Antes de mais nada, caro leitor, é importante ressaltar que assistir a um filme é uma experiência subjetiva, ou seja, cada história exerce um impacto diferente em cada um. A experiência pode depender de uma série de fatores como idade, vivência e até mesmo o humor do momento. Dessa forma, tudo bem se você gostou do filme, não tenho a intenção de fazer ninguém mudar de ideia. Este é meramente um texto de opinião de uma fã.

Cuidado, o texto tem SPOILERS do longa. Continue por sua conta e risco.

Quando Animais 2 foi lançado, os críticos meio que não gostaram muito e alguns fãs saíram em defesa, alegando que o estranhamento de quem não gostou era porque o filme foi feito para quem conhecia a franquia com alguma profundidade, ou seja, os próprios fãs.

Eu também concordo que o filme foi feito para os fãs, até porque a razão de existir desse longa parece ser apenas para fazer ligações com a franquia original: Dumbledore, a própria Hogwarts, o Nicolau Flamel, Nagini e as outras pequenas referências que vão surgindo ao longo do caminho. JK Rowling chega até mesmo ao ponto de forçar a Professora McGonagall na Hogwarts dos anos 1910, quando a própria autora estabeleceu em seus livros que Minerva virou professora uns 40 anos depois. A trama vai de um enredo a outro sem sair do lugar, enquanto mete um fanservice atrás do outro. A história em si parece ser a menor das preocupações de JK Rowling.

Acompanho a franquia desde 2002. Harry Potter foi uma grande parte da minha adolescência e até hoje o universo me encanta. Quando anunciaram que fariam uma nova franquia, me animei com a possibilidade de explorar outros cantos do mundo bruxo, sem qualquer ligação com Hogwarts. Animais Fantásticos e Onde Habitam foi lançado e ficou claro que, a partir dali o caminho seria o desenvolvimento da primeira guerra bruxa. Apesar da franquia apontar para um futuro no qual muitas referências a Hogwarts surgiriam, gostei bastante dessa nova expansão, com novas criaturas e com uma nova aventura em uma cultura totalmente diferente dos bruxos na Inglaterra.

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Embora eu seja uma pessoa que não entra no trem do hype, Harry Potter é aquele tipo de franquia que sempre teve filmes ótimos e quando uma franquia acerta constantemente, é natural que você espere uma boa história a cada novo lançamento. Dito isto, não consegui evitar a surpresa e a decepção com o quão ruim esse novo filme é. A impressão que fica é que a JK Rowling não tem história para cinco filmes e decidiu costurar referências para deixar os fãs entretidos enquanto enche linguiça até o próximo filme.

Animais Fantásticos: Os Crimes de Grindelwald é disparado o pior filme do mundo bruxo. Sou fã, mas não tem como defender isso. Apesar do começo empolgante, o filme no geral é arrastado, tem 800 subtramas, nenhuma delas vai para lugar algum e quando vai, é mal-desenvolvido. São 2h15min de filme que parecem 4 horas. Acrescente a isso o fato de que os personagens parecem não ter rumo na trama. É estranho pensar sobre esse filme porque, bizarramente, muita coisa acontece e ao mesmo tempo nada sai do lugar. São 2h15 de muitos diálogos expositivos e vários “nadas”.

O quarteto principal do filme anterior é adorável, mas a JK não parece saber o que fazer com ele. De um lado, temos o Newt, que parece perdido em meio a uma história que não é a sua e a Tina, que não tem utilidade nenhuma na trama. A relação dos dois não avançou e nem regrediu um centímetro desde o primeiro Animais; e do outro lado temos a Queenie, que de repente resolve ir até a França atrás da irmã, e o Jacob, cuja memória é recuperada através de uma explicação forçada. A trama dos dois é simplesmente jogada no filme: Num primeiro momento os dois chegam a Inglaterra, aí se separam; Queenie, já em Paris, entra em desespero depois de ouvir os pensamentos de Jacob em meio aos de uma multidão (conveniente, não é mesmo?), encontra uma assecla de Grindelwald que a leva até o próprio, para num momento seguinte mudar de lado. E é isso. Tudo tão jogado que você sequer se importa com a mudança (previsível) dela para o lado do vilão.

Aliás, falando em mau desenvolvimento, o que foi toda aquela trama da Leta Lestrange? Ela pode ser a única que tem um começo, um meio e um fim nesta história, mas tudo é mostrado tão de qualquer jeito que, de novo, você não se importa com o que acontece a ela. A Leta só existe no filme para confundir a cabeça do Credence quanto a sua origem. Reza a lenda que ela também está lá para dar ao Newt um motivo para lutar, o que não soa convincente quando tudo o que se vê na tela é um amor platônico mostrado em poucas cenas. Voltando ao Credence – que também não tem muita coisa para fazer aqui – toda a confusão da Leta envolvendo o seu meio-irmão não muda em nada a história, o Credence continua do mesmo jeito que estava no começo do filme.

Se a Leta sumisse do roteiro e o Grindelwald fosse até o Credence logo no começo, eles teriam muito mais tempo de tela para se dedicar ao que realmente importava, que era o Grindelwald e o Dumbledore (por mais que Newt seja o protagonista dessa franquia, é inevitável que o personagem fique à sobra deste último). Assim, o filme teria uma história de fato e seríamos poupados daquela cena vergonha-alheia no cemitério, que mais parecia ter saído de um dramalhão ruim do que de uma mente super criativa como a de J.K Rowling. Este foi o ponto mais baixo de toda a franquia no cinema. O que diabos foi aquilo??? Eu já estava revirando os olhos com toda aquela explicação mirabolante do Yusuf Kama para mostrar ao Credence porque ele estava ali, aí vem a Leta com uma explicação mais espalhafatosa ainda envolvendo troca de bebês. Não consegui conter um “facepalm” e quando houve a revelação final na última cena (outra coisa digna de Manoel Carlos), eu já estava tão passada com a novela no cemitério, que achei aceitável o Credence ser irmão do Dumbledore. Só depois me toquei que Grindelwald pode ter mentido quanto a isso.

Existe outro fator para que a cena no cemitério seja dolorosamente ruim. Como se não bastasse o dramalhão, tudo é explicado. Isso nos leva a outra questão que esgotou minha paciência ao longo da sessão que é o excesso de explicação para tudo. Quase tudo que se fala nesse filme são diálogos expositivos, com algum personagem explicando algo que aconteceu ou que acontecerá. No entanto, cinema é visual, o filme precisa seguir a regra básica do “mostre, não conte”. No começo do filme, não cheguei a me importar com o excesso de exposição (“porque é o começo né, estão apresentando a história, faz parte“, eu pensei) mas depois de mais de uma hora e meia disso, eu já não aguentava mais. Isso contribuiu para deixar muitos momentos artificiais, pois esse excesso de explicações soa pouco natural, como aconteceu na cena em que Grindelwald explica aos seus seguidores a importância de Credence, por exemplo.

Apesar de tudo, existem coisas boas no filme. Os efeitos visuais são incríveis (alguns animais parecem até de verdade); toda a ambientação de época, desde os cenários até os figurinos, é excelente e o elenco também é bom, mas é uma pena que todos ali estão subutilizados. Eddie Redmayne parece mais seguro como Newt, Johnny Depp aparece mais contido como Grindelwald (apesar de não passar do discurso) e Jude Law está excelente como Dumbledore. A “história” principal gira em torno dos dois últimos, então é uma pena que ambos não recebam o destaque que merecem.

Quais são os Crimes de Grindelwald, aliás? O que ele faz para justificar esse título? Seriam aquelas mortes que ele causou durante a sua fuga e que todo mundo logo esquece na cena seguinte? Foi aquele bebê que a serva dele matou? Ou foram as mortes do final que quase ninguém ligou, além dos fãs mais indulgentes? Se tá no título, você logo imagina que seja algo importante, não é? 

Alguns fãs podem pensar: “Nossa, como se atrevem a dizer que esse filme é ruim, querem saber mais que a J.K Rowling”. Acontece que não é “querer saber mais”. É simplesmente querer uma boa história, que seja coesa com o universo que ela criou. Aliás, em se tratando desse filme, só em ter uma história de fato já seria um lucro. Isso é pedir demais? Você acompanha a franquia, dedica seu tempo e recursos financeiros, para depois ter que passar pano para algo de qualidade inferior? O fã não é obrigado a gostar de tudo.

O fato do filme depender de pessoas, objetos e lugares que somente são reconhecíveis pelos fãs para ser minimamente interessante é um problema. Vi até gente dizendo que as pessoas deveriam assistir aos 8 filmes de Harry Potter para se familiarizar com o novo filme. Não dá para levar esse tipo de afirmação a sério por dois motivos: 1) Assistir aos 8 filmes antes de ver esse é inútil, pois Os Crimes de Grindelwald não depende de você conhecer as referências, mas sim do apego emocional dos fãs. Um espectador comum não tem esse elo, por mais que assista aos filmes; 2) Esse mesmo espectador, assim como uma parcela dos fãs, gostam de ver filmes para acompanhar uma história. Coisa que não existe aqui.

Alguns fãs mais sensíveis podem se dar por satisfeitos com os vários fanservices do filme, mas isso não é o bastante para aqueles fãs que não são tão impressionáveis assim. Acho fanservices e referências uma enorme bobagem, mas confesso que senti um arrepio quando Hogwarts apareceu ao som de Hedwig’s Theme. Foi o único momento do filme no qual eu saí do tédio e foi praticamente o ponto alto do filme, mas, olhando com frieza, não foi nada demais. Isso diz muito sobre como o filme é.

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“O fato do filme ser incompleto se deve ao caráter de transição dele, ainda estamos no segundo filme de uma série de cinco”, defendem alguns. Pena que essa seja uma desculpa tão ruim. Dentro da franquia Harry Potter, inclusive, existe um filme de transição que é o sexto da saga: Harry Potter e o Enigma do Príncipe basicamente é uma preparação para o sétimo episódio, mas não deixa de ser uma história de fato, a trama se move, os personagens evoluem e entram em conflito. Até mesmo Harry Potter e as Relíquias da Morte – Parte 1, que é literalmente um pedaço de uma história, tem desenvolvimento de personagens e se sustenta como filme. Já os Crimes de Grindelwald, por sua vez, é um longa de 2h15 que nunca começa de fato. A desculpa de ser “uma transição” não cola.

Por mais incrível que possa parecer, o maior problema de Os Crimes de Grindelwald é a própria JK Rowling. Ela claramente demonstra dificuldade em escrever em um formato diferente que não seja o literário. Ou é isso, ou ela simplesmente parece não saber o que fazer com tanto personagem e subtramas que criou. Diante de tanta bagunça, é muito difícil acreditar que ela tinha tudo isso planejado há 20 anos, como ela faz questão de dizer.

JK Rowling é um poço de criatividade e por trás de Animais 2 existem boas ideias, como a relação entre o discurso populista de Grindewald e as ideias fascistas que ascendiam naquele momento na Europa, o que torna mais lamentável ainda esse filme não ter funcionado. Depois de Os Crimes de Grindelwald, minhas expectativas em relação aos próximos três filmes ficam abaixo de zero agora. Meu interesse em saber o que vem em seguida não é motivado pelo gancho no final, mas pela curiosidade em saber como a J.K Rowling vai lidar com esse “samba do crioulo-doido” que ela mesma inventou.

Quem diria que um dia eu estaria ouvindo a frase “feito para fãs” a respeito de um filme do universo Harry Potter. Ainda tô impressionada que ninguém soltou um “grande demais para mentes pequenas” até agora, mas não vai demorar muito para acontecer, tendo em vista o andar da coisas. Só espero que a J.K Rowling seja humilde o suficiente para analisar o seu trabalho aqui e aprender com os próprios erros. Nem ela é infalível.

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