Ah o tempo … o bom e velho tempo. Quem de nós nunca quis voltar no tempo? Ou quem sabe avançar no tempo? A maioria de nós com certeza já quis ter o poder de mexer ou mudar o tempo, porém isso infelizmente não nos é possível. Mas como no cinema tudo é possível, “A Morte te dá Parabéns 2” brinca com o tempo de forma genial, e coloca a vida de sua protagonista de cabeça para baixo, juntamente com o telespectador.

A sequência recente, já que seu filme antecessor foi lançado a não muito tempo, em 2017, consegue captar tudo aquilo do primeiro longa, e ainda se preocupa em relembrar o telespectador menos atento em um pequeno, mas importante flashback da vida (e das mortes) de Tree, no filme anterior. Na história acompanhamos Tree dois anos depois do loop que a deixou presa no dia de seu aniversário, morrendo várias e várias vezes vítima de um assassino mascarado (que até isso é melhor explicado aqui). Agora bem, namorando com Carter (Israel Broussard) e sendo uma pessoa realmente melhor, ela se vê novamente em um pesadelo quando Ryan (Phi Vu) também começa a viver o mesmo dia, acordando sempre depois de ser assassinado por um psicopata mascarado, com a mesma máscara que o assassino que perseguia Tree usava dois anos antes. Agora tudo parece diferente, o assassino parece o mesmo mas as motivações, vítimas e a forma como tudo está acontecendo está diferente. É muito interessante notarmos pequenos detalhes diferentes daquele dia, e tentar entender o porquê de tudo se repetir com Tree, mas agora também com seus amigos. Com os mesmos elementos de seu trabalho anterior, o diretor Christopher Landon não arrisca muito, mas ainda assim inova mesmo se espelhando basicamente na mesma história do filme original. O grande acerto do trabalho de Landon é reaproveitar tudo que deu certo antes, e aumentar a dose de humor a fim de cativar o público que gostou tanto do primeiro longa, e ainda criar um roteiro bem amarrado que explica muita coisa deixada em branco pelo seu antecessor. Com essa explicação vem um gênero muito bem-vindo na sequência, a ficção científica, que rende momentos incríveis na história de Tree e seus amigos. Misturando slasher com comédia, e agora ficção científica, temos os ingredientes perfeitos para um belo filme pipoca, que nas mãos erradas poderia ter dado completamente errado, mas nas mãos do competente Christopher Landon deu muito certo. A Blumhouse e a Universal também merecem créditos por acreditarem em um roteiro tão insano, mas ao mesmo tempo tão genial, e assim produzirem um pequeno grande “guilty pleasure”, que pode sim se tornar uma franquia clássica futuramente, para os amantes de slasher e sci-fi.

O talento e carisma de sua protagonista também ajuda muito o longa. Jessica Rothe (La La Land: Cantando Estações) é uma figura extremamente carismática, e que possui grande talento na atuação, entregando todos os momentos precisos de sua personagem. Os momentos mais cômicos de Tree são muito bem interpretados pela atriz, além é claro, dos momentos de suspense e terror, com a gritaria e correria típica de uma final girl, que mais uma vez são entregues de forma convincente por ela. Mas pensa que para por aí? Não mesmo. O diretor ainda exige que a personagem tenha uma carga dramática bem interessante nesta sequência, rendendo diálogos emocionantes com sua mãe, e questionamentos interessantes sobre como aproveitar o tempo, e como escolher onde ficar e com quem recomeçar, sobre viver no passado ou encarar o futuro. E Jessica dá conta do drama também, conseguindo não só cativar como emocionar quem realmente se propôr a entrar em sua louca jornada. Os diálogos mais importantes, e questões levantadas são um grande mérito do roteiro, porque é muito fácil deixar um terror com comédia cair na bobagem explícita, ainda mais misturando tantos gêneros distintos, como ficção e drama. Mas conseguir criar momentos sérios e convincentes em meio a toda essa diversão não é tarefa para muitos, e ele consegue fazê-lo com maestria, horas caminhando na comédia boba que te arranca umas boas risadas, horas te dando um sustinho com o assassino mascarado atrás dos jovens, e horas te deixando sério e atento aos diálogos e decisões que os personagens tomarão a seguir.

Importante mencionar também que todo elenco dá conta do recado e interpreta bem seus papéis, os novos acréscimos de personagens não prejudicaram, e acabaram tendo um desempenho importante na história. Há tantas cenas engraçadas que é difícil falar de uma específica, mas uma que me conseguiu realmente me fazer rir é da personagem Danielle (Rachel Matthews) imitando uma francesa, só posso citar isso para não largar um spoiler, mas é sério, preste atenção nesta cena porque é hilária. O tanto de morte e correria dá espaço para a ficção nerd, que explica o porquê do loop temporal de Tree, e o porquê dos novos acontecimentos agora, depois de 2 anos que ela conseguiu quebrar aquele ciclo. Há momentos slasher sim, tem umas duas cenas de perseguição bem bacanas, mas o interessante é realmente os motivos do loop serem revelados, a motivação do novo assassino que é revelada ao final (junto com sua identidade), e o porquê de tudo agora estar diferente. Além é claro dos vários momentos divertidos que reviver aquelas mortes rende a nós. A trilha sonora como sempre é outro ponto positivo do longa, momentos simples que acabam se tornando épicos com uma música bem escolhida ao fundo. No fim, essa nova jornada na vida de Tree serviu como mais uma aprendizado, como ela poderia ser ainda melhor, como ela poderia finalmente deixar o passado para trás e recomeçar, e principalmente como tudo poderia ter sido diferente já na primeira vez em que sofreu o loop, em um diálogo incrível que ela tem com a Lori (Ruby Modine), que agora está viva (e você entenderá o porquê). Afinal tudo é questão de escolha, e as escolhas da personagem a fizeram sofrer um bocado anteriormente, mas agora ela finalmente aprendeu. E nós também acabamos tirando uma boa lição sobre isso, como tudo poderia ser diferente, como tudo depende apenas de nossas escolhas. E pensar que tudo isso pôde ser visto em um filme comum, sem orçamento exorbitante, e que é uma simples comédia de terror, agora com toques de sci-fi.

Essa viagem no tempo é louca, genial e muito divertida, e se você assim como eu já gosta do primeiro filme, eu sugiro que corra para o cinema e veja a sequência, porque está valendo muito a pena. É um filme leve, descompromissado que nem se leva a sério demais e nem se deixa cair no pastelão, e que cativa do primeiro ao último ato. Eu juro que sentado na poltrona do cinema nem vi as horas passarem, e essa 1h40 de filme passou rápido demais, de tão bom que ele é. A Morte te dá Parabéns 2 é definitivamente tão bom quanto o primeiro filme.