
Quadrinhos ainda é uma mídia que sofre muito preconceito perante a sociedade, mas existem obras que se forem lidas, com toda a certeza iriam mudar a cabeça de muitas pessoas, esta história é uma delas. Além de ter uma narrativa revolucionária para os padrões da época, consegue implementar novos personagens na mitologia do universo DC (incluindo um certo mago trapaceiro inglês, mas isso é história para uma outra crítica, que não está tão longe assim). Com toda a certeza A Saga do Monstro do Pântano é uma das histórias mais significativas de toda a indústria até hoje.
O Monstro do Pântano foi um personagem criado por Len Wein (X-men: Segunda Gênese) e Bernie Wrightson (Batman vs Aliens), na famosa House of Secrets nº92 lançada em julho de 1971, o sucesso do personagem dentro da revista foi tão grande que ganhou um título solo encabeçado pelos seus próprios criadores: Swanp Thing nº1 publicado em outubro de 1972. Como grande parte dos quadrinhos na época dos anos 70 estavam passando por uma forte reformulação graças ao enfraquecimento do Code Comics Authority adotado em 1954, como uma forma de censurar alguns conteúdos considerados “inapropriados” para o público infanto-juvenil, a DC Comics então viu uma oportunidade de inovar e começou a procurar artistas promissores na Europa para escreverem seus títulos e assim dar o pontapé inicial para a Invasão Britânica nos quadrinhos
Os elementos narrativos utilizados dentro desta revista foram revolucionários para a época, nunca nenhum escritor tinha ousado tanto em título de uma editora tão grande, se valendo de conceitos de terror para falar de preconceito, violência doméstica, traumas e entre outros assuntos que até então eram impensáveis de serem abordados dentro desta mídia. A liberdade que a DC Comics deu para Alan Moore em muito se deve ao método de trabalho na Grã-Bretanha, aonde essa censura era inexistente. Para termos um parâmetro: V de Vingança, o grande símbolo de luta contra o governo, já estava sendo publicado dentro do título Warrior de enorme sucesso na Europa.

Mas falando sobre a história, escrita pelo gênio dos quadrinhos Alan Moore (Watchmen) e desenhado pelos artistas Stephen Bissette (Teen Angels & New Mutants (inédito no Brasil)), John Totleban (Universo X), Dan Day (Quasar) e Rich Veitch (Supremo: O Retorno), que também conseguiram se manter no nível da narrativa, conta a continuação de um arco escrito por Len Wein na edição de nº19 da revista, aonde após uma batalha contra seu inimigo: Anton Arcane, que acaba caindo com seu helicóptero na mata e vindo a óbito, o Monstro do Pântano se separa de seus amigos: Abigail Arcane, Matt Cable, Liz Tramayne e Dennis Barclay, para achar o corpo de seu nêmeses sem nem imaginar que a organização Sunderland está em seu encalço e o acaba capturando, dando início a um dos melhores edições do encadernado e talvez da fase de Alan Moore no título.
Lição de Anatomia presente na edição de nº 21, é um conceito simplesmente fantástico de desconstrução de um herói e ao mesmo tempo amarrar as pontas soltas de seu passado, para reconta-lo, aqui somos apresentados ao Homem-Flôronico, que estuda o ser pantanoso e sua descoberta acaba abalando profundamente Alec Holland. O encadernado ainda conta com uma história sobre um ser infernal que usa o medo das crianças traumatizadas aonde Abigail trabalha para se tornar mais forte, então ela chama o Monstro do Pântano para ajudá-la. Esta aventura conta com a participação do Demônio Etrigan.
Alan Moore com toda a certeza é um dos escritores mais prolíficos da indústria de quadrinhos mundial, suas obras são aclamadas e servem de inspiração para diversos autores até os dias atuais. Neste encadernado, sua narrativa se mostra capaz o suficiente para encerrar uma fase e iniciar outra de forma tão orgânica, aparentando que Moore escreve para o título a muito tempo. Seus conceitos arrojados e inéditos para a indústria americana se provam como algo que os fãs da época realmente ansiavam ter em mãos. Em muitos momentos, fica nítido que esta obra foi um campo de testes para o escritor que usou e abusou deste espaço para criar uma variada gama de aventuras com o ser pantanoso, todas inesquecíveis e memoráveis para os fãs.

Essa obra não seria tão grandiosa se não fosse trabalhada a altura pelos grandes desenhistas que o acompanharam ao longo deste encadernado: Bissette, Totleban, Day e Veitch, realmente entram de cabeça nas ideias de Moore e fazendo uma sincronia impressionante e impactante com a narrativa, transformando a leitura em uma experiência totalmente inebriante e única.
Esta republicação foi muito pedida pelos fãs que perderam a primeira série de encadernados ou então que solicitaram um tratamento melhor com papel LWC, já que a qualidade é irrevogável nos encadernados do Hellblazer que foi relançada no mesmo formato, fez com que a Panini lançasse novamente esta série. Uma das melhores obras de quadrinhos de todos os tempos, presença obrigatória na estante de qualquer colecionador.
Apesar do tratamento realmente estupendo para este material, o preço é muito elevado, praticamente o mesmo valor cobrado por um encadernado de capa dura da mesma editora, fazendo com que a obra se torne inacessível para grande parte dos fãs. Recentemente a Panini disse que esta obra não iria ser direcionada para as Megastores (sites de compras como a Amazon ou Saraiva), ou seja, se não conseguir comprar na banca, provável que terá que pagar valores muito maiores nas mãos de outros colecionadores, portanto tome cuidado e sempre fique de olho aonde você costuma comprar seus quadrinhos.
