy Irons. A história, em síntese, narra um “relacionamento” entre um professor de meia-idade e uma menina de 12 anos (a Lolita do título). O livro em especial causou controvérsia na época, ao ponto de até mesmo por fim na carreira política do conservador britânico Nigel Nicolson, que era sócio da editora responsável pela publicação do romance no Reino Unido. O fato é que Lolita possui uma história complexa sobre a obscuridade do ser humano. Se eu boicotasse a obra, teria perdido uma boa oportunidade para refletir sobre as questões que Lolita levanta por meio de sua narrativa. Claro que não espero que Lindinhas seja um Lolita, mas ao renunciar uma assistida com base num motivo como esse, posso estar fazendo um julgamento errado, e como eu já tinha feito um julgamento de qualquer forma, resolvi conferir se estava certa mesmo.
O segundo motivo que me fez assistir Lindinhas, foi que a discussão em volta dele me deixou bastante pensativa sobre conteúdos que exploram ou retratam temáticas semelhantes. Quer dizer, não é difícil achar meninas e meninos dançando sensualmente na internet, por exemplo, e no instagram há vários perfis como os da Mc Melody, todos com milhares de seguidores. Indo mais além, relembro de várias situações que me deixaram sinceramente chocada, como aquela vez em que vi no Jornal Hoje da Globo, há mais de 10 anos, uma matéria sobre meninas de 12 anos que estavam na SEGUNDA gravidez. Meu choque foi tamanho que até hoje me recordo do que eu estava fazendo no momento, que era me preparar para ir às aulas vespertinas. Teve outra vez em que esbarrei numa menina de uns 12 anos, acho, que vinha cantarolando uma música sobre “ficar de quatro”; e lembro também de um documentário sobre gravidez na adolescência que vi há uns anos cuja única lembrança que possuo é de uma menina de 13 anos que engravidou do namorado traficante. Durante a conversa, ela contou num tom meio divertido que o namorado não era o seu “primeiro” e que sua primeira relação sexual foi aos 11. Esses são só alguns exemplos que citei de sexualização precoce testemunhadas por mim e tenho certeza que o leitor também sabe de vários casos. Então, diante de tudo isso, simplesmente reconheci que não há nada de chocante, nem de novo, no trailer de Lindinhas. Acho que depois daquele choque da matéria do Jornal Hoje nada mais me surpreendeu na mesma intensidade.

Após ter visto o longa, chego à conclusão que, de fato, Lindinhas não é nenhum Lolita, nem em termos de obscenidade, nem de profundidade. Porém, há muito mais no longa do que o trailer revela. Ao contrário do que se viu na internet, a história de Amy é a de uma menina buscando seu lugar no mundo, enquanto se torna vítima da sexualização precoce difundida nas redes e da validação social por meio de curtidas nas redes sociais.
Amy é culturalmente mais próxima da França do que da terra natal de sua família, o Senegal. O inevitável choque cultural e de gerações faz com que a garota se sinta deslocada dentro do seio familiar e, para piorar, Amy se sente abandonada pelo pai, ocupado procurando uma segunda esposa no Senegal, e também se sente abandonada pela mãe, ocupada em prover o sustento de Amy e de seus irmãos mais novos, que são cuidados por ela enquanto a mãe trabalha.

Se sentindo deslocada na família, Amy busca conforto nas redes sociais, onde é apresentada ao instagram. Ao receber curtidas em suas fotos, fica feliz com a sensação falsa de acolhimento que o “like” proporciona e, além disso, ela também nota que os clipes musicais de mulheres adultas dançando sensualmente são muito populares com as meninas da sua escola, que passam o tempo livre imitando as danças. Ali, Amy descobre uma forma de finalmente se sentir parte de um grupo, o que faz com que ela abrace cada vez mais a exposição nas redes sociais e a sexualidade, assim como suas novas amigas já fazem.
O problema óbvio é que ela e as amigas têm 11 anos, sem qualquer maturidade para lidar com essas questões e esse é o ponto principal de Lindinhas. Numa busca por mais aceitação dentro do grupo e de mais curtidas (que também representa uma forma de aceitação), Amy vai cada vez mais se perdendo, até que no clímax do longa (na polêmica cena que circulou pelas redes), ela é forçada a lidar com os olhares de choque e repulsa da plateia diante da performance escandalosa dela e de suas amigas. Só então Amy se toca que não deveria estar ali. Essa cena, juntamente com a passagem em que a mãe a libera do compromisso de ir ao casamento do pai, são os momentos cruciais da redenção de Amy, pois indica que sua mãe está disposta a libertá-la das obrigações tradicionais de sua cultura, o que retira um peso da menina, fazendo com que Amy se sinta acolhida em casa.
O longa é claro em sua mensagem sobre sexualização e exposição nas redes, porém, como nem tudo é perfeito, a diretora Maïmouna Doucouré exagera em alguns close-ups nas cenas de dança e, como resultado, muitas delas parecem apelativas. Não a culpo, é um limite difícil de se traçar. Achei extremamente desconfortável ver as meninas dessa forma e acredito que esse sentimento seja justamente o que diretora queria instigar. Afinal, como despertar o sentimento de desconforto no público acerca do tema sem soar apelativo? É um equilíbrio delicado, que não sei ao certo se Doucouré conseguiu alcançar, mas é inegável que ela precisou ter uma boa dose de coragem para se propor a fazer um filme como esse.
Lindinhas não foi feito para pedófilos, mas para os pais e a sociedade. Apesar da redenção de Amy e de outras passagens importantes serem um tanto apressadas, o filme nos faz pensar sobre a relação de crianças e adolescentes com as redes, o que não pode ser ignorado. A histeria em torno do longa me parece ser mais um típico caso de falso moralismo e “ataque contra o mensageiro”, o que não vai acrescentar em nada a esse debate muito necessário.

Ah, já ia me esquecendo de elogiar Fathia Youssouf, a menina que faz Amy. Que fantástica, consegue traduzir com perfeição a confusão que se passa na cabeça de sua personagem, mesmo sendo tão jovem.
