Ale Santos vem despontando como um dos nomes mais interessantes da literatura nacional. Ativista  e comunicador, com trabalhos como o podcast “Infiltrados no Cast” e também colaborações para os portais Muito Interessante e The Intercept Brasil, Ale vem reforçando sua posição como figura de referência na arte brasileira, principalmente no que se refere ao mercado literário. 

Autor dos livros “Todo mundo tem uma Primeira Vez”, “Rastros de Resistência” e “O Último Ancestral”, esse último publicado pela HarperCollins, gigante do mercado editorial dos Estados Unidos, Ale Santos terá sua mais recente obra, o já citado “O Último Ancestral”, adaptado para série de streaming.

Em entrevista ao Nerd Zoom, ele fala sobre esse e outros assuntos. 

(André, Nerd Zoom) Boa tarde, Ale, e muito obrigado pela entrevista!

(Ale Santos) É um prazer conversar com vocês!

(André, Nerd Zoom) Depois do sucesso de Pantera Negra e do recente lançamento, “Pantera Negra – Wakanda Forever”, muito tem se falado sobre o afrofuturismo e, por isso, muito da ideia de afrofuturismo no inconsciente coletivo tem sido moldada por Wakanda, que em última análise é uma obra pensada sob o prisma de autores estadunidenses. Na sua visão, quais as diferenças entre o afrofuturismo pensado por eles e por nós, no Brasil?

(Ale Santos) Basicamente, o afrofuturismo estadunidense é mergulhado no imaginário da corrida espacial e nas questões sociais que estão presentes naquele país, como por exemplo a grande questão das pressões da geopolítica pela exploração de recursos naturais em outros países.  Não acho que é o tema mais determinante do afrofuturismo brasileiro, mas tenho certeza que a proteção dos nossos biomas como a Amazônia, as características de nossa própria periferia e os desafios sociais brasileiros, como o da educação, ainda estão construindo nossas ideias de futuro. 

(André, Nerd Zoom) Quais os potenciais impactos do lançamento de livros, séries e da produção cultural afrofuturista, em geral, numa sociedade como a brasileira?

(Ale Santos) O principal impacto é o da representatividade, eu nasci em outro contexto, onde não via possibilidade de ser um escritor como sou hoje, com o estilo e o visual que tenho. Com certeza muitos escritores modernos estão se tornando novas referências e mudando a imagem de escritores negros por todo o país. 

(André, Nerd Zoom) Quais são os autores que influenciaram você ? De que forma isso aconteceu e como contribuiu para a sua formação como artista?

(Ale Santos) Autores de SCIFI clássicos como H. G. Wells, Jules Vernes e (Isaac) Asimov fizeram parte de toda minha adolescência. Como RPGista eu também me tornei grande fã de Tolkien, de onde me inspiro para construir universos fantásticos, depois comecei a me conectar com autores que conseguiam abordar de forma fenomenal as questões da minha vida, na ficção especulativa, como Shonda Rhimes, Corlson Whitehead, Jordan Peele. Não posso deixar de citar Ariano Suassuna que é uma grande inspiração de como é possível abordar nosso regionalismo dentro da magia da escrita de ficção. 

(André, Nerd Zoom) Em que momento da vida você se descobriu escritor? Quais foram os fatores determinantes para que você seguisse esse caminho e, além disso, quais os fatores que colaboraram para o seu sucesso?

(Ale Santos) Me sinto escritor desde os 12 anos de idade, mas me tornei escritor como profissão mesmo nos últimos anos. Eu sempre escrevi porque era a maneira que eu me sentia mais confortável, eu amo contar histórias novas, é uma das coisas que mais me agrada nessa vida, então eu só fazia, quando observava as possibilidades de transformar isso no meu principal meio de vida. 

(André, Nerd Zoom) Você pode falar um pouco sobre o seu processo criativo? Desde a concepção do plot principal até o produto final entregue para a editora.

(Ale Santos) Eu sou um arquiteto da narrativa, construo personagens em várias camadas, crio conexões, imagino cenários, ocasionalmente eu faço mapas e depois eu vou trabalhar na escaleta para montar o recorte de todo o universo. A última etapa é a escrita, aí é uma loucura, quase um transe criativo!

(André, Nerd Zoom) Como você vê o mercado editorial e o mercado consumidor de livros no Brasil? Na sua visão, quais são as saídas para fomentar esse mercado e, sobretudo, aumentar o número de leitores e o interesse do público pelos livros?

(Ale Santos) Ainda acho um mercado difícil pra escritores de SCIFI, com muitas editoras médias e pequenas batalhando pra trazer alguns nomes, poucos chegando nas grandes (editoras). Isso tem mudado, mas também acho que não é um costume das editoras construir uma carreira a longo prazo em parceria com o autor.  

(André, Nerd Zoom) Sendo um artista negro, escrevendo, num primeiro momento, histórias muito ligadas à nossa cultura (O entrevistador, no caso eu, é negro também), existe algum tipo de expectativa ou cobrança explícita ou implícita para que você sempre se mantenha, como autor, em torno das questões de cunho racial? Caso exista, como mostrar que um autor negro pode também tratar de outros assuntos, de forma competente e sem que isso signifique que ele abandonou seu legado já construído?

(Ale Santos) Acredito que exista não uma pressão, mas uma expectativa, espera-se que eu esteja escrevendo sempre sobre assuntos relacionados a raça e a questões que para nós são muito dolorosas. Eu não me preocupo com isso, não deixo me guiar pela pressão, quando começo um projeto eu tento entender o que eu quero dizer com aquilo, qual meu objetivo de escrita e como mensageiro de alguma ideia. Sigo meu propósito até o fim e deixo que as pessoas lidem com minha escrita depois, ter a vivência negra como eu tenho sempre vai levar alguma coisa para minha ficção, mas não é o que determina ela. 

(André, Nerd Zoom) Seu livro mais recente “O Último Ancestral” vai virar série de streaming. Qual seu grau de envolvimento no desenvolvimento geral do projeto e quais suas expectativas para essa produção?

(Ale Santos) Não posso falar ainda do meu grau de envolvimento, mas eu estarei bastante presente na produção. Já indiquei alguns nomes que gostaria para a produtora. Tô muito feliz porque a RT é excelente e eu acredito que vamos fazer história para as produções de SCIFI nacionais juntos!

(André, Nerd Zoom) Você pode indicar três livros para os leitores do Nerd Zoom? Não vale os seus, esses a gente já vai indicar aqui! 

(Ale Santos) O Reformatório Nickel, Céu entre Mundos,  Filhos de Sangue e osso. 

(André, Nerd Zoom) Você tem alguma mensagem ou consideração final para os nossos leitores? 

(Ale Santos) Muito obrigado pelo tempo e pela atenção!

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