Natal Sangrento | Como o Desejo de Lacrar Estragou o Potencial do Filme

Natal Sangrento (2019) é um remake do clássico Noite do Terror (1974), e do também já remake Natal Negro (2006).

aqui-tem-diversao-natal-sangrento | AQUI TEM DIVERSÃO

Militância e conscientização são sempre bem-vindos, mas não exagere a ponto de se perder. E o que Natal Sangrento fez em seu terceiro ato foi a coisa mais absurda que poderia ter feito, desperdiçando todo o potencial criado até sua metade, tudo na tentativa desesperada de lacrar. Mas falaremos disso depois.

O longa de terror dirigido por Sophia Takal começa bem interessante. Com uma boa atmosfera que se passa no Natal, rodeado de Neve, o primeiro ato é simples e típico de um slasher. Com a primeira vítima sendo apresentada de cara, o que acontecerá a seguir é bem previsível, e com a primeira cena de perseguição ficamos empolgados esperando que o restante do filme siga a mesma linha.

Infelizmente essa empolgação dura apenas na primeira metade do filme. Quando as mortes começam, percebemos que a diretora optou pelo tipo morte em off, onde o telespectador nem vê o que acontece com a vítima, o tipo de opção que me irrita muito em um filme de terror.

Quando assistimos um slasher não queremos muito, o que se exige é o básico. Mortes bacanas (que não sejam em off), boas cenas de perseguição, um assassino mascarado com motivação válida, e um final surpreendente que é sempre bem-vindo. Mas “Natal Sangrento” não segue nenhuma dessas opções, e muito menos se parece com os anteriores, que são infinitamente superiores.

Imogen Poots in Black Christmas (2019)

Boas personagens também fazem parte de um bom slasher. Mas aqui a diretora mais uma vez seguiu o caminho errado. De início somos apresentados á Riley, protagonista interpretada pela esforçada Imogen Poots que mesmo em um roteiro ruim destes, conseguiu se destacar e entregar uma boa atuação.

Riley, sofreu um abuso sexual dentro do campus universitário, e obviamente ninguém acreditou nela. A vítima? Uma mulher indefesa. O abusador? Um cara da alta elite da faculdade. Como acontece em diversas partes do mundo, a vítima não tem voz e acaba por se isolar o máximo que pode. Seja por vergonha ou medo, Riley assim como diversas mulheres reais vítimas deste tipo de crime, muda completamente sua forma de agir. Ela anda sempre acoada, parece sempre estar com medo de homens e de expor sua opinião e fica introspectiva até mesmo com suas amigas. Riley é de fato uma boa personagem, e sua militância é muito válida.

Kris, interpretada por Aleyse Shannon, também é uma personagem bacana, pelo menos de início. O que acontece aqui é que a diretora a usa para criar todo um discurso politicamente correto, feminista e militante, a fim de dar uma lição nos telespectadores masculinos. Mas isso não é bom? Sem dúvida alguma. Esse tipo de discurso é sempre válido, principalmente em um longa protagonizado por mulheres.

Aleyse Shannon in Black Christmas (2019)

O discurso é válido, a mensagem que tenta ser passada é importante e tentar ensinar homens brancos idiotas sobre a importância da mulher, do feminismo e do lugar de fala feminina é algo que eu sempre aprecio e dou crédito.

Mas o grande problema aqui é que a diretora se preocupou tanto com a lacração relacionada a isso, que esqueceu de aprofundar suas personagens para que se tornassem interessantes. E o pior de tudo, esqueceu do roteiro por sua metade, parecendo que na primeira parte é um filme e na segunda é outro totalmente diferente. É surreal o que acontece do segundo para o terceiro ato, parece mesmo que não estamos assistindo ao mesmo filme que começamos á uns 50 minutos atrás.

Ao contrário de seus filmes originais “Noite do Terror” (1974) e “Natal Negro” (2006) que seguiam a mesma trama, de uma fraternidade de mulheres sendo ameaçadas e mortas por um assassino em série, que se encontrava dentro da casa, e que também exaltava suas personagens femininas mesmo em uma época onde isso não era comum, este não faz com que você se importe muito com elas, além de Riley e Marty que causam certa empatia.

E não que as personagens não sejam boas. Elas até são, suas personalidades são interessantes e as atrizes dão conta do recado. Mas é o típico descaso em torná-las mais importantes e chamativas dentro da narrativa. Um exemplo disso é Marty, personagem de Lily Donaghue. Por mais que a atriz se esforce e possua bom desempenho, tentam fazer dela a “ovelha negra” do grupo por ter um namorado, e deixando com que a boa personagem tenha um fim irrelevante dentro da obra, para exaltar as que são solteiras e envolvidas em causas sociais. Um erro e tanto, para um roteiro que queria passar uma lição, não?! Mas Marty, saiba que eu adorei você e torci por sua sobrevivência, mesmo em um filme que não cause tanta empatia a ponto de fazer você se importar com alguém.

Lily Donoghue in Black Christmas (2019)

Nos filmes antigos as personagens eram tão bacanas que você torcia por cada uma delas, além de possuir um elenco de puro carisma. Aqui além disso, ainda há o fato de que a história foi totalmente mudada. Eu acho válido repaginar e atualizar para os tempos modernos uma história, mas mudar completamente perde todo o sentido da coisa, pelo menos pra mim. Quem sabe se utilizasse outro nome e roteiro, este podia ser tão divertido quanto o original e primeiro remake. Mas se utilizando do nome e tentando criar um roteiro em cima dos outros, sendo que a trama é totalmente diferente, sem o tal assassino dentro da casa, perde todo o charme da história.

Este nem se passa apenas em uma noite, e muito menos se passa todo dentro da fraternidade, e creio eu que a diretora não pensou, que essa simplicidade toda era justamente o que os tornavam tão bons. Aquele clima de frio e claustrofobia presente nos anteriores não é transmitido aqui, talvez por não se passar apenas em uma noite, e totalmente em uma locação.

A resolução do ato final é vergonhosa de tão insana e mal executada. O roteiro como eu já disse começa de um jeito e termina de outro, finalizando o filme da pior maneira possível. O que antes era um assassino em série, aqui se torna algo bizarramente ruim, que eu nem posso mencionar para não soltar spoiler, mas tenho certeza que não te agradará.

A militância quando bem apresentada resulta em ótimos trabalhos, como é o caso do recente “O Homem Invisível”, estrelado pela talentosa Elisabeth Moss, que consegue passar uma mensagem feminista forte e empoderada, sem cair no ostracismo. Mas quando mal trabalhado resulta em vergonha alheia.

A produção também não é das melhores, além das mortes em off, tem cenas bem mal filmadas, com uma imagem um tanto granulada, nem parecendo ser um filme de 2019. Algo que surpreende de forma negativa por ser da Blumhouse, mesma produtora de Halloween (2018) e Corra (2017), dois sucessos recentes com ótimas produções.

No elenco ainda temos o veterano Cary Elwes, Brittany O’Grady e Madeleine Adams. E como ponto positivo a fotografia charmosa, típica do Natal americano, com muita neve e casas enfeitadas. Trilha sonora não é muito marcante mas não compromete em minha opinião.

Sobre a trama já disse tudo que precisava dizer, como filme de terror falha miseravelmente por não ser nem ao menos divertido. Não tem mortes, não tem perseguições, não tem gore e nem mesmo motivação suficiente para toda aquela droga que é apresentada em tela. No próximo Natal, se você procura uma diversão natalina fora do convencional, este “Natal Sangrento” definitivamente não é o que você procura.  Opte por clássicos como o “Natal Sangrento” lá de 1984 ou até o remake de 2012, ou pelo original e primeiro remake deste aqui, que valem muito mais a pena.

Giovani Otta

Giovani Otta

Nascido no Rio Grande do Sul, com 24 anos, empresário e estudante de letras, Giovani tem paixão por cinema e TV e planeja escrever no futuro. Apesar de já ter escrito um livro, ainda não lançado, ele planeja ingressar nessa carreira de escritor, além de crítico de cinema, e dar aulas de português para crianças.

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