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Crítica: Enola Holmes | Divertido: Assista o quanto antes!

De elenco carismático, ritmo envolvente e direção competente, um filme acima do que esperaríamos de uma produção que iria direto para Home Video anos atrás. Nele, Millie Bobby Brown é a personagem-título, irmã mais nova do mais famoso detetive da história, Sherlock (Henry Cavil), que precisa encontrar sua mãe desaparecida e se vê envolvida em questões-chave da sociedade em sua época.

Enola Holmes é uma grata surpresa. Não que a Netflix já não viesse nos brindando com boas séries, mas longas-metragens feitos para TV, normalmente, torcem os narizes de pessoas da minha geração pra trás. Mesmo quem leu “A Nova Mídia: A Comunicação em Massa na Era da Informação”, de Dizard Jr. Wilson, que eu li em 2001 (ou seja, a primeira edição já tem mais de 20 anos), aposto que nunca imaginou que a sala grande e escura, de tela gigante e surround incrível, um dia, seria substituída pelo home video (como chamávamos o mercado de mídias para assistir em casa, antes do streaming), mesmo Wilson apostando que o Video On Demand (Vídeo Sob Demanda, na sigla em inglês VOD) substituiria a TV convencional de programação descartável ao vivo. No livro, Wilson lacrava que a chamada TV Digital mudaria os hábitos da sociedade e que pessoas não mais esperariam horários específicos ou se submeteriam à obrigatoriedade da fidelidade para assistir seus programas, a não ser que estes fossem eventos de ineditismo obrigatório, como um evento esportivo.
Mas o cinema sobreviveu incríveis 20 anos, com um faturamento surpreendentemente crescente (os estúdios nunca faturaram tanto quanto nas últimas duas décadas, quando vimos o fenômeno dos filmes de heróis saírem dos quadrinhos e deixarem de ser cultura Nerd pra se tornarem simplesmente cultura Pop) e a TV foi coexistindo, mas, hoje, com a catástrofe da pandemia acontecendo, parece que a mudança de comportamento da sociedade será inevitável.
Por mais que alguns (eu incluso) amem a grande sala escura, é inegável que bilheterias de mais de US$1bi serão difíceis de repetir (mundo afora, onde governos suplantaram a pandemia, a despeito da ignorância que vivemos nos EUA e, especialmente, na Bozolândia/Brasil, a Warner vem comemorando US$100mi de bilheteria de Tenet, do Nolan, que deveria ser um “novo Matrix”) e os serviços de streaming já fazem suas apostas para um “Novo Normal”. Warner coloca duas fichas no Snyder Cut, a Disney+ acelera sua estreia em vários países e a Netflix, que tinha uma produção modesta de longas originais – frequentemente de baixo custo -, agora, passou a lançar um número bem maior de produções próprias, com um cuidado estético e cachês bem maiores do que o usual.
E é neste contexto que devemos inserir Enola Holmes, de elenco carismático, ritmo envolvente e direção competente, um filme acima do que esperaríamos de uma produção que iria direto para Home Video anos atrás. Nele, Millie Bobby Brown é a personagem-título, irmã mais nova do mais famoso detetive da história, Sherlock (Henry Cavil), que precisa encontrar sua mãe desaparecida e se vê envolvida em questões-chave da sociedade em sua época. Não vou dar mais detalhes da trama, pra não estragar a experiência de ninguém, mas vale dizer que é um bom roteiro, de construção inteligente e com boas reviravoltas, como a boa cartilha de Syd Field ensina.
Para florir e enriquecer, boas bandeiras contemporâneas são levantadas (o feminismo, em especial) com competência, sem distrair o expectador da agilidade da trama. Destaque especial às quebras da quarta parede, que fazem o expectador se sentir esperto e parte dos descobrimentos da trama, sem contar que adiciona carisma à personagem de Millie, que, sem nenhum peso, segura o protagonismo com uma desenvoltura fantástica. A gente até esquece a preguiça do uso da narração, pelo carisma da atriz. Até a participação breve de Cavil e Helena Boham Carter (mais uma grata surpresa, como mãe de Enola) passam com naturalidade.
A direção de arte competente, o (pouco) uso das cores e a fotografia bem difusa, mostrando uma Londres cheia daquela feiura bonita de época à qual estamos acostumados dão o look de blockbuster que esperávamos e a montagem ágil, acompanhando a velocidade do roteiro são uma bela cobertura a este delicioso bolo inglês que é este filme.
Aconselho a todos verem este belo longa, antes que a guerra judicial pelos direitos autorais de Sherlock Holmes possa obrigar (duvido, mas vai que) a Netflix a tirá-lo do catálogo precocemente.

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