A Netflix acabou nos deixando receosos com a adaptação da HQ de O Legado de Júpiter. Com isso o receio para as próximas produções como Sweet Tooth e Sandman aumentou e deixou uma incerteza no ar. E agora enfim temos a adaptação de Sweet Tooth, e com ela vemos uma história feita com o coração do autor e a maestria em criar uma releitura única.

A produção adapta a HQ da Vertigo escrita e desenhada por Jeff Lemire. Nela temos um mundo que passou por uma misteriosa pandemia chamada de Flagelo onde ao mesmo tempo nascia crianças híbridas com aspectos animais. Os anos se passam e os sobreviventes desse mundo agora se dividem em milícias e grupos onde cada um tem uma visão diferente dos híbridos. Gus, um híbrido com traços de Cervo que vivia ao lado de seu pai em uma floresta agora parte em busca de sua mãe.

A série traz consigo uma construção narrativa que permite explorar de forma fluída diversos núcleos. Temos a presença de um narrador responsável por ambientar o início e final de cada episódio, e também através do roteiro temos as conexões entre cada núcleo sendo tecida. Com 8 episódios a série consegue respirar através dessa narrativa, não se apressando e fazendo questão de nos conectar com cada personagem.

A ambientação da série é algo feito com carinho e esforço por parte da produção. Temos um ambiente apocalíptico, mas que mistura a natureza de forma exemplar ao apresentar como aquele mundo tem uma conexão com os híbridos de animais e humanos. Os efeitos em sua maioria são práticos, o que torna ainda mais palpável aquele mundo e permite dar mais atenção nos momentos onde efeitos especiais são necessários.

É evidente em como eles conseguiram trazer elementos do momento atual da nossa realidade, onde vemos as decisões difíceis que cada personagem precisa fazer. Temos o questionamento sobre a real importância das crianças nesse mundo destruído e em como a humanidade pode ser cruel e levada ao pânico por pensamentos errôneos. E através do roteiro temos a apresentação da história de cada personagem, sua origem, suas decisões e motivações, e com isso nos conectamos e sentimos suas dores.

Apesar de ter uma quantidade considerável de personagens, Gus (Christian Convery) é o protagonista da série e ele dita a história e as conexões dela. Através de seus olhos inocentes temos a apresentação daquele mundo, e de que talvez aquela inocência e bondade seja o que falta para alguns como os personagens Tommy (Nonson Anozie) e Bear (Stefania Owen). E temos outros núcleos como o Dr. Singh (Adeel Akhtar) que busca fazer o necessário para salvar a sua esposa e se encontra quebrando os códigos médicos que jurou seguir.

A obra em momento algum contradiz o material original e ainda traz consigo uma melancolia esperança típica do autor Jeff Lemire. E mesmo com algumas alterações na trama e em sua ambientação, ela mantém todo o tom e magia daquele mundo. Sua fotografia e direção entregam momentos únicos e que contrastam com cada cenário daquele mundo. Sweet Tooth é um acerto em cheio da Netflix que pode vir a se tornar uma das melhores produções do streaming, e mostra que para fazer uma boa adaptação basta focar no cerne da sua história.

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