Ryan Coogler é um senhor diretor de cinema. Toma boas decisões, conduz bem histórias. Extrai o melhor de seus atores. Além de tudo isso, é um roteirista de mão cheia: escreve ótimos diálogos e sabe dosar sua narrativa. Tem estilo, assinatura. “Pantera Negra” é o terceiro filme de sua carreira: não assisti a “Fruitvale Station” (2013), mas “Creed” (2015) tem muitos elementos reconhecíveis no filme da Marvel. Mas o diretor está trilhando um caminho perigoso em sua carreira, não por sua culpa, mas por puro preconceito da indústria: o de diretor de filmes de nicho.

Desde quando Hollywood foi estabelecida como a meca do cinema norte-americano (era uma região dos EUA onde pouco chovia e o inverno era mais ameno, por isso Los Angeles foi a cidade escolhida) e o “Star System” (sistema onde atores e atrizes teriam os holofotes e serviriam de isca para o público) foi criado, os negros são deixados de lado dos filmes da telona. Chegava-se ao absurdo de brancos se pintarem de negros para interpretarem papeis no cinema, fazendo caracterizações toscas e estereotipadas, ridicularizando os negros nos filmes. Para driblar isto, os negros americanos criaram movimentos ao longo da história, transformando filmes com diretores e atores negros em um gênero de filme, feito para agradar um nicho: obviamente, o público negro, que não se via representado no cinema “comum”.

Primeiro, foram os “Race Films”, feitos entre 1910 e 1950, mas nenhum movimento teve tanta relevância quanto o Blacksploitation (ou Blaxploitation, pronunciando exatamente da mesma maneira), dos anos 1970, que foi um movimento declarado de cinema negro, visando a quebra destes estereótipos com os quais os negros eram retratados no cinema branco de Hollywood. Algumas obras primas foram criadas nesta época de muito ativismo pelo direito negro em território Yankee. Criado logo depois dos debates e protestos de Martin Luther King Jr. e Malcolm X e contemporâneo do partido dos Panteras Negras, o movimento é responsável por filmes como “Shaft” (Gordon Parks, 1971) e “Black Caesar” (Larry Cohen, 1973), entre centenas de outros.

De lá pra cá, apesar de grandes derrapadas e constantes altos e baixos, a representatividade de negros no cinema “branco” norte-americano tem, até, aumentado, mas a tal da “cota de negros” (que só foi oficializada em 2003) nos filmes de Hollywood nunca passou muito dos papéis secundários, a não ser por raríssimas excessões, como Will Smith, Eddie Murphy (este, sendo re-relegado a filmes de blacksploitation, agora, depois do pico da carreira) e Chris Rock. De resto, só vemos negros protagonizando filmes em que só vemos negros.

Na Marvel, não é diferente. Desde que o “Homem de Ferro” estreou, em 2008, dá pra contar nos dedos da mão do Lula os heróis negros retratados pelo estúdio na telona: Falcão, Máquina de Combate e Pantera Negra. Protagonista? Apenas o último, neste filme do qual estamos falando agora.

Blacksploitation?

E adivinha o que acontece com Pantera Negra? Com exceção de Andy Serkis e Martin Freeman e figurantes, TODOS os atores do filme são negros. CLARO que o filme se passa no coração da África e isso, só, já justifica a hegemonia negra, mas o ponto ao qual quero chegar é que a Marvel poderia representar melhor os negros em seus outros filmes, TAMBÉM. Um filme em Wakanda é necessário? Sim, mas você não vai conseguir limitar o Pantera Negra a isto, daqui pra frente, então, é hora, sim, de mais negros tomarem papéis de peso no universo de heróis e equilibrarem o jogo. Talvez um upgrade ao Luke Cage ou a substituição do Homem de Ferro pela menina dos quadrinhos. Enfim.

Mas o filme de nicho da Marvel mandou foi é MUITO BEM.

Direitos Negros

O plot tem início imediatamente depois dos acontecimentos de “Capitão América: Guerra Civil”, quando o pai de T’Challa (Chadwick Boseman), T’Chaka (John Kani) morre no atentado à ONU. T’Challa vai ser coroado rei de Wakanda, o (fictício) país no coração da África, que existe escondido do resto do mundo por ser o único a ter uma reserva quase infinita de vibrânium, o metal (fictício, também) mais resistente da Terra. Graças ao vibrânium, Wakanda também evoluiu tecnologicamente muito mais do que o restante do planeta e é justamente por isto que eles conseguem se esconder com tanta eficiência. O povo de Wakanda é composto por cinco tribos e o herdeiro natural ao trono é T’Challa, mas as tribos precisam estar de acordo e podem desafiá-lo para tomar a sucessão à coroa.

Nenhum problema até aí: o problema começa quando o pirata Ulisses Claue (Andy Serkis) ressurge no radar de Wakanda. Claue teria sido o único forasteiro a sair vivo de Wakanda. Pior: ele roubou uma bela reserva de vibrânium e matou uma grande quantidade de nativos, tornando-se um inimigo público e praticamente uma questão de honra para alguns que ele seja condenado e punido pelo que fez.

Mas a trama do filme vai muito além deste simples maniqueísmo. Para poupá-los de spoilers, vou fazer um paralelo com o momento histórico da luta dos direitos negros, na década de 1960. Martin Luther King Jr. e Malcolm X queriam EXATAMENTE a mesma coisa: que o povo negro tivesse seus direitos de cidadãos reconhecidos pela América. Um lado mais, o outro menos, mas o que importa é que os métodos eram diferentes. King preferia os discursos amenos e o diálogo. Malcolm X preferia discursos inflados e luta. Mais ou menos como Professor Xavier e Magneto, nos X-Men (mais ou menos nada, é EXATAMENTE isto). Em “Pantera Negra”, poderíamos colocar T’Challa no papel de King e Killmonger (Michael B. Jordan) de Malcolm X. Ambos querem que a tecnologia de Wakanda beneficie toda a população negra do mundo. T’Challa quer mais, quer que esa tecnologia ajude a todos. Killmonger também quer mais: que a tecnologia ajude os negros a tomarem o poder do mundo à força. São duas maneiras de verem o mesmo objetivo ser realizado, o de que os negros nunca mais fiquem em posição de subserviência dos brancos.

Dentro de Wakanda, entre tribos e, até, entre indivíduos, há mais pontos de vista e mais aspectos sendo discutidos dentro do filme. O discurso político em “Pantera Negra” é muito pesado, mesmo, e, se você não prestar atenção, vai perder a profundidade com que as personagens são tratadas: T’Chaka é falível e seu filho, também; Killmonger não é mau e tem suas motivações, além de muita perseverança e uma complexa história de vida. Da mesma maneira, M’Baku (Winston Duke) tem uma honra assustadoramente inabalável, mesmo caso da Dora Milaje (nome das seguranças do rei de Wakanda) Okoye (Danai Gurira), que se opõe à rebeldia de Nakia (uma grande, forte e irreconhecível Lupita Nyong’o), nos mostrando a diferença entre “servir” um país e “salvá-lo”.

Mas é o filme do ano?

Como todo gênero de blockbuster, “Pantera Negra” não é extremamente profundo em seu discurso e suas discussões. Não é “Mãe!”. Mas também não é “Vingadores: A Era de Ultron”. Provavelmente, em questões de relevância de discurso, será o filme de super-herói do ano, sendo colocado ao lado das grandes surpresas do ano passado, “Logan” e “Mulher Maravilha”.

Definitivamente acima da média dos filmes da Marvel Studios no quesito roteiro, “Pantera Negra” põe a direção de arte dos filmes irmãos no chinelo. Um figurino lindo, cenografia bacana, um detalhismo fantástico e cores de fazer os olhos brilharem, sem a espalhafatosidade de “Thor Ragnarok”. Wakanda lembra mais a sutileza de um Star Wars do que o carnavalesco filme irmão. Longe do medo de Stan Lee e Jack Kirby (criadores da personagem), o filme é cheio de referências visuais ao Partido Panteras Negras. Outro aspecto legal é a fotografia, que é muito difícil de acertar num filme quase 100% CGI, como este. E fotografar a pele negra sempre foi um desafio para Hollywood e, isto, eles tiraram de letra. Aliás, ô casting bonito, não? Fazia tempo que eu não via tanta gente bonita junta na tela e a entrega dos atores em cena é espetacular. Desde Serkis e Duke, que fizeram de papéis mínimos algo divertidíssimo e maravilhoso de se ver, até a profundidade que Boseman, Jordan, Gurira e Nyong’o emprestam ao núcleo principal do filme, passando por Angela Basset (Ramonda, mãe de T’Challa) e Letitia Wright (a divertidíssima Shuri, irmã do protagonista).

O filme é um show de atuação, do começo ao fim. Mas o diretor fez muito mais do que seu excelente trabalho com atores. A medida entre planos-sequência, que mostram técnica e apuro com movimentos de câmera, e sequências de videoclipe, com cortes rápidos e planos curtos beira a perfeição. A trilha musical, diferente de quase todos filmes do estúdio, tem diversas composições originais e ajuda a pontuar o filme, sendo bem marcante.

Vale meu rico dinheirinho?

Vale, amigo, vale. Vale seu dinheiro, seu tempo… só vou pedir para não atrapalhar os outros com gritinhos histéricos por causa de homens sem camisa, okay? Vá ao cinema!

[rwp_box id=”0″]