Nunca é fácil escolher apenas um quadrinho para ser seu  franco favorito. Imagina escolher só 20 que fizeram história, então?

E quando digo “só 20”, é porque é extremamente difícil selecionar apenas 20 obras, de bilhões e bilhões de publicações em jornais, revistinhas e livros, e condensá-las em um artigo. São mais de 120 anos de historinhas, dos mais diversos e diferentes tipos, partindo dos quadrinhos pulp dos anos 30, chegando nos super-heróis, e até às publicações underground atuais. É claro que esta lista não vai agradar a todos, mas certamente foi feita com muita pesquisa, suor, sangue e lágrimas (Mentira! Não está fazendo calor para suar. Faz mais de uma semana que estamos vivendo uma era do gelo em São Paulo. Mas a parte da pesquisa é verdadeira). Sem mais enrolações, segue a lista!

 

1- A primeira tira de Mickey Mouse – 1930

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Um rato falante – uma ideia simples, porém, cativante – foi responsável por tornar um nome conhecido no mundo todo: Disney. Um filho de fazendeiros de Chicago imortalizou seu nome com filmes, quadrinhos e animações, presentes na infância de crianças até hoje. Um império, hoje, dono de empresas como Marvel, Lucasfilm e Pixar. Chega até a ser irônico. A tirinha, publicada em 13 de janeiro de 1930, introduziria no meio dos quadrinhos o ratinho que mudaria o mundo para sempre.

 

2- Action Comics 1 – 1938

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O primeiro e maior super-herói, que certamente dispensa apresentações. Superman: o alienígena que vestia (ainda veste?) a cueca por cima da calça, criado pela humilde dupla Jerry Siegel e Joe Shuster. Sem ele, não teríamos Batman, boa parte do panteão de heróis da DC, e certamente, da Marvel, criados para bater de frente com sua influência. A revista de 13 páginas, que custava míseros 10 centavos, foi responsável por catapultar o mercado de revistas infanto-juvenis, e iniciar a grande Era de Ouro (1938-1956) de super-heróis que se seguiu à frente. Foi a primeira HQ dp super-herói baseado em filosofias nietzschianas e no messianismo. Mas isso é história para outro dia…

 

3- Detective Comics 27 – 1939

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É claro que ele não poderia ficar de fora. Batman, o xodó da DC e dos fãs. É um homem vestido de morcego que combate o crime. Precisa falar mais alguma coisa? O herói criado para ser o oposto de Superman, representando as trevas e a escuridão. Enquanto o Superman lutava contra alienígenas invasores e catástrofes mundiais, o Batman lutava contra ladrões de rua e vilões assassinos e maquiavélicos. É assim que se chama a atenção de jovens por mais de 80 anos, e se torna o maior ícone de uma editora.

 

4- Primeira aparição de Spirit – The Sunday Star – 1940

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Will Eisner não poderia ficar de fora em hipótese alguma. O gênio, adorado em todo o mundo, por suas narrativas e desenhos apaixonantes, é inigualavelmente o maior nome da indústria dos quadrinhos, seja por criações como The Spirit, ou por seus livros, desenhos e obras únicas. The Spirit, seu maior e mais marcante personagem, um simples detetive, ainda é valorizado e lembrado, tendo até servido de inspiração para autores como o Maurício de Souza, por exemplo. As suas sequências de quadros, e a sua beleza gráfica, até hoje são objeto de estudo para aspirantes a desenhistas.

 

5- Captain Atom |  Astro Boy – 1952

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É impossível falar de quadrinhos e não citar mangás. E é impossível esquecer de Osamu Tezuka ao se falar de mangás. O homem que popularizou os mangás no Japão, e deu vida a personagens como Astro Boy, sua maior criação, a princesa Safiri, Kimba, e inúmeras outras criações que até hoje são reais obras-primas, é mais um dos gênios que merecem um lugar no hall de honra dos quadrinhos (Se você não acha que mangá é quadrinho, problema seu!).

 

6- Showcase 4 – 1956

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Dando o pontapé inicial da Era de Prata (1956-1970), a reformulação do Flash, antigo Jay Garrick, para o cientista forense Barry Allen, possibilitou o surgimento de novos heróis e vilões para o mundo dos quadrinhos, e iniciou uma época muito saudada, e ao mesmo tempo, odiada, por diversos fãs de quadrinhos. A Era de Prata presenteou-nos com incontáveis pérolas, como o Batman arco-íris, o Superman que carrega uma corrente de planetas (sério!), a fundação da Liga da Justiça, e a ascensão de uma editora a muito tempo esquecida, conhecida hoje como… Marvel Comics!

 

7- Fantastic Four 1 – 1961

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O que seria da Marvel sem o Quarteto Fantástico? Nada. A última cartada de um fracassado roteirista, na época conhecida como Stanley Lieber, ou Stan Lee, ascendeu uma editora que estava à beira da falência à grande potência dos quadrinhos. O grupo chamou a atenção dos jovens leitores, e o seu rápido sucesso permitiu a criação de personagens como o Hulk, Homem de Ferro, X-men, Homem-Aranha, e todo um rol que hoje é essencial para os fãs. Sejam gratas ao Quarteto, crianças!

 

8- Flash 123 – 1961 

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Ah, o Multiverso… hoje um assunto que traz tanta polêmica e dor de cabeça para os fãs… lembram do Jay Garrick? Bom, os antigo leitores estavam constantemente questionando o editoral da DC o que havia acontecido ao personagem para ele simplesmente sumir das revistas, e um novo Flash assumir. Ele era de outra Terra. Simples! Enquanto Barry Allen era da Terra-1, Jay Garrick era o Flash da Terra-2, junto com a Sociedade da Justiça. Com uma história simples, a DC não sabia o monstro que estava criando, dando origem a um conceito que hoje, é extremamente comum, criando um infindável Multiverso, com uma Terra mais bizarra que a outra, e levando à epopeica Crise nas Infinitas Terras… assunto para mais tarde.

 

9- Amazing Fantasy 15 – 1962

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O aracnídeo, cabeça de teia, chame ele do que quiser! O Homem-Aranha, um dos personagens mais queridos da Marvel, de maior sucesso, e de grandes histórias. Ainda nos dias de hoje, o Homem-Aranha é de grande afeto entre as crianças devido às suas histórias simples, divertidas, e sua personalidade que cativa o leitor. Peter Parker é “gente como a gente”, é um personagem extremamente humano, se configurando como um dos gigantes do panteão de heróis Marvel.

 

10- Green Lantern 76 – 1970

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Ah, a Era de Bronze (1970-1986)… uma das minhas favoritas. A Era que trouxe a essência dos heróis de volta, e ao mesmo tempo, apresentou novos. Na edição 76 do título do Lanterna Verde, Oliver Queen, o Arqueiro Verde (é muito verde, verde, verde, socorro!), convida o patrulheiro espacial à uma roadtrip pelos Estados Unidos. Isso mesmo. Pode parecer estúpido, mas há um contexto muito maior por baixo dos panos; os dois heróis se encontram após o Lanterna confrontar um dono de imóveis que estava expulsando seus inquilinos para construir um estacionamento. Com o desenvolver da história, o roteirista Dennis O’Neil trata ainda de questões como racismo, política, abandono social, e assim, o Arqueiro consegue convencer o patrulheiro a conhecer melhor seu país, junto com um Guardião do Universo de Oa. A história, um clássico, ainda possui um contexto extremamente atual, e ao tratar de temas sérios e polêmicos, que não eram comuns na época, iniciou a magnífica Era de Bronze dos quadrinhos.

 

11- The Saga of the Swamp Thing 20 – 1984

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A Invasão Britânica dos quadrinho acaba de começar! E não poderia ter começado de forma melhor. Um tal de Alan Moore, nascido em Northampton, Reino Unido, tinha sido convidado para ser roteirista da DC, mais precisamente do Monstro do Pântano, título que estava caindo aos pedaços. Depois de trabalhar na 2000 AD, principal revista de quadrinhos inglesa, na Marvel U.K,  e criado trabalho autorais como A Balada de Halo Jones, o escritor revolucionou o personagem, novamente, com temas como ecologia, poluição, e principalmente, terror, o fator principal das revistas do Monstro do Pântano. Além de tornar o personagem extremamente cativante, e um dos preferidos deste que vos fala, o britânico possibilitou a entrada de mais artistas e roteiristas da terra da rainha no mercado americano, como Neil Gaiman, Grant Morrison, Dave McKean, e Jamie Delano. Mas ele ainda não tinha nem chegado perto de sua maior obra…

 

12- Crisis on Infinite Earths 1 – 1985

É o fim! É o começo! Nada foi o mesmo no universo DC depois de Crise nas Infinitas Terras. A megassaga, possivelmente, a maior da editora e dos quadrinhos, reiniciou a cronologia DC depois de 50 anos. A cronologia até 1985 é chama de Pré-Crise, e de 86 até 2011, Pós-Crise, de tão importante e impactante. Foram necessários 4 anos de estudos, para reunir todos os heróis do universo DC e acabar com eles. Com milhares de Terras, em um Multiverso que os próprios leitores não conseguiam acompanhar, o reebot permitiu a chegada de novos leitores, e novas histórias de origem para os super-heróis, como Batman Ano Um. O vilão Antimonitor devorou todo o Multiverso, permitindo que apenas uma única Terra existisse, sem confusões cronológicas. Surgiu o novo Flash, Wally West, o Superman era o único kryptoniano mesmo, tudo estava organizado para uma nova cronologia que se seguia a frente.

 

 

13- Maus – 1986

Cover of the first volume of Maus

Calma, leitor assíduo e fanático! Eu sei que a primeira vez que Maus foi publicado foi em 1980. Mas a edição que realmente abalou o mercado foi publicada só em 1986, compilando os seis primeiros capítulos desta pedra angular. Maus é mais um dos quadrinhos que chacoalharam a indústria e permitiu o surgimento do que eu gosto de chamar de a Era das Trevas (1986-2016), e mostrou que os quadrinhos não são só obras infanto-juvenis. Com um relato histórico baseado em fatos reais, Maus aborda a vida de Vladek Spiegelman, judeu sobrevivente do regime nazista na Polônia, durante a Segunda Guerra Mundial. Maus mostrou que quadrinhos também são para os adultos, e têm um potencial muito maior do que simplesmente super-herói x vilão. Maus é um dos quadrinhos da tríade responsável por revolucionar a indústria de HQs em 1986, ano histórico.

 

14- The Dark Knight Returns 1 – 1986

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O segundo quadrinho da tríade que revolucionou a indústria de HQs em 1986, é a obra máxima de Frank Miller, e possivelmente, a maior história do Batman. Um clássico absoluto e essencial para qualquer fã. Além da história épica e incrível, de lutas com o Coringa e o Superman, O Cavaleiro das Trevas encerrou de vez a temática infanto-juvenil que a Era de Prata havia dado ao Morcegão, revitalizando o Batman taciturno e sombrio às suas origens da Era de Ouro. Além de ser um marco para o Cruzado Encapuzado, a história é mais uma das que instigaram a curiosidade nos adultos ao fazer críticas políticas e sociais, e tornaram os quadrinhos uma arte.

 

15- Watchmen 1 – 1986

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A maior. A fenomenal. O suprassumo dos quadrinhos. Watchmen. A minissérie que desconstruiu heróis, mostrou a verdadeira face do mundo, e iniciou de vez a Era das Trevas. Uma trama simples: A investigação do assassinato do Comediante, antigo integrante dos Watchmen, porém, extremamente complexa ao mesmo tempo. Seus personagens são falhos, a humanidade é falha, o mundo está acabando. Alan Moore escreveu uma obra que, além de imortal, merece ser estudada profundamente, como literatura mesmo. Não cabe em um compilado das histórias que mudaram os quadrinhos analisar tudo de Watchmen. A obra catapultou Moore para a indústria das HQs, e tornou-o tão conhecido como é hoje. Watchmen é a última HQ da tríade que mudou a história. É a obra máxima dos quadrinhos. É tudo isso e mais um pouco.

 

16- Sandman 1 – 1989

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Mais uma obra prima. Sandman, de Neil Gaiman, foi o quadrinho que antecedeu a criação da Vertigo, selo adulto da DC Comics, e ainda originou um universo extremamente fascinante e inovador. Morpheus, o Senhor dos Sonhos, rei do Sonhar, responsável pelas sonecas, pesadelos e cochilos de todos os seres. Sandman ainda aproximou quadrinhos da literatura clássica, com passagens de autores como William Shakespeare e John Milton, autores britânicos. Seja por sua genialidade, seja por seus personagens, seja por sua história, Sandman é um marco essencial dos quadrinhos, um clássico vital para a história.

 

 

17- Superman 75 – 1993

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A morte que matou todas as mortes! Sim, nenhuma morte de super-herói ou vilão dos quadrinhos foi a mesma depois desta. A morte do primeiro super-herói, do maior, do invencível Superman. Morto pelo kryptoniano Apocalypse, em uma batalha estarrecedora, Kal-El salvou o mundo de uma ameaça incontrolável. Até morrendo ele serviu ao mundo. Estima-se que só essa HQ tenha vendido 3 milhões de cópias. Apareceu até nos jornais, sério! Foi um momento abalador da época. Claro, a sua morte não poderia durar pra sempre, mas naqueles tempos, um super-herói ser ressuscitado era inimaginável. O seu retorno, um ano depois, iniciou uma “onda” muito comum atualmente: matar um herói por nenhum motivo e ressuscitá-lo pouco tempo depois. Quer exemplos? Batman. Flash. Lanterna Verde. Wolverine. Todos ressuscitados. Além de abalar o mundo inteiro, Superman iniciou uma grande jogada de marketing…

 

 

18- Avengers 500 – 2004

Avengers Vol 1 500

A queda! O fim definitivo dos Vingadores, mais de 30 anos depois de sua criação. E as baixas foram significativas: Gavião Arqueiro, Scott Lang, Visão e a sanidade da Feiticeira Escarlate, que coordenou um ataque à mansão dos Vingadores. Destruindo completamente a mansão, acabando com a credibilidade dos Vingadores na ONU, e orquestrando uma pequena invasão Kree, as estruturas do heróis mais poderosos da Terra foram completamente abaladas. A Mulher-Hulk desistiu. O Homem-Formiga, Hank Pym, e Janet, a Vespa, desistiram também. Tony Stark não poderia mais financiar os Vingadores. E sem apoio global, era o fim definitivo. Com o curto arco, Brian Michael Bendis iniciou o que seria a popularização dos Vingadores no século XXI, com histórias mais bem escritas e com tramas mais chamativas. O fim dos Vingadores permitiu um brilhante novo começo para a equipe, e para a Marvel.

 

 

19- Civil War 1 – 2006

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“Dividir para conquistar”. Uma frase simples, porém, que faz total sentido. Ainda mais quando se divide heróis! Guerra Civil é uma das histórias mais aclamadas da Casa das Ideias, e briga fortemente pelo título de maior história. O que fazer? Se registrar no governo com super-herói e ter toda sua vida pessoal exposta, ou lutar pelos ideais iluministas americanos? Para Steve Rogers, ou Capitão América (avá!), nenhum ser humano deve ficar de joelhos para alguém sem livre espontânea vontade. Do outro lado, um Homem de Ferro que abraça seu governo e a ordem. De que lado você está? Além de ser uma fantástica histórica, Guerra Civil trouxe a Marvel de volta à briga pela concorrência editorial, e ocasionou eventos ainda mais cataclísmicos, como a morte do Capitão América, a ascensão de Tony Stark à direção da SHIELD, e uma divisão e heróis jamais vista.

 

 

20- DC Universe Rebirth – 2016

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Finalmente, o Renascimento! A volta dos heróis clássicos, o fim dol questionável Novos 52, o retorno da esperança, o fim da Era das Trevas! Ora, se nós tivemos a Idade das Trevas na vida real, seguida do Renascimento, por que não ter nos quadrinhos também? Depois de 30 anos de heróis sombrios, mortes excessivas e desnecessárias, a DC integra a cronologia Pós-Crise aos Novos 52 e “devolve” heróis esquecidos aos leitores (alô, Wally West!). O Superman não é mais mal-humorado. Ele sorri. Ele tira gatinhos de árvores. O clássico vence o incerto. DC Renascimento provou que é possível iniciar um novo ciclo sem mortes desnecessárias, sem super-heróis descaracterizados, e principalmente, respeitar os fãs. Renascer é importante, e faz bem.

 

Ufa, que trabalho. Como eu havia dito, não é fácil resumir 120 anos de histórias em 20 momentos únicos. E claro, grandes momentos ficaram de fora. Vale menção honrosa à primeira aparição do Capitão América em 1940, à criação da Liga da Justiça em 1960, e finalmente, à primeira edição de Flashpoint em 2011. Ficou provado, com os anos, que quadrinhos, muito além de uma diversão, são uma arte que deve ser respeitada. Por isso é tão interessante e satisfatório conhecer a história do gibizinho que você está lendo, não?

Quadrinhos também são literatura!