
Uma história de horror sempre contou com seus elementos característicos que são marcantes para qualquer um: o Monstro, a moça jovem de aparência encantadora que é apaixonada pela abominação (ou geralmente é vítima dele) e os seres que querem deter ou caçar tal criatura pelo simples fato dela ser “diferente”. Estes tipos de narrativa já estão mais do que saturados em diversas mídias o que torna a coleção republicada pela Panini Comics: A Saga do Monstro do Pântano, agora em sua segunda edição, uma das obras mais instigantes da indústria de quadrinhos, pois apesar de sua idade longeva, ainda consegue entreter, aterrorizar e encantar os leitores mais ávidos.

Escrita por Alan Moore (V de Vingança) e Len Wein (House of Secrets), conta com a arte de Sthephen Bissette (Heavy Metal), John Totleban (Universo X), Shaw McManus (Tom Strong), Rick Veitch (Supremo), Alfredo Alcala (Hellblazer), Ron Randall (Future Quest) e Bernie Wrightson (Creepy) e colorida por Tatjana Wood (Questão: O epitafio do herói), a história parte imediatamente de onde o primeiro volume terminou, contando a história de um enterro simbólico para Alec Holland, fazendo com que fique claro que a ideia de Wein e Wrightson acabe por ali e comece de vez a fase de Moore no título. Após este pequeno conto, nos vemos face a face com um dos melhores arcos até a presente fase de republicação, denominado: Trilogia Arcane, que apesar de ser abordada nas edições de The Saga of the Swamp Thing do nº 29 ao nº 31, tem seu verdadeiro final em Swamp Thing Annual nº2.
Logo após vemos uma invasão alienígena de uma raça completamente diferente da nossa, tentando explorar nosso mundo, o que nos leva a uma profunda reflexão sobre o que estamos fazendo com o nosso planeta e a verdadeira natureza selvagem do ecossistema da terra. Na época, para que os roteiristas e desenhistas tivessem tempo para trabalhar em arcos e edições mais elaboradas, era comum vermos republicações de velhas histórias para que houvesse um “tapa-buraco” editorial entre uma mensal e outra, Monstro do Pântano não fugiu à regra. Recontando um velho conto de Len Wein e Bernie Wrightson sobre Abigail Arcane ir parar direto na terra dos sonhos aonde encontra dois dos personagens mais famosos da Vertigo. E por fim, mas não menos importante, vemos Abigail experimentando uma fração da consciência do verde que o Monstro do Pântano tem, resultando em uma narrativa psicodélica, mas extremamente romântica em seu proposito central.

Mais uma vez vemos Alan Moore experimentando diferentes formas de se contar uma história, as narrativas impostas por ele passam desde um thriller sobrenatural altamente aterrorizante, uma viagem pelo além-vida, visitas extraterrestres e um conto psicodélico romântico, sendo que o mais interessante entre estas formas de narrativa é justamente o padrão de qualidade que jamais cai, surpreendendo quem lê pela primeira vez e encantando ainda mais quem revisita a obra. A cada história podemos acompanhar a evolução de Moore como roteirista, uma sensação realmente única para colecionadores e fãs de quadrinhos.
A arte não fica por menos, apesar deste volume contar com bem mais artistas do que o anterior, os desenhos acompanham de forma surpreendente a narrativa e conseguem cumprir de forma eximia o papel de fazer o leitor imergir dentro da história, causando sensações arrepiantes e muitas vezes reflexivas sobre o tema abordado em cada edição, seja na descida do personagem central ao inferno e contemplando as planícies perturbadoras do Hades, na experiência surreal de Abigail Arcane na consciência coletiva do verde ou até mesmo a mesma agachada coberta por insetos com um misterioso esfregão ensanguentado ao seu lado, transpassando a emoção das imagens de forma muito rara de se ver em diversas outras obras desta indústria.
De diversas formas, ler A Saga do Monstro do Pântano é um desafio, pois trabalha com muitos temas ousados para a época e mesmo que seja abordado hoje em dia, é mostrado de um jeito tão nu e cruel que é impossível não marcar o leitor de alguma forma, o tirando de forma violenta da sua zona de conforto e o jogando em um mundo repleto de horrores e maravilhosos pequenos detalhes, tão preciosos, que passam despercebidos por nossa rotina diária. Os personagens aterrorizantes trabalhados em cada uma das histórias possui uma carga emocional tão bem lapidada que é impensável não acabar se apaixonando por cada um deles de forma especial.

Republicada mais uma vez em capa cartão, desta vez em papel LWC, o volume dois desta maravilhosa fase da indústria dos quadrinhos está realmente linda, compensando a aquisição, mesmo com a Panini, colocando mais uma vez, preços de capa altamente abusivos e surreais, se perdeu a primeira publicação, corre para garantir essa maravilhosa coleção, que com toda a certeza é uma obra obrigatória para estar na estante de qualquer fã desta mídia.