Estreou nesta sexta-feira 29 a nova animação adulta da Netflix, Big Mouth, criada por Nick Kroll (Festa da Salsicha) e Andrew Goldberg, a série aborda de forma extremamente sincera e realista a época da puberdade misturada com elementos surreais e nonsense que nada mais são do que artifícios para representar os desejos e os problemas dessa época da vida, como o terrível Monstro Hormonal que “força” os jovens a adotarem as atitudes tipicas da adolescência.
A trama gira em torno de Andrew e Nick, personagens claramente baseados nos criadores da série, e seus amigos Jay, Missy e Jessi, além de alguns outros personagens que não são muito explorados servindo apenas de escape para que a animação não foque apenas nos problemas da juventude, como Steve, o estranho treinador das crianças na escola e o fantasma Duke interpretado por Jordan Peele, o diretor de Corra! . O programa não nega ser do mesmo criador de Festa da Salsicha, indecente e exagerado, mas também com um lado critico afiado e extremamente honesto sobre a complexidade da puberdade.

A animação não poupa situações desconfortáveis e embaraçosas envolvendo os protagonistas e também não tem medo de mostrar eles manifestando seu lado mais perverso e as vezes, até inocente, o que é um pouco estranho levando em conta que se tratam de adolescentes, mas que se analisado do ponto de vista de quem já passou por esta fase (que é exatamente o público alvo da história) se torna compreensível, visto que o programa tem como objetivo exatamente relembrar o quanto ela envolve descobertas difíceis e instigantes. Muitas vezes, o espectador pode acabar se perguntando se o que está vendo é realmente certo ou apenas uma sexualização exagerada da transição da infância para a adolescência, já que a animação parece ultrapassar alguns limites, mas é exatamente este o ponto, não é uma série fácil e confortável, é algo satírico e exagerado e é assim que foi planejado.
Fora do núcleo principal da série temos desde personagens carismáticos como o fantasma Duke que trás muitas referências a cultura pop e o jovem Matthew, até personagens estranhos e não cativantes como os pais de Nick, que apesar disso tem um papel relativamente importante em algumas partes da trama. Isso faz com que os personagens que nos sintamos mais próximos sejam apenas os principais, já que eles enfrentam as situações mais difíceis e reais, apesar de também não serem tão aprofundados, um grande exemplo disso é o jovem Jay.

Enquanto nos primeiros episódios da série temas mais reais e interessantes como questionamento da própria sexualidade e a primeira menstruação sejam abordados, após metade da temporada ela se entrega à um tom mais nonsense e histórias mais surreais chegando ao ponto de ter um personagem que engravida o travesseiro e um episódio que apresenta um universo de pornografia, abrindo assim espaço tanto para quem quer relembrar da adolescência de uma forma ácida e realista, mas também para quem quer apenas diversão despreocupada. Mas essa mudança também prejudica a trama que passa a ser mais desnecessária e mediana em alguns episódios, mas que também consegue ter bons momentos como no sétimo episódio Réquiem para um sonho erótico.
Definitivamente, essa não é uma animação para todos os adultos, é preciso ter mente aberta para que seja cativado pelo humor negro e inconsequente da série. E isso pode ser difícil levando em conta que ela apresenta todos esses excessos que em algum momentos parecem desnecessários. Big Mouth pode não ser uma ótima animação adulta e se perder um pouco da proposta inicial, mas certamente é divertida e merece ser vista por quem está disposto a ver todos os prazeres, maravilhas e dificuldades da adolescência e até da vida no geral.