Na última quinta-feira (14), a CEO da WarnerMedia – Ann Sarnoff – emitiu um comunicado, declarando publicamente sua confiança no produtor Walter Hamada (atual coordenador dos filmes da DC) e que acredita que ele não tentou interferir nas investigações, já concluídas, sobre as denúncias de assédio moral e racismo supostamente cometidas nos sets de Liga da Justiça (2017) pelo diretor Joss Whedon e pelos produtores Geoff Johns e Jon Berg.
No mesmo dia, Fisher confirmou que não está mais no elenco de The Flash e que a aparição do seu personagem – Cyborg – não seria apenas uma ponta, como foi divulgado anteriormente por alguns veículos. É evidente que isto não se trata de uma mera coincidência e seu caso ilustra o porquê de ser tão difícil denunciar condutas abusivas de figuras importantes na indústria.
Quando Harvey Weinstein foi derrubado por uma série de acusações graves de assédio sexual e até de estupro, em 2017, praticamente todo mundo do lado de fora da indústria do cinema (incluindo eu mesma) bradou indignado: “Por que ninguém denunciou?“. Independente do leitor acreditar ou não nas denúncias de Ray Fisher, fica claro o porquê de algo como Harvey Weinstein ter acontecido e continuar acontecendo.
Ray Fisher vs. Warner Bros.
A disputa entre Ray Fisher e Warner Bros. começou exatamente no dia 01 de julho de 2020, quando o ator, em meio à empolgação do anúncio oficial do “Snydercut” de Liga da Justiça, foi ao twitter para denunciar que ele e alguns colegas de produção foram vítimas de assédio moral cometido pelo diretor Joss Whedon durante as filmagens do longa. Whedon assumiu as rédeas da produção depois do afastamento de Zack Snyder do projeto. Fisher também alegou que a conduta dos produtores Geoff Johns e Jon Berg era permissiva com o comportamento tóxico de Whedon.
Pressionada pela repercussão das palavras de Fisher, a WarnerMedia decidiu investigar o caso em agosto. Em 04 de setembro a situação ficou tensa quando a Warner Bros. divulgou um comunicado alegando que Fisher não estava colaborando com as investigações. Fisher negou as acusações em uma declaração própria e depois recebeu apoio de Jason Momoa, em um post publicado pelo “Aquaman” no Instagram.
Ninguém sabe exatamente quando as investigações foram encerradas. O que todos sabem é que Joss Whedon se desligou da produção de The Nevers, uma série que ele desenvolvia para a HBO Max. Em 11 de dezembro, a WarnerMedia comunicou que havia aplicado “medidas corretivas” em relação ao caso.
Não satisfeito, Fisher disparou acusações contra Walter Hamada, acusando o produtor de interferir nas investigações para proteger Geoff Johns, que, segundo o ator, o chamou em seu escritório para intimidá-lo a não denunciar o comportamento de Whedon. Fisher também acusa Johns de racismo. As novas declarações do ator resultaram na divulgação do comunicado da CEO da Warner a respeito.
Consequências, consequências…
É fato que Ray Fisher vai ter muita sorte se conseguir dar a volta por cima e salvar a sua carreira em Hollywood depois dos últimos meses. O pior de tudo é que eu realmente acredito que ele esteja falando a verdade. Ao defender o colega no instagram, o Momoa literalmente postou um “nos trataram feito lixo“. Quer dizer, não acho que o Momoa se manifestaria publicamente desse jeito se as alegações de Fisher não tivessem um fundo de verdade.
Imagine que você é funcionário de algum grande estúdio de Hollywood, decide expor o caso publicamente e aí encontra muitas reações como essa:

Além do óbvio risco de perder o emprego e não conseguir mais nenhum outro trabalho, ainda é preciso resistir ao escrutínio público (e natural) de gente que acha que você está ali só para chamar a atenção, ou ganhar dinheiro. Lógico que coisas assim acontecem, vide o caso de Jussie Smolett, que forjou um ataque racista para impulsionar a carreira e por um tempo deu muito certo, até a polícia desmascarar a farsa.
Fora que uma empresa milionária como a Warner pode muito bem manipular as narrativas que são publicadas na imprensa, caso queira, o que torna tudo ainda mais complicado. Vale lembrar que em 2015, Harvey Weinstein foi alvo de investigação pela polícia de Nova Iorque depois de uma modelo italiana de 22 anos, Ambra Gutierrez, tê-lo acusado de assédio sexual. A moça foi encorajada pelos investigadores a se encontrar novamente com Weinstein e gravar uma confissão de que ele a tocou de forma inapropriada. O produtor também chegou a prestar depoimento aos investigadores. Enquanto os trabalhos da polícia prosseguiam, mais tabloides passavam a acompanhar o caso, e mais matérias negativas sobre a modelo surgiam na imprensa. Quando Weinstein foi derrubado pelas acusações publicadas no The New York Times e na The New Yorker, em 2017, foi divulgado também que ele pagou jornais para publicarem matérias negativas sobre Ambra, desacreditando-a publicamente.
No entanto, não acho que a Warner tenha chegado a esse ponto para se proteger das acusações de Fisher, principalmente pelo fato do ator ser uma figura desconhecida do grande público. Ele ter dito que jamais trabalharia em um filme produzido por Walter Hamada também não ajudou. Entre um ator que quase ninguém sabe quem é e um produtor bem sucedido, é evidente que a Warner Bros. precisa mais do último do que do primeiro. Se Fisher pensou mesmo que a Warner deixaria Hamada de lado em nome da ética no ambiente de trabalho, foi muito ingênuo.
Na declaração divulgada no última semana, o ator se diz entristecido por não poder mais interpretar Cyborg, mas que está em paz por ter lutado pelo que acreditava ser o certo. Esta alegação dá a entender que o ator não parece acreditar que o embate com a Warner vá afetar a sua carreira a ponto de destruí-la. Embora sua atitude em enfrentar uma corporação para se defender de maus-tratos seja admirável, saber escolher suas lutas também é. Esta última posição é a mais comum de ser adotada justamente porque é a mais fácil.
Qualquer pessoa que tente denunciar, sendo vítima ou não, além de colocar a profissão em risco, também vai precisar se defender dos ataques da imprensa, e talvez até de um processo judicial por acusar alguém sem provas (se houver crime envolvido). É quase inevitável que as pessoas fiquem caladas num cenário como esse, o que acaba gerando uma permissibilidade com a conduta do agressor.
Talvez a “sorte” do Fisher ao comprar briga com a Warner seja o fato de todos os envolvidos não serem nomes famosos do público, como Weinstein era. Se Hamada tivesse o mesmo nível de fama, o contra-ataque seria muito mais destrutivo, afinal de contas, quem iria aguentar ficar sem trabalho e sendo alvo de ataques de praticamente todo mundo em volta? Haja saúde mental. Talvez a irrelevância de Fisher na indústria seja a tábua de salvação da sua carreira, afinal o ator não é importante o suficiente para ser notado, nem mesmo de forma negativa. Qual o produtor que vai gastar energia pra convencer que um ator, cujo nome poucos sabem, é uma pessoa difícil para se trabalhar? Todas as vítimas de Weinstein que foram prejudicadas por ele eram nomes relativamente conhecidos, o que tornava fácil a tarefa de apagá-las porque muita gente se lembrava quem elas eram.