Quem não se recorda em 2006, um certo “repórter tapado”, de terno cinza, bigode e cabelo desgrenhado, explorando a América, fazendo piada com tudo e com todos, divertindo uma geração com suas piadas que beiram a escatologia e a bizarrice, catapultando a carreira do humorista Sacha Baron Cohen. Em sua sequência, mais do que esperada: Borat – A Fita de Cinema Seguinte, consegue dar uma continuação digna ao longa e ainda abordar questões necessárias para a atualidade, sem perder a sua essência, por mais bizarra que seja.

Dirigido por Jason Woliner (Parks and Recreation) e roteirizado por Sacha Baron Cohen (O Ditador), Anthony Hines (Irmão de Espião), Dan Swimmer, Peter Baynham (Hotel Transylvania), Erica Rivinoja (South Park), Dan Mazer (Dou-lhes um Ano), Jena Friedman (Palm Springs), Lee Kern (Bad Robots).

A sequência do Borat: O Segundo Melhor Repórter do Glorioso País Cazaquistão Viaja à América, conta a história do repórter Borat voltando para os Estados Unidos com o intuito de entregar a sua filha para algum representante do governo, com o intuito de fazer a outrora “gloriosa” nação do Cazaquistão, cair nas graças do maior país do mundo.

Esta sequência foi gravada durante a quarentena e completamente em segredo, o que fez com que os fãs fossem pegos de surpresa quando foi lançado o trailer, ainda mais lançando tão perto das eleições americanas, porém não sem um propósito. Uma das grandes marcas do primeiro longa foi satirizar a cultura americana, expondo a hipocrisia da população estadunidense ao se deparar com as atitudes, beirando o barbarismo, do Borat. Porém, nos tempos atuais, como satirizar uma sociedade que em si, já acabou se tornando uma sátira?

Sacha Baron Cohen faz isso magistralmente, colocando o personagem central e sua filha em situações extremamente constrangedoras, que denotam o absurdo pelo humor, desde pedirem para um médico de uma clínica anti-aborto sobre retirar um “bebê” da barriga da filha do Borat, passando pelas fake News ( que mesmo sendo presente na trama, o termo é citado apenas uma vez durante todo o longa), até a retratar o extremismo republicando que tomou conta da América recentemente com o movimento pró-Trump, e como estes seguidores cegos podem ser… indigestos. Sobrou até pro Bolsonaro.

Essa miscelânea de críticas e sátiras é disposta ao longo do filme de maneira orgânica e divertida, não caindo no perigo, que muitos filmes de comédia caem, de forçar demais o humor, apesar de patinar levemente em algumas cenas, o que pode tornar cenas inicialmente engraçadas, em apenas vergonha alheia.

A direção de Woliner é extremamente competente ao emular de forma coerente e com qualidade, um documentário de orçamento quase nulo, fórmula já usada no longa predecessor. A versatilidade é uma marca predominante nesse filme, principalmente pelo fato das gravações ter serem feitas durante a quarentena, forçando o diretor, os roteiristas e principalmente os atores buscarem novas perspectivas para contar a história.

No que tange aos atores, todos estão simplesmente espetaculares, falar do Cohen é chover no molhado, mas a filha de Borat, interpretada pela atriz Maria Bakalova (O Pai), consegue ser tão boa quanto o protagonista, fazendo cenas constrangedoras com uma naturalidade maravilhosa de se ver.

Borat – A Fita de Cinema Seguinte, é uma sequência, que se não for digna do primeiro filme, consegue supera-lo, ao apresentar uma crítica inteligente e escatológica de uma sociedade cada vez mais decadente. O longa nos faz rir, enquanto aponta o que existe de pior na nossa atualidade, explorando situações constrangedoras para abordar questões, que por si só, já são ridículas, evidenciando o quão absurdas elas podem chegar. Este retrato de uma época tão extremista da nossa cultura, vai fornecer para este filme um caráter tão atemporal quanto o primeiro, apenas gostaríamos que fosse um retrato menos vergonhoso, não pelo humor, mas pela realidade.