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Crítica: Pantera Negra – Wakanda para Sempre | Um maduro retrato sobre o luto

Pantera Negra é de fato um marco no cinema. Quando tivemos a primeira aparição do personagem, já vimos a sua repercussão entre nós. Crianças negras usando a fantasia do herói, e o orgulho dos próprios adultos ao verem ali alguém que representava sua cultura. Olhando para o escopo geral, muitos “fãs” irão falar que isso não é tão importante. No gênero de heróis, ter alguém que luta para proteger não somente o que é certo, mas também o seu povo, isso é diferente.

O filme estreou e sua repercussão ultrapassou as telas. Vimos a comunidade negra enfim vendo nas telas um filme que respeita sua cultura originária, e que vai além disso mostrando os seus dilemas atuais. Merecidamente o filme foi para o Oscar levando alguns prêmios, e Chadwick Boseman tendo o reconhecimento como ator.

Após isso eu vi o ator novamente em Destacamento Blood, um filme intenso que nos permitiu ver uma nova persona do ator. Seu carisma, sua dedicação pela arte e também seu amor pelo herói nos marcaram ao longo dos anos. Então chegamos em 28 de agosto de 2020 onde recebemos a notícia sobre o falecimento do ator.

O impacto foi gigantesco e todos sentiram, afinal foi uma morte inusitada. De acordo com as informações da época, o ator estava enfrentando o câncer, mas optou por não falar para ninguém o que estava acontecendo e continuou trabalhando. Com isso, o roteiro de Pantera Negra 2 agora passaria por reformulações.

Funeral feito para o Rei T’Challa em Pantera Negra: Wakanda para Sempre

Sabíamos que o manto seria passado para alguém, e descobrimos isso através dos próprios trailers divulgados pela Marvel, contudo na época era diferente. Um período de pandemia, as polêmicas envolvendo Letitia Wright e suas opiniões contra a vacina, e a própria questão envolvendo o manto do personagem.

Agora com o lançamento de Wakanda para Sempre, enfim temos o desdobramento dessa história e também do legado de Chadwick. Após os eventos envolvendo Thanos, o Rei T’Challa (Chadwick Boseman) falece e o reino de Wakanda fica sem um defensor. A Rainha Ramonda (Angela Bassett) precisará lidar com a exploração feita por países exteriores em busca de Vibranium. Para isso Shuri (Letitia Wright) e Okoye (Danai Gurira) irão precisar ir em busca de Riri Williams (Dominique Thorne) antes que entrem em confronto com um reino perdido comandado por Namor (Tenoch Huerta).

Namor e sua legião.

É impressionante como certos temas ecoam por Hollywood em certos momentos. Tivemos dois filmes de heróis que buscam abordar o anti-imperialismo, e antes de Wakanda para Sempre veio Adão Negro. Entretanto o que difere esses dois além do nível de qualidade, é também a forma como isso é abordado. Aqui não somos somente apresentados ao tema, mas exploramos ele e em como isso afetou as culturas dos povos originários. Tal dilema é trazido, e por mais que seja abordado somente em sua superfície, se torna o suficiente para questionarmos e entendermos o personagem Namor.

Inclusive, o personagem é muito bem apresentado ao universo Marvel, e sua adaptação traz a essência necessária para ele. A mudança de etnia e também a localização do reino submerso possuem uma consistência coesa e que aprofunda ainda mais o ódio do personagem pela superfície. A atuação de Tenoch Huerta também não deixa a desejar, ele entrega o carisma e ameaça que o personagem transmite (assim como a sua malemolência que pode preocupar um futuro Reed Richards).

 E nisso vemos um problema, a preocupação da Marvel com o seu futuro. Há momentos no filme que servem somente para catapultar histórias para os próximos projetos, que poderiam ser muito melhor aproveitadas caso focasse no enredo principal. São momentos curtos, mas que nesse meio tempo causam uma quebra no ritmo do filme.

E de fato acaba sendo um filme lento e que sua progressão trava em certos pontos. A dinâmica é prejudicada por não tem um caminho certo para seguir em alguns momentos, e em outros não há uma constância do drama e sim blocos fechados de tensão. Só que levando em conta que esse é um filme que aborda o luto, sua progressão é compreensível e destaca a maturidade que ele possui.

Sabemos do fator “fórmula Marvel” e como ele é capaz de trazer humor para momentos desnecessários, mas aqui isso não se repete. O tom do filme é fúnebre e apresenta o desenvolvimento de todos presentes na história. E até mesmo os seus momentos cômicos que se encontram mais presentes na Riri Williams, contrastam com toda a tensão existente do enredo.

Sua narrativa percorre o tema do luto e como uma lida com ele, através da vingança, superação, remorso e entre outros. De frente a isso também existe o ceticismo perante tradições e como lidamos com a morte de entes queridos. A trajetória nos instiga a pensar além do filme, e a homenagem ao Chadwick intensifica tudo isso. Sua estrutura nos permite pensar sobre aqueles que se foram, e os que ainda estão aqui.

E adentrando em tal estrutura, vemos tudo que forma ele um filme diferente da Marvel em sua fase 4. Hannah Beachler retorna para o Design de Produção mantendo o alto nível dos figurinos e cenários que compõe Wakanda, e agora também o reino de Namor. Já a fotografia de Autumn Durald traz grandiosidade para o filme, mas também entrega na sutileza de suas cores os sentimentos que transbordam de cada momento.

E é claro, Ryan Coogler. O diretor que possuía um laço muito forte com Chadwick traz aqui uma homenagem através de sua direção, e como ele faz isso? Através do silêncio. É difícil notarmos em filmes de heróis o silêncio como ferramenta narrativa, afinal a ação e explosões são normalmente o padrão. A situação aqui é diferente, vemos o silêncio sendo apresentado como uma necessidade para superar o luto, onde somente parando para respirar, sentimos aqueles que se foram.

Como um todo Pantera Negra: Wakanda para Sempre traz uma história madura sobre o luto e consistente com os seus personagens, onde vemos que todos ali possuem um desenvolvimento coeso. Apesar de seus problemas de progressão e preocupações com o futuro do MCU, ele entrega além do esperado e encerra em alto nível a fase 4 da Marvel.

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