1º Festival de Cinema Russo – Crítica: O Coração do Mundo | Uma obra ingênua, mas de qualidade técnica irrevogável

Os laços criados entre animais e seres humanos perduram desde o início dos tempos, sempre denotando como muitas vezes um depende do outro para sobreviver, e com a evolução da nossa espécie, vemos como somos mais dependentes emocionalmente do que fisicamente. O Coração do Mundo, resolve colocar essa questão à enésima potência em filme extremamente pessoal e singelo.

O filme conta coma a direção de Natalya Meshchaminova (Arritmia), que também assina o roteiro, junto com dois outros nomes: Stepan Devonin (A Fábrica de Esperança) e Boris Khlebnikov (Arritmia), e conta a história de Egor, um veterinário que trabalha em uma escola de treinamento de cães de caça, em uma fazenda extremamente afastada, cuidando e vivendo junto com uma variedade bem grande de animais. Ele mora em uma extensão adjacente à casa do chefe, curando animais, limpando gaiolas e atendendo clientes. Apesar de se sentir mais à vontade com os animais do que com os seres humanos, Egor faz de tudo para se aproximar ainda mais da família de seu chefe.

A sinopse do filme é extremamente simples, e não traz muitas surpresas, pois se trata realmente de uma história singela de um rapaz misterioso, mas igualmente gentil e prestativo, em seu dia a dia mais do que rotineiro.

O grande trunfo do roteiro fica encima do passado do protagonista, que aos poucos é revelado e tem uma grande importância para o plot final da história, o que acaba desencadeando uma série de eventos que mostram o quanto ele era importante para todos ao seu redor.

O roteiro se centra em uma lealdade ingênua, e que apesar de ser posta à prova em praticamente todo o momento, não representa um desafio em si para o personagem. Mesmo quando ele é deparado com os chamados “verdes”, um grupo de jovens que defendem os animais dos maus tratos patrocinados pelo chefe do protagonista, que usa raposas para treinar os cães, o personagem central não se abala em nenhum momento, mesmo quando isso poderia dar um nuance mais profundo para a trama, mas é simplesmente deixado de lado, e acaba se tornando até uma “barriga” para o filme.

A direção se vale de uma atmosfera totalmente intimista para contar a história, o que é uma cartada acertadíssima para a proposta do filme, que em alguns momentos, você se pega achando que está vendo um documentário. A edição de som, faz um trabalho realmente brilhante para criar uma sensação de intimismo com a obra, em muitos momentos (principalmente se você estiver de fones de ouvido), parece que você está dentro da história, ao lado do protagonista. Os barulhos da fazenda e da floresta, acabam se tornando até mesmo uma trilha sonora para o longa, que é completamente desprovido de qualquer som antinatural, o que é bem lógico, considerando a proposta do longa.

As tomadas de câmeras completamente tremidas e que se movimentam de uma forma completamente aleatória, ajuda na composição desta atmosfera, fazendo com que você tenha a sensação de estar realmente acompanhando o personagem central aonde quer que ele vá. Isso unido a uma fotografia completamente baseada em iluminação natural, dá essa sensação de intimismo que é invocada de uma forma tão orgânica e sutil.

As atuações também ajudam bastante, Stepan Devonin, esposo da diretora, consegue dar nuances mesmo que imperceptíveis muitas vezes ao personagem central, transitando de uma calma serena para um turbilhão de emoções em espaços de plano sequências longos, de uma forma orgânica e muito bem comedida.

O núcleo de atores coadjuvantes também é muito competente, com destaque para Dimitriy Podnozov (Sete Homens Invisíveis), que faz o contraponto do personagem central, ao se mostrar alguém extremamente expressivo, ao ponto de ser grosso muitas vezes, e nada comedido, com uma competência realmente interessante.

O longa foi indicado para três prêmios Nika no ano de 2019, como Melhor Ator com Stepan Devonin, Melhor Ator Coadjuvante com Dimitriy Podnozov e Melhor Edição para Dascha Dalinova.

O Coração do Mundo, é uma obra que não foi feita para todos os públicos, pois se trata de uma trama singela e sem muitos nuances impactantes, fazendo com que se torne bem parado, mesmo sendo extremamente honesto ao tratar relações e comportamentos humanos, de uma forma tão natural. A magia do longa fica ao encargo da parte técnica do filme, que mostra o quanto uma edição pode ajudar um filme, ou até mesmo arruína-lo.

Kauê Medeiros

Kauê Medeiros

Amante de filmes e quadrinhos desde que me conheço por gente, existindo numa vida dirigida pelo Stanley Kubrick e roteirizada pelo Grant Morrison.

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