Nos últimos anos, o público de modo geral, pode presenciar uma certa crise criativa com o cinema norte-americano, algo que pode ser facilmente atestado pela quantidade de remakes, reboots e adaptações de outras mídias, que tem se tornado cada vez mais frequentes, e que, na maior parte das vezes, deixa muito a desejar.

Este cenário, somado ao fato das plataformas de streaming (principalmente a Netflix) terem cedido um espaço cada vez maior para que outros estilos de cinema fossem apresentados ao público, fez com que a procura por estas obras fora do espectro dos filmes norte-americanos, crescesse exponencialmente. Isso se deve também ao fato de que estes outros “polos”, tem realizado obras de qualidade inegável, O Caso Collini, não foge desta regra, concedendo ao espectador uma obra tensa, instigante e ao mesmo tempo um visual deslumbrante.

O longa é uma adaptação do romance escrito pelo alemão Ferdinand Von Schirach (Crimes: Culpa), sendo dirigido por Marco Kreuzpainter (Beat) e roteirizado por Christian Zübert (O Tesouro do Falcão Branco), Robert Gold (Shahada) e Jeans-Frederik Otto (Donna Leon), o

A história tem uma premissa relativamente simples: O jovem advogado Caspar Leinen é nomeado pelo tribunal para defender o suspeito em um caso de assassinato espetacular. Mas ele logo começa a desenterrar um dos maiores escândalos jurídicos de todos os tempos, uma terrível herança nazista.

A sinopse nem sequer arranha a complexidade da trama que é desenvolvida magistralmente em 123 minutos, com uma narrativa instigante que prende o espectador do primeiro ao último minuto.

A trama, apesar de ser um pouco clichê, percorre caminhos interessantes para a condução da narrativa, recorrendo diversas vezes a flashbacks em momentos pontuais para dar ainda mais enfoque no dilema do personagem central, até mesmo a grande “revelação” que é o final do longa.

Apesar de usar muitos termos relacionados a área da advocacia, o filme utiliza, de forma muito inteligente, o júri como uma ferramenta de tradução das leis apresentadas em sessões no tribunal, permitindo que o espectador não se perca no meio das minúcias elaboradas pelo embate dos advogados.

A fotografia do filme é espetacularmente sugestiva para olhos bem treinados, aderindo a cores mais voltadas para o amarelo, denotando que o espectador preste atenção nos detalhes, pois algo está terrivelmente errado. A escolha dos enquadramentos, principalmente no personagem central, cria uma nova camada para o filme, denotando a sua solidão ao se deparar com um caso praticamente impossível, e uma descoberta aterrador acerca do homem que ele tinha como pai, e de como isso fez ele se tornar alguém que se conectava mais com as pessoas.

Neste ponto, vemos o desenvolvimento de um personagem de forma orgânica e convincente, e aprendemos junto com ele, lições valiosas de vida e empatia humana. E também nos apresentando novamente aos terrores da segunda guerra mundial e de como ainda suas ramificações atingem, principalmente, o povo alemão, como uma nódoa eterna na cultura destes cidadãos.

Grande parte do filme apresentar isso de uma forma convincente para o espectador, é devido ao elenco que realmente está espetacular. Apesar de Elyas M’Barek (Uma Amizade Inesperada) ainda carregar muito uma pose de galã hollywoodiano, consegue entregar os nuances necessários para tornar seu personagem convincente e fazer com que o público sinta empatia pelo crescimento dele ao longo da trama.

Franco Nero (John Wick 2: Um Novo Dia para Matar) tem uma atuação mais contida, fazendo com que seu personagem seja quase apático a tudo que o cerca, mas de forma singela, entrega nuances quase imperceptíveis que somam muito para o personagem, o tornando ainda melhor com o passar da narrativa.

Apesar da obra em si ser excepcional, a campanha de marketing do filme, não é tão genial assim. Mesmo sendo inspirada em uma obra de um autor famoso, o filme depende muito da “grande revelação” que é apresentada ao espectador, mas ela é amplamente divulgada em praticamente todos os materiais de divulgação (incluindo o próprio trailer), o que acaba diluindo muito o impacto do espectador ao se deparar com o plot twist no filme.

O Caso Collini, apesar de apresentar ao espectador uma estrutura de filme completamente dentro dos padrões de filmes de tribunal, se mune de uma narrativa investigativa muito bem desenvolvida e com um desenvolvimento de personagens invejável a muitas produções. Este com a mais absoluta certeza entra na lista de filmes para se quebrar o preconceito das legendas e assistir sem medo, pois se trata de uma obra que atesta a qualidade do cinema alemão em cada momento.

 

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Amante de filmes e quadrinhos desde que me conheço por gente, existindo numa vida dirigida pelo Stanley Kubrick e roteirizada pelo Grant Morrison.