A Filosofia e o Niilismo presentes em “A Ghost Story”.

O cinema sempre foi palco para diversos estudos filosóficos, atraindo desde os movimentos mais populares, até as ideias pouco exploradas. A partir do momento em que os irmãos Lumière fizeram a primeira exibição pública, todos encontraram espaço dentro da sétima arte para expor os seus pensamentos e reflexões.

No entanto, não existe um conceito melhor explorado em tela do que o Niilismo. Sim, aquele famoso julgamento replicado por Friedrich Nietzsche no século passado (no qual o principal mantra é a negação e reconhecimento da fragilidade humana) que acabou se transformando em uma abundante fonte de inspiração para diversos cineastas dispostos a questionar o valor da existência em meio ao “nada” imposto por esse ideal.  Outro ponto importante na questão é o complexo estudo de personagem que ele propõe quando bem trabalhado no interior da narrativa, enriquecendo e apresentando diversas camadas aos protagonistas influenciados por tal convicção.

Recentemente o filme “A Ghost Story” levantou uma discussão a respeito de um recém criado termo que foi intitulado como “Pós Horror”, onde diversos críticos consideravam obras da nova geração de diretores do gênero pertencentes a uma classificação diferente dentro do cenário. Contudo, o que muita gente deixou passar despercebido foi o fato da trama escrita e dirigida por David Lowery ser profundamente niilista, até a sua medula.

Em determinada cena do longa, um personagem proclama um trecho do seguinte monólogo: “O universo continuará expandindo e eventualmente levará toda a matéria com ele. Tudo pelo que lutou, tudo o que você e algum estranho do outro lado do planeta compartilharam com um estranho do futuro num planeta diferente, sem nem saber, tudo o que te fez sentir grande ou poderoso, tudo acabará.” Nada mais pessimista em relação ao futuro da realidade que conhecemos, né? Na verdade, esse panorama apresentado é meramente o final catártico de tudo que o filme vinha apresentando até então, revelando sua verdadeira identidade que estava escondida através de um simples conto sobre fantasmas e o amor capaz de resistir a chegada da morte.

Durante os seus noventa e dois minutos de gravação, a câmera do diretor repousa diversas vezes para comtemplar a locação e exibir a maravilhosa fotografia assinada por Andrew Droz Palermo, na qual sustenta um olhar simplista e dolorosamente intimista sobre a rotina da jovem viúva interpretada por Rooney Mara. Ao mesmo tempo em que os flashbacks da vida do casal e takes do espírito de Casey Affleck perambulado pela casa geram um sentimento de impotência, digno de um texto do próprio Nietzche.

Ao final da experiência, a mensagem que fica ao subir dos créditos é que a nossa trajetória no planeta realmente é um sopro, garantindo que somos apenas parte de um universo infinito que irá nos esquecer com uma rapidez cruel e inescapável. O que nos resta é somente o agora, tão frio e palpável quanto a eternidade.

E você? Já assistiu “A Ghost Story”? Então corra pra ver essa belíssima produção que está disponível para streaming na plataforma Telecine Play.

Gabriel Martins

Gabriel Martins

Produtor de vídeos, colunista de cinema e publicitário.

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