Nos anos áureos da Marvel, a dupla Stan Lee e Jack Kirby criaram um panteão surpreendente de personagens dentro do título do Quarteto Fantástico. De todos, talvez a dupla cujos fãs tem mais apreço são o Surfista Prateado e o Devorador de Mundos: Galactus, cujos quais apareceram pela primeira vez em Fantastic Four #48, na saga que ficou conhecida como: Trilogia Galactus, um marco da editora. Surfista Prateado: Escuridão é uma HQ que recupera o tom filosófico do herói, com uma alta carga de psicodelismo, de uma forma envolvente e impactante.

Escrita por Donny Cates (Venom) e desenhada por Tradd Moore (All-New Ghost Rider). O caos reina em toda a galáxia após o assassinato de Thanos por sua filha adotiva Gamora. Durante a leitura do testamento do Titã Louco, a Ordem Negra (a milícia particular de Thanos) ataca os convidados e os abre um buraco negro no meio da cerimônia. Alguns dos maiores heróis do cosmo vão parar nesse abismo, entre eles o Surfista Prateado, que precisa sobreviver a essa jornada pela escuridão.

O roteiro de Donny Cates apela para uma veia mais filosófica, bem diferente do blockbuster alucinado (mas igualmente divertido) que ele faz em Venom. Mas se você pensa que por isso a história é chata ou parada? Muito pelo contrário, ela consegue dar um tom reflexivo e ao mesmo tempo instigante a cada página, oferecendo ao leitor uma experiência imersiva muito bem feita, que poucas obras no ramo conseguem oferecer.

Cates se vale de alguns personagens de criação própria para fazer frente ao personagem, o que oferece uma bela dualidade ao que o personagem representa, se encaixando de forma orgânica ao roteiro. Os diálogos são bem escassos, mas não menos geniais quando usados, deixando a narrativa fluir através de balões de pensamento do próprio Surfista, o que confere um certo intimismo por parte da obra.

A arte de Tradd Moore é igualmente genial, com desenhos que causam uma certa estranheza nas primeiras páginas, por ser completamente diferente dos traços aos quais estamos acostumados dentro da indústria mainstream de quadrinhos de super-heróis, mas sem demora, o leitor se habitua a arte.

O psicodelismo é uma veia bastante utilizada em aventuras cósmicas, Jim Starlin (Desafio Infinito), já se valia muito deste elemento narrativo em suas obras no final dos anos 60, na aclamada: A Saga de Thanos. Porém, nesta história em especial, ela é elevada à enésima potência, conferindo uma arte que se aproxima muito aos traços alucinantes de Philippe Druillet (Lone Sloane).

O encadernado publicado no Brasil, com a mais absoluta certeza, é uma das publicações com o melhor custo-benefício do mercado editorial atualmente. Com uma obra editada, quase, impecavelmente, possui um arco esplêndido e fechado, por um preço realmente acessível para todos, o que facilita na entrada de novos leitores neste universo maravilhoso.

A revisão confere apenas um erro gramatical, o que é uma grata surpresa considerando outras obras que tem uma quantidade infinitamente maior de falta de cuidado editorial, o que aumenta ainda mais o custo-benefício da obra.

Este encadernado reúne as edições publicadas originalmente em Silver Surfer – Black #1-5 (2019), em 120 páginas. Com o formato 17 x 26 cm, possui capa cartonada e lombada quadrada, no mesmo molde das publicações nacionais de O Imortal Hulk. Pelo preço de apenas R$ 20,90, considerando a qualidade do material, um valor até que muito em conta.

Surfista Prateado: Escuridão, é uma obra impar no cenário atual de quadrinhos, oferecendo uma obra com uma dose pesada de psicodelismo, mas sem se tornar confusa, impõe ao leitor questionamentos e uma homenagem espetacularmente linda aos criadores do personagem, que aonde quer que estejam, estão bem orgulhosos pelo resultado desta obra.

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Amante de filmes e quadrinhos desde que me conheço por gente, existindo numa vida dirigida pelo Stanley Kubrick e roteirizada pelo Grant Morrison.