Written by 17:47 Artigos, HQs/Livros | Artigos

“Nonada”: quando a ficção científica vira espelho da solidão contemporânea

E se o planeta fosse mil vezes maior do que imaginamos? E se os continentes fossem tão distantes que o contato humano se tornasse raro, caro e quase impossível? Em Nonada, novo romance do escritor carioca Renato Amado, essas perguntas não servem apenas para construir um mundo estranho, elas funcionam como um espelho incômodo da nossa própria realidade.

Publicado pela Editora Cajuína, o livro mistura existencialismo e ficção científica para refletir sobre temas urgentes do presente: solidão, finitude, relações mediadas pela tecnologia, masculinidade em crise e o isolamento produzido pelas bolhas sociais e ideológicas.

Um homem comum diante do absurdo de existir

A história acompanha Galeano, motorista de aplicativo e ex-praticante de wingsuit, um esporte radical que contrasta com sua vida atual marcada pela rotina, pelo cansaço e por uma crise existencial silenciosa. É dentro do carro, em conversas aparentemente banais com passageiros, que o Brasil urbano contemporâneo se revela, com seus preconceitos, contradições e microviolências diárias.

Ao mesmo tempo, Galeano inicia uma relação à distância com Seiryu, uma mulher que vive em outro continente e que ele observa através de um telescópio. Não há toque, não há convivência, apenas o olhar mediado por uma lente. O amor, aqui, é atravessado pela impossibilidade.

Essa conexão improvável simboliza com precisão as relações contemporâneas: estamos hiperconectados, mas cada vez mais distantes.

Uma Terra plana como alegoria do isolamento

O mundo de Nonada se passa em uma Terra plana, fragmentada e mil vezes maior que a nossa, onde continentes funcionam como universos isolados. A escolha não é gratuita. Renato Amado constrói uma poderosa alegoria sobre ignorância, isolamento e o modo como observamos o “outro” à distância, muitas vezes como voyeurs, consumindo culturas e realidades sem realmente compreendê-las.

Aqui, a ficção científica não aponta para um futuro tecnológico, mas para um presente emocionalmente esvaziado. Trata-se de um existencialismo cósmico, onde o espaço amplificado só evidencia a pequenez humana.

Finitude, silêncio e o não-dito

A angústia diante da morte e do absurdo da existência é o motor narrativo do romance. O próprio autor afirma que escreveu Nonada como uma forma de lidar com a finitude, não para resolvê-la, mas para aprender a coexistir com ela.

Essa reflexão aparece também na forma do texto. O livro valoriza o silêncio, as lacunas e o não-dito, convidando o leitor a participar ativamente da construção de sentido. O título, Nonada, remete justamente a esse “quase nada” que atravessa a experiência humana: aquilo que escapa, que não se nomeia, mas insiste em existir.

Masculinidade em crise e relações atravessadas pelo machismo estrutural

Galeano não é um herói, nem um vilão. Ele é um homem comum, dividido entre gestos de ternura e comportamentos moldados por um machismo estrutural muitas vezes inconsciente. O romance não absolve nem condena: expõe.

Essa ambiguidade permite discutir as contradições da masculinidade contemporânea, especialmente em um mundo que exige novas formas de afeto, mas ainda carrega velhos padrões de comportamento.

Um autor que também atravessou rupturas

A trajetória de Renato Amado dialoga diretamente com os temas do livro. Formado em Direito pela PUC-Rio, ele deixou uma carreira sólida de dez anos como advogado concursado da Petrobras para se dedicar integralmente à literatura e à vida acadêmica.

Doutor em Literatura em Língua Portuguesa pela Brown University (EUA) e mestre pela UERJ, Renato já lecionou em universidades norte-americanas e coordenou programas de língua portuguesa. Além disso, possui uma forte atuação como editor e agitador cultural, tendo fundado a Editora Flâneur e o coletivo Caneta, Lente & Pincel, que uniu literatura, fotografia e artes visuais.

O prefácio de Nonada é assinado por Leila Lehnen, professora e chefe do Department of Portuguese and Brazilian Studies da Brown University, o que reforça o interesse internacional pela nova geração de escritores brasileiros.

Um romance para ler com desconforto e atenção

Com apenas 78 páginas, Nonada é um livro curto, mas denso. Um romance que não oferece respostas fáceis, mas provoca perguntas incômodas. Ele fala de amor à distância, da exaustão cotidiana, da dificuldade de existir em um mundo mediado por telas e da necessidade, talvez inevitável, de aceitar o absurdo como parte da experiência humana.

Mais do que uma obra de ficção científica, Nonada é um convite à escuta, ao silêncio e à reflexão.

Close