1/5

Lembro, até hoje, o dia em que assisti, na faculdade (que já faz algum tempo), um western em que Charles Bronson matava Chuck Norris em um duelo. Chuck Norris. Charles Bronson, um dia, matou Chuck Norris. O mesmo Charles Bronson que estrelou a série de filmes catárticos de extrema direita Desejo de Matar, nos idos dos anos 1970 e 80. Na franquia, Bronson (na verdade, obviamente, sua personagem, Paul Kersey) sai matando bandidos aleatoriamente na cidade de Nova Iorque, para vingar a morte de sua esposa num assalto.

Catarse. Pura e simples. No filme de 1974, Kersey é criativo e mata os bandidos das formas mais absurdamente pensadas por um insano roteirista que você pode imaginar. E exagera. Lembro de, em um dos filmes da franquia, ver Kersey atirando (indoor) em um bandido com um lança-mísseis (!!!!!!!), fazendo-o atravessar a parede E a rua. Simples assim. Sem censura.

Mas chegamos em 2018 e a moda é fazer filmes com grandes sacadas e, de preferência, politicamente corretos e verossímeis. E qual a chance de um médico de Chicago (sim, trocaram a profissão do protagonista, que antes era arquiteto, pelo simples prazer de falar que ele era um cara que salvava a vida de todos, sem escolher, e também trocaram a cidade, afinal de contas, depois da operação Tolerância Zero, Nova Iorque é uma das metrópoles mais seguras do mundo) pegar em um lança-míssil para matar um batedor de carteira?

Trocaram uma catarse pura e simples por um pseudocomplexo senso de justiça com porrada fofa e discussões de politicamente correto. Meu pensamento é: se o filme não se encaixa nos tempos de hoje, então para que diabos fazer? O filme de 1974 está inserido em um contexto social de época, é bem feito e se resolve desta maneira. Vai dizer que não é divertido ligar a TV depois do Fantástico e ver que o Charles Bronson está no Domingo Maior?

Claro que há o lado positivo: ninguém no universo pode substituir Charles Bronson tão bem quanto Bruce Willis. Sua falta de expressão facial e suas reações de dar inveja ao Cigano Igor são perfeitas para o papel. A fotografia é um pouco clara demais para um filme majoritariamente noturno de um suposto “vigilante”, que precisa se esconder nas sombras e matar bandidos na bala. A desculpa para o celular da moça não ter pego o rosto de Kersey em sua primeira ação é ridícula e a estupidez dos investigadores de polícia é patética.

A montagem burocrática deixa a desejar e a escolha dos planos é, talvez, mais tradicional do que o filme original. Tudo muito quadrado, sem ousadia. O roteiro e os diálogos são preguiçosos, mas a maneira que Kersey consegue encontrar os bandidos que atacaram sua família é criativa. Mas o desfecho é muito bobinho.

 

4.0
Score

Pros

  • Bruce Willis

Cons

  • Quase todo o resto
Roteiro
2
Direção
3
Arte
4

Final Verdict

No fim, só serviu para matar a curiosidade de um filme que, apesar de leve, causou muita discussão nas redes sociais (justamente pelo fato de o original, de 1974, não se encaixar em tempos de "politicamente correto"), mas deu dó de gastar o preço do ingresso para ver o que passa quase toda semana no Corujão.