Novo longa do diretor Charlie Kaufman, foi lançado na última sexta-feita (04/09), na plataforma Netflix, e deixou o público dividido pela dificuldade de entendimento do roteiro.

Estou Pensando em Acabar com Tudo | Crítica: filme mais pirado de 2020 |  Arroba Nerd

Na trama somos apresentados á um jovem casal, Jake e Lucy (que mais tarde ganhará outros nomes e você entenderá o porquê). Eles estão indo visitar os pais de Jake, que Lucy ainda não conhece. Interessante notar que neste ponto, a garota não lembra exatamente quanto tempo está namorando com Jake, embora pense que seja em torno de 6 semanas. Algo bem bizarro em um relacionamento relativamente novo.

No caminho ela tem vários monólogos intensos em sua cabeça, são pensamentos muito interessantes á respeito dela própria, de Jake, e de relacionamentos no geral. Além do fato de ela citar muito o tempo, por horas como um aliado e horas como um inimigo.

Os diálogos do casal são bem notórios. Entendemos que há algo errado naquela situação o tempo todo. A sensação de desconforto, principalmente da garota, é visível. Por mais que estejam viajando tranquilamente por uma bela estrada, rodeada por uma fotografia linda e repleta de neve do lado de fora, algo não está certo ali.

E é mais tarde que descobriremos (mas não claramente) o porquê de tudo parecer sempre deslocado, destoando daquela situação e ambiente em que eles estão. As coisas se repetem, o tempo passa de forma estranha (vezes devagar, vezes muito rápido) e nada chega a soar certo. Mas vamos então falar sobre o tempo.

 A QUESTÃO DO TEMPO

O tempo realmente apavora a todos nós, isso é uma questão completamente normal mesmo fora da tela do filme, em nosso cotidiano. Mas no longa de Charlie Kaufman o tempo é ainda mais assustador, e consegue ser muito bem trabalhado, resultando em um trabalho notável no fim das contas.

Lucy nunca tem certeza de há quanto tempo as coisas aconteceram. Ela está sempre em dúvida sobre quanto tempo se passou, ou quanto tempo faz dos acontecimentos em sua vida. Sempre confusa, é como se o tempo passasse tão depressa que ela nem pudesse ver ou lembrar disso. E mesmo com tamanha rapidez com que o tempo passa, nada muda em sua vida.

Em vários momentos do longa podemos notar o quão importante o tempo é neste roteiro. Os diálogos são ácidos e fortes, e sempre remetendo á passagem do tempo. De como a vida é frágil, de como tudo passa rápido e de como o cotidiano pode parecer tão comum a ponto de fazer com quem você nem veja sua vida passar.

O cotidiano aqui é tratado com delicadeza. Apesar de ser vendido como um terror, eu não encaro este como o gênero do filme. Ele possuí sim um suspense psicológico bem intenso, mas pra mim é na verdade um drama. Um drama que executa com maestria o lado mais sombrio do envelhecimento e da solidão, e talvez até mesmo da depressão, algo que é inevitável em uma vida tão solitária.

Mas esta solidão, este envelhecimento, se refere á quem na história? Afinal supostamente temos quatro personagens em tela.

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AS PERSONAGENS E O ENTENDIMENTO DA HISTÓRIA

*Pode conter spoilers á seguir.

Como eu comentei lá no início do meu texto, a suposta protagonista da história é Lucy, por sinal muito bem interpretada pela atriz Jessie Buckley (da minissérie Chernobyl), que tem uma das melhores atuações do longa, e olha que todas as atuações são muito boas.

Mas Lucy ao longo da história é chamada de outros nomes por Jake. Horas ela é chamada de Louisa, outras de Lucia, Ames e até de Yvone (nome da atriz de um filme que o zelador da escola está assistindo em um outro tempo na história, porque a linha temporal do filme é um pouco estranha). Logo falaremos sobre o zelador.

Mas afinal Lucy é a protagonista dessa história? Em diversos momentos tudo indica que sim, até porque a câmera a acompanha em primeira pessoa por boa parte do longa. Os ângulos apertados e focados em Lucy, o tanto que seu pensamento é exposto, tudo leva a crer que a moça realmente é a dona dessa história, e que toda essa “alucinação” seja da cabeça dela.

Mas lembra do zelador que falei logo acima? Muitos se questionaram quem ele é. Na minha visão da obra, ele é Jake no tempo atual, já idoso. Lembra que falei da linha temporal logo antes, que ela é um pouco estranha né?! Mas em determinado momento do filme ela vai ficando mais fácil de entender.

Lá no início o zelador abre seu carro e ao entrar tem uma sacola da sorveteria Tulsey Town no banco, local que depois é visitado por Jake e Lucy. Mais tarde Lucy vê os uniformes do zelador na máquina de lavar da mãe de Jake, em outra linha temporal. E vários outros pormenores que passam até desapercebidos mas que dão pistas de que o zelador é sim Jake, em outra linha de tempo na história.

Então o que se entende é que a história não é sobre Lucy e nem sobre Jake jovem, mas sim sobre o zelador (que é o Jake já idoso) e sobre suas memórias, lembranças e pensamentos. Ele é um homem solitário e sem perspectivas. É o retrato de uma pessoa cujo os sonhos não se realizaram, que os desejos não se concretizaram e que acabou se conformando com a vida de solidão que teve.

Lucy é apenas um pensamento seu, de uma namorada que ele nunca teve mas que gostaria de ter tido. Por isso ela ganha diversos nomes ao longo da trama, sendo o retrato de atrizes que ele gostava de assistir em seus filmes favoritos, de garotas que passaram por sua vida e ele nunca conversou, e até da própria mãe e do relacionamento conturbado com os pais. Lucy é inteligente, culta e graciosa, tudo aquilo que Jake gostaria de ter sido.

Mas Lucy também menospreza Jake no pensamento. Ela diz em certo momento que na realidade podemos fingir ou fugir de qualquer coisa, mas no pensamento não se pode fingir nada, não se pode fugir de um pensamento. E apesar de tentar ver algo positivo sobre ele, ela não conseguia esconder seus pensamentos negativos sobre aquela relação.

Ela pensa várias vezes sobre as qualidades que Jake possui mas acaba sempre o diminuindo por algum motivo, e isso é algo que o próprio Jake faz consigo mesmo, ele não consegue ver suas próprias qualidades provavelmente por uma depressão ou até pelo mau relacionamento que teve com os pais, a falta de aprovação do pai, que ele tanto almejava.

Lucy queria terminar com Jake o tempo todo, mas cada vez que ela tentava concluir sua frase “estou pensando em acabar com tudo”, ele a interrompia. Isso pode se referir á acabar com a própria vida, com a solidão ou com o relacionamento em si. Chega a soar agoniante ver que ela não conseguia terminar aquilo, porque claramente ela não estava satisfeita com aquela vida e relação. Isso também pode se referir á um relacionamento literal e não metafórico.

Lucy também tem diálogos onde fala sobre como os relacionamento tem prazo de validade, mas que as pessoas acabam permanecendo neles por comodidade, porque é mais fácil viver infeliz em uma relação do que mudar toda a sua vida e perspectiva para refazer sua história, e tentar ser feliz.

Na cena em que o casal vai á Tousey Town, Lucy vê uma versão de si mesma adolescente a alertando sobre a vida que ela terá a seguir, e que ela poderá permanecer ali não mudando nada em sua vida. Ali há também a representação das garotas que cometem bullying com o zelador na escola, talvez representando tanto as crianças que zombaram dele na infância, como as adolescentes que agora riem do Jake idoso enquanto ele trabalha como zelador na escola. Por isso ele não quer encará-las, ele tem medo daquelas pessoas, daquele sofrimento que elas o fazem sentir.

Os pais do Jake são representações do tempo. A mãe dele, muito bem interpretada pela ótima Toni Collette (do recente sucesso Entre Facas e Segredos), tem várias fases representadas em tela. Por vezes ela é jovem e recolhe os brinquedos do Jake criança, outras ela já está doente e tem zumbidos no ouvido, até que já está no leito de morte. Pode ter outras representações mas não irei adentrar, então minha interpretação sobre isso realmente é sobre a passagem rápida do tempo e o envelhecimento.

Tudo isso pode ser alucinação, pensamento ou metáfora. Mas dá sim para tirar de forma literal umas lições bacanas desses diálogos e monólogos todos, por mais metafóricos que sejam.

Eu também imagino Lucy como uma depressão de Jake, aquela melancolia e tristeza em seu sub-consciente. Sendo ela a doença em sua cabeça, o lembrando constantemente de tudo aquilo que ele quis ser mas nunca foi. Bem sucedida, aclamada, renomada e assim por diante. Ela o deixa mais e mais triste, e pensar nela é um tormento que ele não consegue evitar. Então a constante frase “estou pensando em acabar com tudo” pode significar a depressão tentando fazer com que ele tire sua própria vida o tempo todo, até que um lapso de memória sã dele sempre a interrompe e não permite que ela acabe com tudo.

Mas lembrando que isso são interpretações minha sobre á obra, e sendo este um filme difícil de entender (mas como eu disse é compreensível de diversas maneiras e cabível de várias interpretações), você pode analisar e entender a história de forma diferente, e gostar assim mesmo.

Ou também pode não gostar como muitos não estão gostando, seja por não entender, ou por não ter paciência para acompanhar a história e sua linguagem única, ou simplesmente porquê você não gostou mesmo do filme e não é seu estilo, afinal você não é obrigado a gostar de nada.

Mas sua qualidade é inegável, ainda que não agrade a grande massa, este é um filme muito interessante que possui uma atmosfera muito única, do mesmo tipo de outros filmes estilosos como “Sob a Pele” (2013), “A Bruxa (2015), “Mãe” (2017), “Herediário” (2018) e o menos conhecido “The Wind (2018), que não são necessariamente parecidos, mas que também possuem essa forma única de contar suas histórias, com fotografia e atuações marcantes, além de focar nos diálogos.

Novo filme de Charlie Kaufman 'Estou Pensando em Acabar com Tudo' -  07/09/2020 - Ilustrada - Fotografia - Folha de S.Paulo

A QUALIDADE INEGÁVEL DA OBRA E SUA CONCLUSÃO

O filme possui claramente muitas qualidades, principalmente técnicas. Ele tem um roteiro muito instigante que prende a atenção apesar de sua lentidão e melancolia, a fotografia como eu já comentei é deslumbrante, e as atuações são realmente marcantes, principalmente da suposta protagonista.

O roteiro é bem executado, apesar que poderia ter sido desenvolvido de forma menos confusa como o livro (que eu ainda não li mas já pesquisei á respeito). Acho que alguns acontecimentos na linha temporal afetam o apego que o público possa criar com á história. Tudo fica muito confuso e destoado, creio que de forma proposital, mas esse conceito é algo perigoso porque pode resultar em tédio e falta de interesse do público.

A partir do segundo ato parece que estamos assistindo á um sonho da forma mais surreal possível, e realmente ele brinca o tempo todo com a imaginação e com o surrealismo. Flerta com a realidade e o irreal o tempo todo, talvez por isso a confusão na linha temporal da trama.

O terceiro ato abraça de vez toda a metáfora da mente do protagonista, e entrega cenas como a da dança, que aborda o início de um relacionamento bonito e cheio de paixão, com a dança calma. E depois de como um relacionamento fica cansativo e até abusivo, com a dança agitada e melancólica. Fora o final que revela de vez como Jake sucumbiu á solidão. A neve também representa bem o frio da alma dos personagens, é tanto gelo que transborda a tela.

E por falar em Jake, ainda não mencionei mas o trabalho do ator Jesse Plemons também é notável. Assim como a atuação menos poderosa mas não menos importante do ator Guy Boyd, como zelador. Destaque também para David Thewlis como pai do Jake.

A história sobre os porcos, e eles sendo consumidos de dentro para fora também rende um debate bacana. As pessoas solitárias começam a morrer lentamente por dentro, para depois morrer fisicamente por fora, como os porcos?  Não sei dizer, mas acredito que a solidão consuma lentamente e tragicamente de qualquer forma.

Finalizando e salientando, o longa tem muito mais qualidades do que defeitos, então mesmo não sendo um filme perfeito ele é muito bom e merece a conferida. Se você gosta desse estilo de filme acredito que vá gostar de “Estou Pensando em Acabar com Tudo”. Um longa difícil mas compreensível de diversas maneiras, com muitas interpretações mas uma abordagem única: como a solidão destrói a vida de alguém.

Espero de verdade que você leitor, goste e possa compreender a minha visão sobre á obra. E também espero que assim como eu, goste do filme que já está disponível na Netflix, legendado ou dublado.